Escuta Essa 36 – 1967: O Ano Mais Psicodélico da Música

1967 é, sem dúvida, um dos anos mais interessantes e importantes da história da música rock e pop em geral. No auge do movimento hippie, foi o ano em que diversas bandas surgiram destilando psicodelismo ou aderindo a ele. Neste podcast especial, Gabriel Sacramento, BrunoChair e Lucas Scaliza falam de 1967 e detalham quatro importantes álbuns: Disraeli Gears, do CreamSgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, dos BeatlesThe Piper At The Gates Of Dawn, primeiro disco do Pink Floyd, e Domingo, a estreia em álbum de Caetano Veloso e Gal Costa.

Um episódio nostálgico, com citações de fontes históricas e diversas histórias curiosas e coloridas. Coloque seus fones e viaje com a gente para o ano mais psicodélico de todos!

Download do episódio neste link!

00’00”: Abertura
09’36”: Cream – Disraeli Gears
17’33”: Beatles – Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band
42’52”: Pink Floyd – The Piper At The Gates Of Dawn
1h22’36”: Caetano e Gal – Domingo
1h46’37”: The Doors

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Katy Perry – Witness (2017)

Cantora deixa a adolescência musical, mas falta carisma ao novo disco

Por Lucas Scaliza

Por essa eu não esperava. Após me submeter a sucessivas audições de Witness, em diferentes dias, locais e contextos, minhas reações às novas músicas de Katy Perry foram quase nulas. Me senti apático na maior parte do tempo. Logo eu, que me entreguei à experiência após curtir a música e a letra de “Chained To The Rhythm” (que discutimos no podcast). Logo ela, tão dada a fazer músicas chicletes e poderosas.

É fácil notar o que aconteceu. Katy Perry trocou o ultrapop pelo pop. Músicas muito mais contidas e muito menos catchy é o que encontramos em 80% do álbum. A própria “Witness”, que deveria abrir o disco com os dois pés no peito do ouvinte, não conquista e fica a impressão de que ela quis soar mais adulta, deixando para depois a tarefa de fisgar a audiência. Mas são pouquíssimos os momentos em que nos sentimos engajados pela cantora.

katy_perry_2017

Katy Perry é amplamente conhecida por transformar seus álbuns, clipes e shows em enormes parques de diversão, construindo uma Disney própria em que um pouco de libido é permitida, mas sem perder de vista a fofura de unicórnios e sereias da moda. Witness não compactua bem com isso. Por um lado, seu pop ainda é acessível e tornou-se mais maduro, ainda confiando no trabalho de produção eletrônica (com influências de house noventista, R&B, EDM topzera) e em algumas levadas orgânicas bem sacadas. De outro, falta o carisma que ela esbanjava em Teenage Dream (2010) e até em Prism (2013) e possui linhas vocais exigentes que nunca sabemos ao certo se ela realmente consegue reproduzir sozinha em cima do palco.

“Hey Hey Hey”, coescrita pela Sia e com backing vocals da norueguesa Astrid S, tem a pretensão de ser um hino ao empoderamento feminino. Já “Swish Swish”, com participação de Nick Minaj, é um morteiro que mira cabeça de trolls e haters. O texto de “Power” procura dar força às mulheres para que saiam da sombra de homens que não as deixam mostrar a capacidade que têm. “Chained To The Rhythm”, a mais poderosa do repertório do álbum, é um retrato bem feito de nosso mundo. Claramente inspirada no governo Trump e em sua retórica da pós-verdade, é a canção que mais se aproxima do ultrapop de outrora e se aproveita de um rap bem feito de Skip Marley, neto de Bob Marley. E “Bigger Than Me” foi inspirada na derrota presidencial de Hilary Clinton.

Em um universo de 17 canções, são essas que vêm com alguma carga política ou procurando a lacração de alguma forma. Ainda temos “Tsunami” e “Bon Appetit”, ambas sobre sexo e a forever teenage “Act My Age”. O restante são canções sobre relacionamentos passados e questões pessoais. É ótimo que os temas de Perry tenham ampliado horizontes, mas Witness está longe de ser um disco crítico (e estiloso) como Humanz, do Gorillaz, ou o álbum pop engajado do ano. E mesmo quanto às questões pessoais, está um degrau abaixo de Melodrama, da amiga Lorde.

No cerne dos acertos e erros do álbum está o compositor e produtor Ali Payami, sueco e descendente dos persas iranianos que já trabalhou com The Weeknd, Tove Lo, Ellie Goulding, Taylor Swift e Ariane Grande. Ele produziu, tocou praticamente todos os instrumentos do disco e fez as programações. Se gostar do resultado final, faça uma reverência a ele. Se, como eu, achar que faltou construir pontes mais carismáticas com o ouvinte, culpe a ele também. Em discos assim, que contam com uma equipe de compositores e arranjadores, Katheryn Hudson não pode ser responsabilizada sozinha.

Witness mostra que Katy Perry chegou a maturidade, sim, e que pode começar a trilhar uma nova fase. Embora um orgasmo possa ser comparado a um tsunami, não dá para dizer que se este álbum “chegue lá” tão bem. De fato, ao terminar, a gente quer logo olhar o que mais há por aí e não sentimos tanta vontade de repetir a dose. Você queria o tsunami, mas só levou uma brisa.

Kevin Morby – City Music (2017)

Eis a trilha sonora da solidão

Por Gabriel Sacramento

Começo esse texto com uma afirmação segura e certeira: City Music é o mais maduro trabalho de Kevin Morby, não só pelo desenvolvimento natural do artista há anos no ofício – o que acontece com todo mundo -, mas é o seu trabalho solo mais consistente e mais interessante. Tudo bem, as canções de Still Life (2014) são muito boas e muito marcantes, bem como as de Singing Saw (2016), que você já leu por aqui, mas City Music traz uma abordagem sonora típica de alguém que evoluiu na forma como pensa a sua música.

No texto do ano passado sobre o seu álbum anterior, você leu alguns elogios à carreira solo de Morby e como ele tem se dado bem. Misturando os elementos roqueiros e intensos que remetem à sua antiga banda, o Woods, com a solitude típica do folk desértico – que junto com a produção alternativa fica ainda mais atmosférico e distante. O músico conseguiu estabelecer seu nome dentro do circuito folk independente dos Estados Unidos e tem sido uma voz interessante a ecoar e nome de referência a constar nas listas de recomendações.

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City Music apresenta um Kevin muito apegado à suas criações, com boas histórias pra contar acerca de cada uma das faixas. A que abre o disco, “Come To Me Now”, impressiona pela atmosfera esvoaçante que ganha ainda mais densidade do meio para o final, mas que é impulsionada por um órgão antigo que Morby encontrou no estúdio enquanto gravava e decidiu, na hora, incluí-lo. A letra é escrita da perspectiva de uma mulher que passa boa parte do seu tempo sozinha e não gosta do sol, esperando assim pelo surgir da lua. Essa mesma mulher, chamada de Mabel, é personagem de “Tin Can” – canção que possui crescendos fabulosos, dando sempre a sensação de que vai ficar maior e mais pesada – e do longo folk “Night Time”.

Já “1234”, é uma espécie de tributo aos Ramones, com o título fazendo referência à contagem do tempo que os nova-iorquinos costumavam fazer antes de cada faixa. A sonoridade é garageira e suja no estilão bem rock’n’roll como poucas coisas na discografia solo de Morby. Quando transitamos desta para a próxima faixa, “Aboard My Train”, a impressão é que estamos ouvindo outro disco, tamanha é a diferença em termos de timbres e musicalidade. Se o vocal na primeira é sujo e está envolvido na explosão instrumental, o vocal na segunda é limpo, destacado e a base é pequena, com marcações tímidas de baixo/bateria e um piano que dá as caras aos poucos. A canção vai ficando roqueira com o tempo, sempre com marcações fortes de acordes. “Dry Your Eyes” possui uma candura quase soulful, com uma guitarra praieira, uma sensibilidade instrumental incrível, um solo bem bonito e um vocal todo em um lado da mix para dar a impressão de que está sendo cantado bem próximo do ouvido do ouvinte, criando um aspecto intimista. A guitarra e a bateria foram gravados primeiro, e então o vocal e o baixo foram acrescentados. A faixa-título é marcada pelas lindas guitarras harmonizadas, mudanças fantásticas de andamento e pelo vocal insistente de Morby repetindo as mesmas frases. É uma das melhores canções do cantor, com um trabalho de dinâmica especialmente impressionante.

Agora com 29 anos, Kevin Morby está cada vez melhor em seu folk rock. City Music tem conceito, abordando a solidão e como as pessoas se relacionam com as cidades onde residem e com as pessoas ao redor. Como se sentem ao viver sozinhas em um mundo diferente do mundo que existe em seu interior. Para Morby, a música tem muito a ver com isso e ele torna a relação poética entre a solidão e os sons perfeitamente clara para nós.

A introversão de sua música conversa conosco. Afinal, todos nós já passamos por momentos tristes, em que nós preferimos a gritaria das nossas mentes às vozes que saem pelas nossas bocas, e permanecemos inquietos e angustiados. O cantor oferece a trilha sonora perfeita para isso, conectando a atmosfera da sua música com esta sensação perturbadora, apresentando um certo conforto, sensível, sonoro e poético. Um trabalho a ser admirado.

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At The Drive-In – In•ter a•li•a (2017)

Continuação perfeitamente natural de Relationship of Command

Por Gabriel Sacramento

Imagina se o Zack De La Rocha cantasse num estilo mais melódico? Pois é, o At The Drive-In satisfez nossas imaginações há 17 anos, com Relationship of Command, um disco que lembrava o Rage Against The Machine, mas apontava para uma direção diferente: o punk, sendo reconhecido como um dos grandes lançamentos do que ficou conhecido como post-hardcore, estilo associado com a onda emo da década de 2000. Tudo bem, o estilo é bem diferente, mas a voz do Cedric Bixler-Zavala permite essas divagações delirantes com relação à voz do RATM.

O sucesso do álbum foi contagiante, mas mesmo assim a banda acabou entrando em hiato no ano seguinte (2001). O resultado foi a necessidade de sobrevivência, satisfeita pela criação de duas bandas, The Mars Volta e Sparta, com os membros divididos entre ambas. No entanto, a história se repetiu com as duas bandas acabando ou entrando em hiato. Restou novamente a necessidade de sobrevivência, que causou, felizmente, o retorno do At The Drive-In.

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Aí o roteiro você já conhece: aquele papo alegre de “estamos com saudades um do outro e queremos voltar a fazer música juntos”. Essa vontade de trabalhar junto fica ainda mais questionável quando ficamos sabendo que o baterista original, Jim Ward, recusou deliberadamente a participar da reunião. Para substituí-lo, os caras convocaram o ex-guitarrista do Mars Volta, Keely Davis. A produção e mixagem de In•ter a•li•a ficou por conta de Rich Costey, que produziu discos do Muse na década passada e mixou Foo Fighters e Audioslave.

Diante de toda essa novela envolvendo bandas e hiatos, para nós, ouvintes, restou a esperança de que o novo álbum fosse tão bom ou até melhor que o anterior. A boa notícia é que esses 41 minutos deixam claro que a banda manteve a boa forma depois de todos esses anos, permanecendo saudável e mantendo a boa e velha identidade. Aliás, ponto também para Rich Costey, que soube conduzir bem essa galera e captou um espírito total anos 2000, como se nada tivesse sido perdido. Quem sabe até como uma forma de recompensar os fãs desapontados com tantos anos sem nada da banda, eles trouxeram um álbum com um sabor de nostalgia que não sai da boca.

Assim, quando ouvimos o coro e a bateria quebrada de “No Wolf Like The Present” ou a pegada post-hardcore mais moderna de “Incurably Innocent”, percebemos de cara que não estamos diante de algo necessariamente novo. Esta última, inclusive, lembra bastante aquelas bandas de PHC que invadiram os EUA em meados da década de 2000. “Governed By Contagions” deixa claro a semelhança do timbre vocal de Cedric com o Zack do RATM, aliás o som é bem parecido com os caras de Los Angeles, a diferença é que o At The Drive-In é mais sujo e com bases propositalmente menos bem definidas. Destaco também as ótimas “Holtzclaw” e “Torrentially Cutshaw”, com uma cozinha super afiada e um entrosamento cirúrgico de toda a banda.

O som da banda texana tem uma característica interessante: diferente da versão mais metaleira do hardcore, como as praticadas por bandas como Hatebreed e Suicidal Tendencies, o At The Drive-In possui uma ênfase no som do baixo e as guitarras geralmente são utilizadas para criar peso e ruído ao redor da noção de harmonia provida pelo instrumento mais grave. E como é punk, o ouvinte é conduzido durante a audição pelas rápidas transições de acordes marcadas pelo baixo enquanto as guitarras ficam mais livres para dançar, explorando harmonias e melodias complementares. As guitarras são bem divididas e às vezes podem segurar a harmonia base também, mas percebemos que essa é uma função essencial do baixo e o instrumento brilha na mix para dar essa ideia ao ouvinte.

O vocal do Cedric varia bem entre o cantado, o “rapeado estilo Zack De La Rocha” e o gritado. A dinâmica do cantor é importante para fazer o disco variar e criar ramificações interessantes dentro da essência e fórmula típica do grupo. Assim, a banda garante a empolgação, o mosh, as cabeças balançando até o último minuto, com um ou outro instante de descanso, para beber água ou algo assim. A volta dos texanos em In•ter a•li•a está imperdível e mostra que eles não perderam nem um pouco do brilho do som de 17 anos atrás. Continua intenso, punk, sujo e ao mesmo tempo melódico. Se você se sente velho por ter percebido que já se passaram quase duas décadas desde o último, não se preocupe: o At The Drive-In vai te fazer se sentir novo, de novo.

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A Banda Mais Bonita da Cidade – De Cima do Mundo Eu Vi O Tempo (2017)

Banda paranaense volta aos trilhos com 3º disco que faz jus ao que se espera dela

Por Eder Albergoni

É impossível não começar esse texto com uma sincera e feli afirmação: A Banda Mais Bonita da Cidade conseguiu! De Cima do Mundo Eu Vi O Tempo é um trabalho que faz jus ao que se espera daquela banda que lançou “Oração” em maio de 2011. Não que tivéssemos ficado cobrando isso da banda por todo esse tempo. Pelo contrário. Para alguns, a Banda Mais Bonita tinha até acabado. “Oração” levou o grupo a um lugar ao qual eles não pertenciam. E após vagarem pelo espaço/ limbo em O Mais Feliz da Vida (2013), estão finalmente no lugar feito especialmente pra eles.

De Cima do Mundo… é um disco de intérprete, desses que seria mais comum ser concebido por um cantor performático ou por uma cantora em ascensão na carreira. O conforto é tão grande que A Banda Mais Bonita se permite contrariar um movimento que poderia ser entendido como arriscado e desnecessário, e que, frente ao resultado, se torna belo e requintado. A grande maioria das músicas não são inéditas, mas sim versões de músicas mais escondidas do grande público, compostas e lançadas por gente como Ian Ramil, Alexandre França, Tibério Azul, Los Porongas e Maurício Pereira.

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“Inverno”, “Eu e o Dela” e “Suvenir” tecem uma rede que explica a sonoridade e o tema geral do disco. Não há modo de espera, a produção ágil e sem frescuras de Vinícius Nisi deixa os dramas à vista logo de cara. “A Pé” é o primeiro grande momento do álbum, com um duo de Uyara Torrente e Thiago Ramalho absolutamente esmagador de tão bonito. O refrão faz referência ao tempo e o poder que ele tem sobre o esquecimento. É a preparação ideal para a música seguinte.

Lançada originalmente por Maurício Pereira (Os Mulheres Negras, junto com André Abujamra) em seu disco Pra Marte de 2007, “Trovoa” é um poema realizando uma crônica urbana, ou “um poema lírico que se mostra a coisa mais lógica”, onde a vida é captada por quadros peculiares em momentos quase banais, ou ainda frames mais contemplativos. Tudo faz sentido quando chega o ápice: “Se você for embora eu vou virar mendigo”. Se “Trovoa” já tinha um lugar garantido no panteão das canções populares brasileiras, essa interpretação da Banda Mais Bonita não só confirma o lugar cativo, como também refaz a relevância da banda no cenário musical do país. “Trovoa” exalta o amor de uma maneira nada óbvia e termina como o relaxamento depois do orgasmo, com um magnífico e cortante solo de guitarra de Felipe Ayres (guitarrista do ruído/mm, que participa do disco inteiro). Se, com Maurício Pereira, a faixa já era um trovão, com a Banda Mais Bonita também é o relâmpago.

 

 

“A Geada” e “Bandarra” continuam arrematando a rede construída de tecidos sonoros, com imagens que ilustram viagens sem relógio, preenchendo um universo alternativo e mais provocativo do que o que era frequente. E cabe a “A Dois” o momento mais singelo do disco. Com quase tudo pronto, esse duo (agora Uyara com Marano, o baixista da banda),  tira a Banda Mais Bonita do buraco do “quase”, onde se meteram lá em O Mais Feliz da Vida. Nada naquele disco vai adiante, parecendo fadado à sensação de que algo fica engasgado e não sai. Aqui, “Tempo” talvez tenha alguma similaridade. Fosse uma música do disco anterior, seria um grito ensurdecedor. Mas sábio como e Tempo é, ele prefere apenas assinar o que se vê no Em Cima do Mundo.

“Oração” foi cruel e suprimiu o poder de outras músicas tão boas ou melhores que existiam no primeiro disco. Por consequência, já que ninguém escapa da síndrome do segundo disco que se resume em valer o pouco que havia sido feito, restou o espaço/ limbo em O Mais Feliz da Vida. Em Cima do Mundo conserta esse defeito e mostra como a Banda Mais Bonita da Cidade poderia hoje ter uma discografia mais concisa e coerente. Se esse não chega a ser o caso, Em Cima do Mundo Eu Vi O Tempo é o disco do agora, o tempo é relativo e o passado não existe.

 

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Lorde – Melodrama (2017)

A perda da inocência: a nossa, a da juventude e a de Lorde

Por Lucas Scaliza

Faz quatro anos que Pure Heroine (2013) foi lançado. Chegou como quem não queria nada e foi galgando seu espaço naturalmente. A então jovem Ella Marija Yelich-O’Connor não era nada (nem famosa em redes sociais), mas tinha um disco com produção esperta, um acordo com a Universal e letras ainda mais espertas sobre a juventude. O sucesso a tirou da periferia do mundo pop e da sua Nova Zelândia natal para colocá-la entre pessoas, lugares e festas badalados em Londres, Nova York e Los Angeles. As ~inimigas~ Taylor Swift e Katy Perry viraram amigas de Lorde, a garota dos então cabelos volumosos.

Seria muita inocência de nossa parte achar que quatro anos depois Lorde seria a mesma pessoa e faria a mesma música. Seríamos como os adolescentes em “Perfect Places”, que tomam drogas (lícitas e ilícitas) e fazem sexo para esconder algo que falta a eles. O sucesso alcançado por ela foi estrondoso e uma estrutura de mídia e marketing foi criada em torno de Lorde para atendê-la. Melodrama é mais pop e menos dream pop, de fato. Isso se revela fácil para quem ouvir “Green Light” e tiver ouvidos e coragem para reconhecer que diversas outras partes de outras músicas são bem comuns do pop que se faz atualmente. No entanto, há uma boa quantia de indie e eletrônica que ainda resguardam não o Pure Heroine em si, mas o jeito como Lorde se expressa, chegando a soar alternativa.

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Lorde também não é inocente: teve que dar algo ao mercado, à gravadora e aos fãs que fosse capaz de “moldá-la” a um padrão. Perdeu-se um pouco da originalidade, mas no miolo do álbum existem boas ideias e um fio condutor que fazem Melodrama valer a pena. “Sober”, sobre uma relação que está se desfazendo e como isso fica claro quando o casal não está sob efeito da bebida, é o primeiro vislumbre da Lorde que aposta no diferente e no fora do comum. No mundo ideal – da gravadora -, “Sober” nunca seria um single. “Homade Dynamite” tem uma pega derivada do R&B que a cantora tanto gosta, mas é bem esquisitinha no final das contas, virando umas esquinas inesperadamente.

“The Louvre” é um belo trabalho de produção, procurando, em certo ponto, como emular as reverberações de uma festa real. “Hard Feelings/Loveless”, a música que marca o rompimento que vem se desenhando, é quando o melhor dream pop de Lorde emerge e nos faz reverenciar sua habilidade de fazer uma boa canção que não se rende ao pop fácil. “Write In The Dark” coloca o vocal de Lorde em primeiríssimo plano. No refrão, ela sobe e desce a escala e lembra que sim, é uma cantora e tanto, e que isso também foi um dos fatores que a ajudou a ser uma estrela. Por fim, “Supercut”é a evolução mais natural do estilo oferecido em seu primeiro álbum e lapidado agora para uma segunda obra mais madura.

A história do disco se passa durante uma dessas festas de jovens em uma casa, quando os adultos não estão por perto e os convidados se pegam, brigam, se amam, vão pra cama, bebem e tomam drogas. No meio disso tudo, Lorde rompe com o namorado (ela realmente passou por um grande término nos últimos dois anos), pensa a respeito, vai e volta da festa, e reflete sobre como é estar só. Quem julgar apenas pelas faixas mais baladeiras vai perder toda a parte mais interessante de Melodrama.

Se para construir sua imagem grandes equipes foram contratadas, quase todo o som do álbum foi criado de forma íntima, com Lorde e o produtor Jack Antonoff sendo responsáveis por quase tudo, desde as letras e os acordes até as intervenções eletrônicas. Isso garante que mesmo que nós, a Lorde e a juventude das festas já não sejamos mais tão inocentes assim com a vida, com o amor e com o que a neozelandesa se tornou, sua música ainda reflete sua sinceridade. Talvez de forma não tão criativa e cortante quanto antes, mas ainda assim bastante íntegra.

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Dua Lipa – Dua Lipa (2017)

Mais do mesmo deluxe edition

Por Gabriel Sacramento

Lembro-me de ver em algum lugar uma crítica a respeito da necessidade de lançamentos de edições deluxe de álbuns hoje em dia, já que boa parte do consumo se dá por meios digitais – downloads ou streaming. A crítica é válida. Afinal, não seria melhor para os artistas tornar os trabalhos mais enxutos? As audições por meios digitais cresceram e as audições de álbuns inteiros diminuíram, afinal as pessoas estão mais acostumadas a conferirem os singles e seus clipes no YouTube do que parar o que estiverem fazendo para encarar 50 minutos de música ininterrupta. Claro, cabe um parêntesis, versões deluxe são até interessantes quando se tratam de álbuns de bandas clássicas – como o Led Zeppelin que lançou em 2014 uma séries de edições de luxo dos seus discos antigos -, mas seria isso viável para discos de estreia ou discos de artistas novos?

Feitas as devidas considerações acerca deste assunto, vamos adentrar no objetivo principal este texto: o primeiro disco da cantora inglesa de origem albanesa, encarada como revelação pop, Dua Lipa. Começou a carreira postando na internet covers de Cristina Aguilera e Nelly Furtado e entre 2015 e 2016 já fazia bastante sucesso sem nem ter lançado o primeiro álbum ainda. Seu som vai na direção mais pop padrão e mesmo que ela tenha descrito sua própria música como dark pop, sua veia é bem alto-astral e colorida, salvo pouquíssimos momentos mais sombrios.

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“Genesis” já mostra o tom do álbum. Batidas simples, economia de elementos no arranjo e foco na voz da cantora. Mas a interpretação parece deixar algo faltando e não encanta. “Lost in Your Light” tem uma base até interessante, meio distante. A faixa marca a presença do cantor Miguel, com seu ótimo timbre vocal contrastando com a voz feminina. No refrão, as coisas melhoram um pouco e não é tão sem sal quanto a primeira. “Blow Your Mind (Mwah)” e seus vocais dobrados também não surpreendem, não sendo nada diferente de qualquer coisa que já ouvimos no pop moderno. Principalmente porque parece algo que poderia ter entrado no último disco da Meghan Trainor.

“Garden” é o tipo de música que requer uma entrega mais emocional do vocal, necessidade que Dua Lipa acaba não satisfazendo. “Thinking ‘Bout You” troca a instrumentação mais eletrônica por um violão. A canção parece que vai engatar, mas esbarramos, mais uma vez, na falta de uma expressão vocal mais emocionante. “Begging” também é fraca, só não esquecível por causa da base que tem um quê de dream pop, um pouco obscuro até. Por fim, “Homesick” acaba sendo a melhor faixa, com a cantora indo além com seu vocal em termos de interpretação, enquanto um piano sustenta a base. A faixa ainda ganha um vocal masculino ao fundo, novamente oferecendo um contraste interessante.

Dua Lipa foi lançado em versão deluxe no Spotify. Cinco faixas extra, sendo que delas, só uma tem algo realmente interessante a ser destacado neste texto: “Room For 2”, com vocais monocromáticos, ambientados de uma forma diferente, muito na frente na mix, mas com efeitos que mascaram e não deixam tão limpinhos quanto os vocais principais. Além dessa boa sacada, a canção também possui uma batida simples, lenta e marcante, em staccato e com um groove sutil. O resto das faixas da edição de luxo é tão líquido e esquecível quanto boa parte das faixas principais.

E isso nos leva de volta à discussão: é mesmo necessário lançar uma versão deluxe com mais músicas de um disco com um número já satisfatório de faixas (12)? Existem tantos fãs hardcore assim que fazem compensar a produção dos deluxes? No caso da Dua Lipa, a versão traz mais do mesmo do que ouvimos no disco, o que torna a experiência ainda mais penosa e difícil de agradar, pois dá a impressão que ela fica o tempo todo repetindo sua fórmula, que já não é tão rica e diversificada assim.

No mais, além das muitas faixas, Dua Lipa acaba seguindo a onda do pop padrão com bases felizes e dançantes, sem uma renovação de ideias que poderia ser decisiva para animar o ouvinte um pouco mais ou surpreendê-lo. Tudo é muito polido e bem produzido, com um som tão limpo quanto o rosto da cantora na foto da capa, mas o disco parece não querer ser nada além do que simplesmente isso: um disco pop bem feitinho. A “cosmética” acaba superando a capacidade de expressão, afinal.

Sendo seu primeiro trabalho, não sabemos o que será dela no futuro, mas seu sucesso e bom reconhecimento na imprensa – em grande parte por causa dos singles – nos permite supor que ela continuará investindo no pop fácil. No final, o primeiro disco da inglesa acaba sendo um álbum que pode até te fazer dançar ou curtir um pouco em uma audição descompromissada, mas não será lembrado como um álbum de grandes canções.

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