Escuta Essa 38 – Lana Del Rey e seu Lust For Life

Neste episódio, Lucas Scaliza e Gabriel Sacramento falam sobre Lust For Life, 5º álbum da cantora americana Lana Del Rey e o mais diverso de sua carreira até agora. Além de comentar os temas abordados por Lana em suas letras, comparam o tom das músicas atuais e de álbuns anteriores e falam sobre as participações especiais de The Weeknd, Sean Ono Lennon, Stevie Nicks e A$AP Rocky.

E para os geeks musicais de plantão, entram no espinhoso tema: será que “Get Free” é mesmo um plágio de “Creep”, do Radiohead? Lucas e Gabriel analisam a harmonia das duas canções e você pode tirar suas conclusões.

Coloque seus fones e divirta-se!

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Vídeo idosos reagem às letras de Lana Del Rey:

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Melvins – A Walk With Love and Death (2017)

Um típico produto da máquina Melvins de fazer música

Por Gabriel Sacramento

23 faixas. 1 hora e 21 minutos. 14 faixas catalogadas na parte chamada Love – trilha sonora para um filme que eles produziram -, outras 9 na parte Death. É com essa divisão e configuração de álbum duplo que os Melvins deram as caras este ano, lançando o seu vigésimo quinto trabalho. Uma banda e tanto. Um dos grandes propulsores do que muitos chamam de sludge metal, uma espécie amaldiçoada de rock pesado, imundo, triste e arrastado que não deixa de ser um primo mais dark do tão bem falado stoner rock. A banda surgiu nos anos 80 erguendo a bandeira da esquisitice brutal e soturna, mais ou menos como o que o Black Sabbath fazia quando despontou nos 70s.

A Walk With Love and Death é também um álbum psicodélico. Uma viagem psicótica, como bem descreveu o batera Dale Crover, que forma a banda junto com o baixista Steven Shane McDonald e o vocalista/guitarrista Buzz Osborne – que curiosamente tem o sobrenome igual ao icônico vocalista do Sabbath. Segundo Crover, é um álbum assustador para fazer as pessoas dormirem com as luzes acesas.

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Os seis minutos de “Black Heath” seguem com uma fluidez lenta, arranjos simples e paradas para reflexão. Buzz e seus companheiros conseguem soar stoner sem guitarras violentas preenchendo tudo, como é de costume. “Sober-delic (acid only)” também passa dos seis minutos e parece uma continuação da primeira: soturna, vagarosa e com destaque para alguns poucos arranjos de guitarra, que por estarem situados no meio dessa atmosfera pesada, ganham um brilho a mais. Em “Flaming Culture” e “Christ Hammer”, Buzz suja um pouco mais as seis cordas, mas ainda com controle. Nas duas, temos refrãos melódicos mais “fofos” para os padrões melvianos, mas que funcionam bem para contrastar com a parte dark. “Euthanasia” honra os velhos tempos, com uma massa robusta de guitarra engolindo os outros instrumentos e os vocais assombrados de Osborne.

O Melvins tem muito a ver com o Pixies: ambas surgiram na cena underground americana nos anos 80, com um som agressivo, lo-fi, que flertava conscientemente com o noise e influenciado diretamente pelo Black Flag. Ambas cresceram como bandas dentro do cenário e vieram a ser a fonte na qual beberiam os grupos do movimento roqueiro mais importante dos anos 90 na terra dos Yankees – o grunge. E as duas, depois de tantos anos, parecem possuir alguma boa poção mágica que mantém a juventude e a essência sonora. O último dos Pixies me deixou com um sabor de nostalgia nos ouvidos e exaltou uma forma de fazer rock sem polimento e muitos recursos. Esse ano os Melvins vêm e engrossam muito bem esse coro.

A parte da trilha sonora para o filme, a parte Love do trabalho, é composta por retalhos de sons, falatórios e ruídos. Nada muito significante e que diga muita coisa sem estar atrelado ao filme. Na real, os fãs que ficarem somente na experiência auditiva sairão com sorrisos no rosto quando terminarem, porque as boas faixas deixam claro a boa fase, que aliás pode-se dizer que começou quando lançaram seus primeiros álbuns. A Walk With Love and Death é um produto composto, uma iniciativa artística interessante e diferente, que merece elogios. Mas a parte musical em especial é um típico produto da máquina Melvins de fazer música, com marca registrada e autenticada – e selo Escuta Essa de qualidade.

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Calvin Harris – Funk Wav Bounces Vol. 1 (2017)

Um estrangeiro passeando em terras americanas

Por Gabriel Sacramento

Um novo disco do Calvin Harris é quase um megaevento que deixa pessoas de várias partes do mundo em estado de alerta. Afinal, todos querem saber o que o DJ mais bem pago da atualidade tem pra dizer com seu novo conjunto de músicas. E depois dos dois últimos discos, estádios lotados, festivais grandiosos, singles de sucesso estrondoso – como “How Deep Is Your Love” – e recordes quebrados, o artista escocês parece bem acostumado com o sucesso e todo o buzz envolvendo seu trabalho e sua vida artística. Acostumado, mas não acomodado. Pelo menos não mais.

Em seu novo álbum, Funk Wav Bounces Vol. 1, o produtor reuniu um all-star team de artistas que têm se destacado na música americana recentemente e coordenou a equipe para chegar a um álbum com influências de funk, disco e neo-soul. Sim, o cara decidiu resgatar referências de décadas passadas, o que não é de longe algo novo, mas não deixa de ser válido quando feito com honestidade e competência.

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“Slide” surge com vocais de Frank Ocean e raps do trio americano Migos. A sonoridade é bem fortemente pontuada pelo baixão firme, um Ibanez tocado pelo próprio Harris. Temos teclados para fornecer um quê de lounge à faixa também – lounge que remete instantaneamente à dobradinha D’Angelo e Maxwell – e as vozes funcionam bem dentro desse esquema sonoro. “Rollin” foi fruto da cooperação de Harris com o rapper Future e com o jovem Khalid. É uma boa faixa R&B, charmosa e elegantemente simples. “Feels” é totalmente ambientada no fim dos anos 70 e começo dos anos 80, quando as pessoas costumavam frequentar clubes e dançavam sob um globo brilhante. Nesta cantam Pharrel Williams, Katy Perry e o rapper Big Sean. “Cash Out” surge num contexto mais hip-hop clássico, com os raps de SchoolBoyQ, PARTYNEXTDOOR e DRAM. “Faking It” tem os vocais da Kehlani e é uma boa faixa que podia estar no primeiro álbum dela. Assim como “Holiday” podia estar no Bush do Snoop Dogg, que nesta destila seu flow acompanhado das melodias de John Legend. “Hearstroke” é uma das melhores faixas do ano, muito por causa da interação vocal de Ariana Grande com Pharrel Williams em um jogo suave de vozes.

Em seu novo disco, Calvin parece respeitar bastante os limites e ideais criativos de cada artista, deixando que cada convidado trazer um pouco de seu mundo e fazendo deste Vol. 1 um mergulho bem sucedido do europeu no oceano da música americana. Pode ser entendido também como uma viagem de um turista aos Estados Unidos, guiada por vários residentes do país, que em cada faixa situam o estrangeiro no que há de melhor na música negra produzida nos últimos 40 anos. Vale lembrar que Drake fez algo parecido este ano, experimentando com estilos de outros países, e se deu bem. Funk Wav Bounces teve um processo de concepção diferente dos últimos trabalhos, principalmente porque Harris ficou exclusivamente encarregado da produção, o que ajudou a  direcionar melhor o produto final. Ele também tocou uma série de instrumentos, incluindo o clássico Fender Rhodes e uma guitarra Fender Stratocaster 1965 – cruciais para que ele alcançasse esse som especialmente vintage.

Se afastando da artificialidade dos samples e sintetizadores grandiosos, Harris dá um passo um tanto arriscado rumo à expansão criativa, experimentando com música orgânica, ensolarada e com os balanços corporais que este tipo de música pode provocar. Uma ótima pedida para quem admira artistas que transcendem limites geográficos para elevar o nível de sua forma de expressão.

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Pedro Salvador – Pedro Salvador (2017)

Primeiro disco é diverso e seguro

Por Gabriel Sacramento

O toca-tudo alagoano Pedro Salvador decidiu lançar seu primeiro álbum solo, depois de dois lançamentos com sua banda Necro. Na sua banda principal, Salvador fica encarregado do baixo, da guitarra e vocais, engrossando os riffs, melodias e a atmosfera psicodélica. Em seu debut solo, o músico gravou tudo e assumiu até o papel da produção.

Temos que considerar que a ideia de Pedro não foi fazer algo fácil. Ele quis abordar suas influências que vão além do som do Necro, temperando com funk e rocksteady e ainda assim recheando o álbum de interlúdios e passagens instrumentais. Em sua faceta guitarrística, Pedro nos presenteia com ótimos solos livres, leves e soltos, com timbres bem escolhidos. Ele também apresenta uma verve mais prog, psicodélica e retrô. Além disso, um quê de brasilidade em diversos instantes, tornando a obra ainda mais complexa, completa e mais fácil de se identificar com os diversos tipos de ouvintes.

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Em algumas faixas, como “Desgraça na Praça”, o cantor joga o velho e bom rockão na nossa cara, com uma linha de baixo galopante, guitarras giratórias e vocais agudos cheios de efeitos. Quaisquer semelhanças com a atmosfera sonora do Black Sabbath nos anos 70 não são meras coincidências. O clima obscuro e doom segue em “Quilombo de Cimento”, uma faixa cheia de elementos de stoner rock e que parece de fato ter mais de 40 anos de idade. “Canção da Lua” traz muito peso de guitarra-baixo e frases jeff-beckianas. Em “Gênese de Destruição”, Salvador mostra que é um ótimo instrumentista, abrindo mão dos vocais e preenchendo a faixa com solos, um baixo especialmente competente e overdubs espertos. Há uma variedade interessante de instrumentos percussivos na faixa, cooperando e se relacionando bem com as guitarras.

A longa “Canção do Fim” tem uma guitarra funkeada estilo anos 70, vocais falados, um baixo redondo e minutos de sobra para desenvolvimento de excelentes arranjos marcados por diferentes nuances em uma jam instrumental. Nessa faixa, Salvador deixa claro sua faceta de arranjador, o cara que emoldura a música e deixa ela acabadinha. Além de que, a faixa é a melhor demonstração da visão de Salvador do que vem a ser rock progressivo de todas do álbum: ele segue à risca a ideia e progride de arranjo em arranjo, suavemente e cuidando bem das conexões entre eles. Este disco em uma música? “Canção do Fim”, sem dúvida.

Pedro experimenta um som mais reggae/rocksteady em “Bananeira em Flor”, com órgãos que deixam tudo tão assustador quanto qualquer faixa dos Fuzztones. Aliás, ele adora os órgãos e os coloca em muitos momentos do álbum, principalmente nos interlúdios instrumentais “Suíte Microscópica” e “Nostálgica”. Entenda-os como momentos de alívio que o músico proporciona para fazer nossa cabeça espairecer. O fato de Salvador trazer vários trechos curtos de música cria um certo tipo de ansiedade pelas faixas completas e chama ainda mais a atenção para elas.

O músico tenta ideias diferentes, experimenta variáveis, adiciona elementos e chega um composto musical diversificado e redondo. E a produção que ele mesmo fez é excelente. Conseguiu mesclar bem todos os seus talentos, usar para o bem da proposta, deixando as faixas soarem espontâneas, marcantes e agressivas, além de evidenciar a força da coesão entre elas. Se o músico se encontra fazendo um bom trabalho com o trio Necro, seu projeto solo também é digno de atenção. Um disco despretensioso, divertido, criativo e, sobretudo, brasileiro.

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Banda Marília Gabriela – Agora Vai (2017)

Honrando a linhagem cômica do rock nacional

por brunochair

O rock’n roll, por conta da juventude e pretensa liberdade que possui na sua origem, sempre deu margem ao cômico e ao irônico. No Brasil, parece que esses dois ingredientes, unidos, interagem com muita naturalidade. Os exemplos são muitos, de todas as épocas e de todos os tipos: Língua de Trapo, Inimigos do Rei (da Hp, não), Raimundos, Ultraje a Rigor, Baba Cósmica, Virgulóides, Mamonas Assassinas, Pedra Letícia, Velhas Virgens, João Penca e os Miquinhos Amestrados, etc. Desde letras ácidas, irreverentes, palavrões e crônica social*, cada grupo dessa pequena amostra contribuiu, a seu modo, para desenvolver essa linhagem cômica no cenário nacional.

Em 2017 ganhamos um bom referencial para seguir esta linhagem irreverente do rock: a banda Marília Gabriela, e o seu disco Agora Vai. Lançado em 14 de Julho último em todas as plataformas virtuais, o disco prendeu a atenção do resenhista que vos digita (principalmente) pelos seguintes detalhes: ao mesmo tempo que temos um trabalho marcante do power trio, o vocal está muito bem encaixado e perceptível a todo o momento, o que nos faz acompanharmos as letras das músicas com tranquilidade. E aí o grande segredo do grupo, que é casar esse cenário musicalmente interessante com as letras engraçadíssimas.

Comecei a ouvir o disco, pela primeira vez, no trabalho. E acabei rindo alto, o que fez alguns dos colegas de trabalho pararem o que estavam fazendo para entender se eu estava passando bem. Foi um pouco constrangedor, culpa de “Namastrêta” e o seguinte fragmento da canção “sei que as vezes tudo parece difícil/ dá vontade mesmo de entregar a luta/ enfiar a mão inteira no orifício/ e rasgar completamente até a nuca”. Era uma sexta-feira, zilhões de problemas a resolver no trabalho, e… gratidão! A música foi endereçada pra mim! Rir para não chorar. Voadora neles!

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Muitas letras possuem essa irreverência, essa essência libertária e jovial do rock. “Mina tb Gosta de Oral”? É óbvio que sim. Mas os caras têm coragem de falar. Se você não gostou, “Que Se Foda”, música que conta com a participação do Egydio, do Tihuana. Em todas as músicas, bons riffs e refrãos marcantes, o que contribui para que as músicas comecem a grudar nas nossas cabeças. “Comer, Dormir e Dá Umazinha” tenta unir mortadelas e coxinhas sob o mesmo interesse. Se organizar direitinho, todo mundo tem.

“Ano Novo, Vida Torta” fala sobre as promessas de ano novo, difíceis de cumprir por conta das distrações que surgem durante a caminhada, se resumindo (na música) a cachaça e mulheres. Outra frase muito engraçada do disco é a seguinte: “eu bebo pra esquecer/ se fosse pra lembrar tirava uma selfie/ eu bebo pra ficar ruim / se fosse pra ficar legal tomava leite/ ela pediu pra eu escolher/ entre o amor e a birita, pai / confesso que eu não sei se escolho a vodka ou a tequila”. Esse é o refrão de “Bebo pra Esquecer”, música que o grupo também explora o reggae, o que também está em “Brinks”.

Mas a grande música do disco, na opinião deste humilde resenhista, é “Rei do Boteco”. Temos duas personalidades, nesta canção: o rei do camarote, aquele mesmo que virou meme; e o rei do boteco, um rapaz desprovido de bens materiais e que também quer ter sucesso e dar umazinha, ao seu modo. A saga dos dois rapazes é entrelaçada e, assim, temos uma música bem engraçada, com um refrão power e todos os ingredientes que fizeram de Agora Vai um disco interessantíssimo.

Por fim, é isso. Recomendo aos ouvintes atentos de rock nacional, de rock despojado e libertário, a Banda Marília Gabriela. Garantia de bons riffs e algumas risadas durante a audição, além da surpresa com o produto todo que eles entregam. Uma boa referência para rock nacional em 2017, e para essa linhagem cômica, tão bem explorada pelos rockeiros no Brasil.

*aliás, a crônica é um gênero que também se estabeleceu no Brasil de uma forma contundente, face a leveza e a comicidade existente nos relatos banais do cotidiano, muito bem explorado pelos escritores que desenvolvem o estilo por aqui.

Ariel Pink – Dedicated To Bobby Jameson (2017)

O pop pós-moderno de Ariel Pink tem charme particular

Por Lucas Scaliza

Não há como fugir do pós-modernismo na música quando você se propõe, como o Escuta Essa Review, a falar sobre a música que se faz hoje. É claro que sempre encontramos alguns puristas e algumas experiências de soar futurista, mas o que mais encontramos é uma música feita para o hoje que vem com aroma, sabor ou nostalgia de algo que já passou. É mais ou menos por aí mesmo: vive-se o hoje podendo usar tudo o que se tem à disposição, não importa se são canções que remetem a 1974 feitas com guitarras Fender 1969, gravadas em estúdios reformulados nos anos 90 e com uma moderna mesa de som de 2011.

Dedicated To Bobby Jameson leva a sério tudo isso e faz um pop espetacularmente vívido e feliz, soando como uma bomba temporal onde o brega e o kitsch dividem espaço com o indie sofisticado e o rock alternativo. Ariel Pink, ao que parece, tenta saturar ainda mais as cores dessa vez do que com pom pom (2014), criando um borrão musical bastante divertido e despretensioso.

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“Feels Like Heaven” talvez seja a faixa mais tradicionalmente pop do disco e não à toa é o single. Mas “Another Weekend”, que carrega um pouquinho mais na experimentação (inclusive mudando de 4/4 para ¾, além de acrescentar uma série de psicodelias), também é single do disco. “Kitchen Witch” é um desses momentos que parece que a qualquer momento descambará para um experimentalismo surreal arieliano, mas segue até o fim bastante acessível. Já “Acting” traz batidas e baixo que se adaptaria muito bem no repertório de Thundercat. Há ainda o poder anarcorroqueiro de Pink em “Time To Live” e uma série de canções psicodélicas e animadinhas, como “Dreamdate Narcissist”, “I Wanna Be Young” e a faixa-título. Mas nada se compara a abertura com “Time To Meet Your God”, faixa que parece uma releitura de algum progressivo de 1977, mas com os sons consagrados da década seguinte.

Já o Bobby Jameson a que o título se refere foi um músico real de Los Angeles que passou 35 anos recluso e, por isso, dado como morto, mas que ressurgiu na internet em 2007 após abrir um blog e um canal no YouTube para contar as tragédias de sua vida. Jameson morreu em 2015, tornando-se mais um personagem da cidade e uma lenda urbana musical. Ariel Pink ficou tão comovido com a vida e a situação do conterrâneo que sentiu a necessidade de dedicar seu próximo disco a ele.

Esse é o estilo do californiano Ariel Marcus Rosenberg desde sua estreia, juntando o que foi o pop, o que é o indie, o que pode ser o rock em uma coleção de músicas que fazem parte da cultura hipster. Pink é hipster e totalmente consciente disso. Dedicated To Bobby Jameson é uma realização não maior ou melhor do que pom pom, mas mantém o cantor e compositor na dianteira dessa intersecção do pop com o rock que é tão peculiar ao ser esquisito e comercial ao mesmo tempo. Pós-moderno, afinal.

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Capitão Nemo – Bon Voyage (2017)

Quinteto de Piracicaba (SP) aborda questões sociais atuais sem perder a fluidez do rock vintage

Por Lucas Scaliza

Em Piracicaba, cidade do interior de São Paulo onde a música sertaneja é rainha, o rock ainda é crítico. E lírico. Bruno Razera (vocal), Denis Floriano e Matheus Fagionato (guitarras), Caio Mendes (baixo) e Otavio Bacchin (batera) são a atual formação da banda Capitão Nemo. Bon Voyage, produzido por Claudio Sanchez Vicente, aposta em canções de rock que visitam décadas passadas enquanto as ideias e mensagens são reflexo atualíssimo de nossa realidade.

Embora “Palavra de Ilusão” e “Mais Valia” tenham cara de single, pois são músicas facilmente alinháveis à tradição do rock/pop brasileiro (inclua aí de Titãs a Skank), a banda Capitão Nemo mostra do que é capaz tecnicamente e criativamente a partir da terceira faixa: “Quero Sim” tem riffs à Jimmy Page, um refrão infalível e mudanças de ritmo fluidas que lembram os melhores momentos do Tianastácia. Em seguida, “Otário ou Visionário” é um passeio por tantas referências que deixo para os ouvintes pescarem o que quiserem de lá. Dá pra adiantar que a banda faz bem uma mistura de violão MPB, com acordes com crunch, ponte com acordes que dão um efeito de suspensão da gravidade e participação bem encaixada do teclado.

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Enquanto álbum de rock, Bon Voyage aposta em um meio termo sonoro: não é acelerado como o Rebel Machine (falamos dessa banda gaúcha neste podcast) e nem aposta em um som encorpadíssimo como o do Ego Kill Talent (resenhado neste podcast). A distorção existe que no disco todo, mas bastante comedida, com o knob do pedal regulado conscientemente em um grau suficiente para tocar em rádios sem assustar ninguém. Ou seja, Bon Voyage é um disco que tem sim qualidades comerciais sem precisar abrir mão da identidade roqueira.

Se a julgar pelas duas primeiras músicas do disco parecia que o quinteto piracicabano tendia para canções mais protocolares, as oito seguintes mostram que não: misturas, referências acertadas (que vão de Led Zeppelin à The Doors), técnica a serviço da musicalidade e não da exibição. Se me dissessem que “Pseudolgum Lugar” é uma composição feita entre 1967 e 1969 eu acreditaria. E a riqueza de arranjos dessas oito músicas e uma boa quantidade de solos destoam do que é feito no rock/pop atualmente, já que a maior parte das bandas de rock – ou o que sobrou delas que ainda tocam em rádios – preferem dar ênfase em suas músicas mais padrão. E o padrão já faz alguns ano é não ter solo de guitarra e nem variar muito no ritmo ou dinâmica, duas coisas que Capitão Nemo faz e eu os saúdo por isso!

Bruno Razera, cantor e principal compositor do grupo, mostra que Capitão Nemo não é uma banda apenas de entretenimento. Os temas de suas letras passam longe do amor juvenil ou da angústia mais dramática de um millennial. Vamos percebendo essa qualidade no jeito de abordar assuntos faixa após faixa, mas quando chega a balada “Joe”, rica em violões e com uma das melhores performances vocais de Bon Voyage, vemos que Razera segue uma linha de autor como a de Nando Reis, do tipo que te fisga com versos certeiros e desenvolve uma história com a qual fica difícil não se envolver caso você preste atenção no que está sendo dito. Dá até para descer até o Rio Grande do Sul e encontrar uma intenção parecida com a de Humberto Gessinger em músicas que refletem sobre nossa injusta sociedade.

O teclado não é onipresente, porém é notável quando aparece. Em “Minha Pequena” ele não só consegue algum protagonismo como também exibe um timbre vintage oitentista que remete mais à MPB do período do que propriamente ao rock. Já “Dama de Vermelho” é a composição mais suja do disco, com riffs carregados de fuzz e pegada roqueira clássica.

Bon Voyage é um ótimo primeiro álbum. Preocupado com as letras e com os arranjos, não deixa de ser rock ao mesmo tempo em que deixa claro que tem mais que rock no seu mix de referências. Numa época de golpes políticos e notícias reais que parecem fictícias, Capitão Nemo faz uma viagem pra psedolgum lugar e espera que você enxergue o que está a sua volta de forma mais crítica, que tenha empatia pelos Joe que encontrar no caminho e que, acima de tudo, não perca a esperança e nem a vontade de viver.

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