Aimee Mann – Mental Illness (2017)

As valsas mais tristes e mais acústicas de Aimee Mann

Por Lucas Scaliza

Fica claro que Aimee Mann quis simplificar um pouco as coisas, ficar mais direta, encher menos a mix de elementos. Mental Illness tem grande melancolia, como naquele belo disco que foi aproveitado pelo cineasta Paul Thomas Anderson para o filme Magnólia (1999), mas não tem aquele ar mais pop de @#%$*! Smilers (2008). Contudo, ainda traz a voz imediatamente identificável da norte-americana, sua boa mão para levadas no violão e ótimo senso para melodias que ficam entre o folk e o pop/rock.

Mann continua cantando sobre as ilusões e desilusões da vida, de forma leve, bem leve, e reflexiva, bem reflexiva. Em comparação com os outros oito discos de sua discografia, é fácil perceber que ela tem bem pouco a oferecer em termos de inventividade dentro do estilo ou vontade de fazer algo diferente. Mesmo sendo uma artista independente nos Estados Unidos e referência para muitos indies (entre público, crítica e bandas), Mental Illness soa bastante acomodado dentro da gaveta do estilo e de sua compositora. Ainda assim, o trabalho é um álbum de canções bem feitinhas e, mesmo sem inventividade, ela nunca antes havia feito um disco deste tipo, tão acústico e tão cheio de valsas.

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Parece contradição, parece ironia, mas é Aimee Mann sendo ela mesma e o que acha que deveria fazer dessa vez. Pouca ou nenhuma percussão acompanham os acordes batidos de “You Never Loved Me” e “Lies of Summer”, o padrão clássico de valsa em “Stuck In The Past” e “Philly Sinks”, os arranjos delicados de “Goose Snow Cone”, os dedilhados de “Rollercoasters” e o piano tristonho de “Poor Judge”. De 11 faixas, apenas “Simple Fix” tem mais jeitão de banda e não de cantora folk solitária. Embora funcionem no formato voz e violão (ou voz e piano, em alguns casos), todas as gravações ganharam floreios de uma orquestra (arranjada pelo produtor de longa data Paul Bryan) e vocalizações extras provindas do pessoal de sua banda de apoio e do parceiro Ted Leo, com quem a cantora formou o The Both alguns anos atrás.

“Patient Zero” soa como um rock típico de Aimee Mann, mas apresentada agora sob a roupagem acústica, com piano e orquestração completando o arranjo. É fácil perceber porque foi escolhida como principal single do álbum. Acaba sendo uma das canções menos lineares. As seguintes, “Good For Me” e “Knock It Off”, também são dessas faixas que elevam Mann a um patamar mais elevado. Mesmo que Mental Illness não seja tão aprazível para você no geral, nessas faixas você se dobra para reverenciá-la e entender o papel ainda importante que ela ocupa no folk e na música independente.

Acredito que esteja no jeito como Mann trata os problemas emocionais que canta o maior brilho do disco. O Mastodon usou seu heavy metal para criar uma metáfora fantástica para falar do câncer em Emperor Of Sand, e a finlandesa Astrid Swan colocou sua própria experiência com o câncer de mama em formato pop, folk e eletrônico em From The Bed And Beyond. Ambas as obras, lançadas em 2017, tratam com lucidez o tema, não facilitando para o ouvinte e nem para o paciente que tenha a doença e que talvez vá ouvir esses discos. O Mastodon fala da sobrevivência e Swan é sincera, nunca caindo no vitimismo. Aimee Mann também não dá falsas esperanças, nem mesmo quando sua música parece mais fofa ou solar. Isso não quer dizer que ela seja negativa – e nem que olhe o “lado bom” da questão –, mas pode te fazer refletir sobre o que a vida é. E tudo bem ela não ser perfeita.

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Oddisee – The Iceberg (2017)

Mais um grande disco de hip-hop fora dos estereótipos do estilo

Por Gabriel Sacramento

Na resenha de RTJ 3, do duo Run The Jewels, você leu que o hip hop tem sido palco de muitas manifestações de pensamento de forma incisiva e contundente. Mais até do que o rock e, acrescento agora também o R&B, que também tem revelado artistas que não tem medo de falar e de tocar na ferida da sociedade. Mesmo que ainda tenhamos muitos músicos acomodados em suas fórmulas para fazer sucesso, muitos outros têm mostrado indignação com questões sociais e políticas.

Esse é um dos fatores mais interessantes acerca do rapper Amir Mohamed el Khalifa, conhecido como Oddisee. Muçulmano, morando nos Estados Unidos, mas de família sudanesa, o jovem tem muito a dizer e não se esconde: com seu flow ágil, encaixa rimas com significado, levando os ouvintes à reflexão acerca do cenário social do seu país. E o melhor: tudo isso do seu ponto de vista. O outro fator que chama a atenção é o fato de ele prezar por uma forma de hip hop analógica, unindo jazz, R&B, soul e outros estilos. Dá para perceber a dinâmica causada pela mão dos músicos tocando seus instrumentos.

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“Digging Deep” abre com um groove certeiro, uma performance enérgica de bateria, teclado ao fundo e o rap típico do Oddisee. “Things” segue na mesma linha, com um refrão bem interessante também e bem R&B. A faixa traz uma ótima reflexão acerca da nossa capacidade de individualizar nossas experiências como se fôssemos os únicos a enfrentar situações difíceis. Nas palavras do próprio rapper: “é sobre como nós nos colocamos no centro do universo e damos importância somente ao que nos interessa”. Em “Hold it Back”, o rapper toca na questão da diferença de salários entre homens e mulheres e ironiza a constante luta em “NNGE”, dizendo: “O que temer, eu sou da América negra, é só mais um ano”.

Já em “Like Really”, ele questiona: “Porque um irmão pega três anos por drogas, enquanto seu irmão sai impune por estuprar?”. O objetivo do rapper não é fazer apologia às drogas, mas sim questionar duramente a ineficiência jurídica. Mas ele também cutuca Trump: “Como você vai nos fazer grandes de novo se nunca fomos tão bons?”. “Want To Be” é dançante e com um refrão direto: “Eu só quero ser feliz, só quero ser livre, só quero ficar em paz”. Em “Rain Dance”, ele fala sobre ser um artista, um homem casado e até demonstra alguma positividade, falando sobre nuvens escuras que apenas anunciam a chuva e trazem crescimento às sementes – o que é algo bom, no final das contas.

Quando perguntado sobre suas influências, percebemos que Oddisee realmente é um artista diferenciado. Ele respondeu que curte grupos como De La Soul e A Tribe Called Quest, que não falam sobre drogas e assassinatos e por isso ele se relaciona melhor com suas letras. Mas vemos que a influência não é somente quanto às letras, mas quanto à musicalidade também, com a união do hip hop com outros estilos como o jazz. A banda que acompanha o Oddisee faz o rap ser tão bem ambientado sobre as bases jazzísticas quanto o BadBadNotGood emula um bom hip hop old school.

Fazer hip hop inteligente, tanto musical quanto liricamente, é o objetivo deste talentoso músico. Suas raízes e lutas pela vida no país onde vive o inspiram e o fazem querer ir além e fazer algo que realmente impressione. Suas letras são duras, críticas diretas, mostrando que ele realmente está comprometido com o desejo de mudança, não se conformando com as coisas do jeito que estão. Em The Iceberg, ele acerta a mão mais uma vez, continuando o bom trabalho que vem desenvolvendo em sua carreira há anos.

Se rappers como Rick Ross continuam com a temática gangsta durante tanto tempo, Oddisee mostra que é possível pensar em ramificações. O rapper e os outros grupos já citados são fundamentais para nos fazer entender que o gênero vai muito além de beats, samples e papo sobre drogas e sexo. Pode ser aberto à experimentações musicais, ferramenta de crítica social, expressão de pensamento e até voz de uma iminente revolução.

The Iceberg é isso. O disco é excelente, mas ainda assim só a ponta do iceberg que é a discografia de Oddisee. Recomendo que conheça seus outros trabalhos também. Ouça, leia as letras e reflita.

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Mastodon – Emperor Of Sand (2017)

É sobre o câncer, mas com a mesma energia de sempre

Por Lucas Scaliza

Como a própria banda fez questão de deixar bem claro durante a campanha de expectativa para o álbum, o “Imperador de Areia” a que se refere o título é o câncer, essa doença que consome o paciente e o faz lutar pela vida, consumindo também as emoções de quem orbita a sua volta. E o tempo, às vezes, parece que escorre como areia de uma ampulheta. O quarteto americano do Mastodon recentemente viu isso ocorrer com amigos e familiares e decidiu abordar o assunto nas letras do temático Emperor Of Sand.

Como já de se esperar, o novo disco é um baile de bons riffs e aquela energia às vezes mais hard rock, como em “Show Yourself”, e que pode chegar ao metalcore com grande facilidade, sempre sabendo para onde voltar e sem nunca deixar o entusiasmo cair. A ênfase no ritmo, ditada pela bateria de Brann Dailor – um daqueles músicos que sabe se manter pontualmente no beat, fazer uma longa virada e voltar com perfeição ao ritmo regular – é chave para fazer dele uma experiências intensa.

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Da primeira (“Sultan’s Curse”) à quarta música (“Steambreather”), ouvimos um Mastodon fazendo a lição de casa, colocando para fora o que já sabemos de que são capazes. Por melhor que Once More ‘Round The Sun (2014) seja (e foi até considerado um dos melhores do ano pelo Escuta Essa Review), já era um disco em que se discutia como a fórmula da banda ainda dava certo, mas sem apostar em inovações. O caso é que Emperor Of Sand também pode ser visto dessa forma, e as três primeiras faixas só mantêm o que já sabemos sobre os músicos. “Steambreather” dá um vislumbre de como podem melhorar, e a partir da faixa seguinte vemos o Mastodon destilar toda a sua dor, peso e criatividade. Se o início foi mais do mesmo, da metade pra frente faz valer a posição no metal que ocupa atualmente.

“Root Remains” é o primeiro clássico de Emperor Of Sand. Início climático que desemboca em um ritmo intenso e arrastado com o vozeirão do baixista Troy Sanders mandando ver nos drives. Com um bom gosto incrível, conduzem a música para um desfecho mais emocional que é concluído com um maravilhoso solo de Brent Hinds. Sem brincadeira, é uma das melhores composições que o Mastodon já gravou. “Ancient Kingdom” é mais uma faixa em que Troy e Brann seguram a onda e deixam para Brent e Bill Kelliher variarem acordes, riffs e arpejos.

O que faz do Mastodon a banda de que todo mundo fala é a capacidade de fazer metal sem esconder as influências do hard rock, colocando as partes mais progressivas em comunhão com tudo isso, e não criando seções onde isso é jogado na cara do ouvinte. Talvez apenas “Andromeda” seja flagrantemente progressiva no disco, mas nada extremamente intrincado e ainda colocando um excelente aceno para o black metal no final. Ainda por cima conseguem temperar tudo com um clima meio psicodélico (“Clandestiny”), que é de onde vem toda a irreverência da banda, mesmo quando o som fala de algo tão grave e sério como o câncer.

E é claro que conseguem ser mais sombrios. “Scorpion Breath”, outra pérola do álbum, é o momento em que a banda se deixa chegar ao thrash metal para mostrar toda a perturbação da doença de que trata. E progressivamente, a excelente “Jaguar God” vai ficando mais pesada, mais emocional, indo da balada em 3/4 ao metal sombrio, passando por um solo totalmente técnico e voltando à valsa inicial para Hinds ter a oportunidade de celebrar a salvação na morte com mais um belo solo. Talvez não belo quanto o de “Root Remains”, mas ainda assim um que vale a pena parar para prestar atenção.

Emperor Of Sand é uma grande metáfora para a situação de um paciente de câncer, utilizando imagens e símbolos mitológicos e astrais para dar conta do assunto de forma narrativa. De forma alguma deixam a melancolia da situação tomar o som da banda. Pelo contrário: encontraram uma forma interessante de imaginar a situação, tomando uma postura realista mesmo dentro da fantasia, usando o problema como combustível para o peso e para os riffs. Não vai ser recebido como o melhor material do Mastodon, mas tem momentos que conseguem voar tão alto quanto os melhores da discografia.

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Chicano Batman – Freedom Is Free (2017)

Soul e psicodelia dotadas de crítica social criam o caldo para um dos discos mais interessantes de 2017

por brunochair

Um dos discos mais criativos e interessantes de 2017 foi criado por um quarteto de Los Angeles: Chicano Batman. Um nome não muito comum para um grupo, não acham? Tão diferente quanto o nome da banda é dizer que seu frontman chama-se Bardo. Bardo Martinez é filho de uma mãe colombiana (Cartagena) e de um pai Mexicano. Bardo é amante confesso de música brasileira dos anos 60 e 70, sobretudo da Tropicália e de Caetano Veloso. Some-se a essas influências sul americanas uma admiração profunda pela soul music.

A partir daí, podemos já ter alguma ideia do que encontraremos em Freedom Is Free, o mais novo álbum lançado por Bardo Martinez (vocais, guitarra, órgão), além de Carlos Arevalo (guitarra), Eduardo Arenas (baixo, vocais) e Gabriel Villa (bateria e percussão). O álbum foi produzido por Leon Michels, que contribuiu para esta formação soul psicodélica do trabalho, produtor este que já havia trabalhado com artistas do calibre de Black Keys e Sharon Jones & the Dap-Kings. Este disco, por conta da sua expressividade e força, merece uma análise quase que pormenorizada de boa parte da sua faixa, que é o que pretendo a fazer adiante:

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“Passed You By” já apresenta o seu cartão de visitas logo na introdução, num jogo de riffs de guitarra funky e uma linha de baixo que já remetem a esse soul setentista, e também lembram bastante a ambientação que o Black Keys alcançou com o seu Brothers, de 2010. A grande sacada aqui é que esse instrumental do início é tão criativo que, caso a banda fosse preguiçosa ou seguisse cartesianamente as regras da música pop convencional, jogaria a intro para o meio ou para o fim da música, para criar o clímax só depois de algum tempo. Não, o clímax é logo no começo, e o risco que a banda corria da música ficar morna dali pra frente era grande. Mas, não. É groove do início ao fim.

O vocalista Bardo Martinez apresenta uma performance camaleônica, alternando entre o vocal convencional e um falsete que o acompanha durante boa parte das canções, executado com grande maestria. “Friendship (Is a Small Boat In a Storm)” é prova disso, quando Bardo ataca o refrão com o falsete e dá o irresistível toque soul retrô à música, além de uma sutil ironia. Há que se ressaltar também as variações desta faixa envolvendo o órgão Hammond, a cadência da linha de baixo e os riffs de guitarra extremamente criativos e repletos de psicodelia.

As variações e o falsete seguem em “Angel Child”. Essa música é também atmosfericamente soul retrô, mas segue por outros caminhos além deste. Há um caos em certas passagens, sobretudo no andamento de baixo de Eduardo Arenas. Em “Freedom Is Free” o baixo é talvez o grande protagonista: em conjunto com a bateria, formam a camada sonora para que o restante aconteça. E, mais uma vez, temos excelentes riffs de guitarra de Carlos Arevalo, com ele talvez sendo o grande responsável por incluir doses de psicodelia às músicas.

“Freedom Is Free” é, também, o nome do disco. E o título não foi escolhido por acaso: após o fim da Guerra americana contra o Iraque, vários caminhões nos Estados Unidos apresentavam a frase Freedom Isn’t Free (Liberdade não é livre). A expressão é utilizada para agradecer aos militares por lutar pelas liberdades individuais e promover a democracia a outros cidadãos e povos. Tal ideia é refutada pelos integrantes da banda, que consideram-na uma falácia, inclusive utilizando da antítese desta expressão para dar nome a este novo álbum.

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“La Jura (Prelude)” é criada a partir de um dueto entre guitarra/violão, e apresenta o anúncio de algo muy terrible que está por ser revelado, que é propriamente “La Jura”. “Balaciaron un amigo mio / En la calle cerca de aqui / Lo dejaron abandonado / Un objecto sin vida junto a la esquina / Yo no entiendo porque / Los que deben proteger / Hacen lo opuesto / Matan inocentes”. Ou seja, basicamente a música questiona a repressão coercitiva do Estado, através da polícia. Ainda que os membros tenham nascido em solo americano, todos possuem ascendência latino-americana, possivelmente tenham morado nos subúrbios de Los Angeles e presenciaram essa repressão às minorias – negros, latinos, mulheres. E essa é uma das mensagens que o Chicano Batman tenta trazer também, com a sua música: a crítica, a vivência, o combate através da arte. “Flecha Al Sol” é uma canção questionadora, mas com um espírito mais alegre e festivo que a anterior. “Jealousy”, “Run” e “The Taker Story” são faixas mais tradicionais, que flertam mais com o soul setentista americano. São canções menos inventivas que as do começo do disco, mas mesmo assim não comprometem o resultado final.

Portanto, o Chicano Batman conseguiu entregar um disco de extrema qualidade e bom gosto para o público, fruto de todas as influências psicodélicas e do soul, envolvidas em várias camadas sonoras e também de crítica social. Pode-se dizer que o grupo desenvolve um trabalho até próximo do Unknown Mortal Orchestra, mas menos calcado no hispterismo, ampliando o seu leque de possibilidades. Os falsetes, os riffs de guitarra recheados de psicodelia fazem deste um grande álbum de 2017, que certamente frequentará listas do ano, sobretudo pela sua inventividade e espírito contestatório.

 

Drake – More Life (2017)

Drake nos prova que pode ir além do comum em More Life

Por Gabriel Sacramento

Depois de lançar seu VIEWS em 2016, Drake está de volta com mais um projeto. Dessa vez, o rapper que costuma intercalar álbuns e mixtapes, lançou uma seleção de 22 faixas que ele chamou de playlist. A compilação é apenas três músicas mais longa que o álbum de 2016, mas traz uma atitude bem mais ousada que poderá ser definitivo para que este seja considerado um de seus melhores trabalhos.

Se VIEWS pecou na quantidade de faixas e na monotonia, essa nova playlist mostra que o músico aprendeu com seus erros e resolveu fazer algo que fizesse mais sentido. More Life é extenso, mas possui uma série de referências que fizeram o rapper ir além da sua zona de conforto e expandir seu escopo. Dentre todas as influências, podemos citar dancehall, afrobeat e um pouco do hip hop britânico, conhecido como grime.

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Como é de costume, temos um número infindável de cooperações, mas vamos citar alguns: Young Thug, Kanye West, PartyNext Door e Travis Scott. Como é uma playlist, o número de participações faz bastante sentido e Drake abre espaço para que seus convidados deixem suas marcas, tornando o resultado bem mais amplo e musicalmente rico. Por exemplo, a participação do rapper britânico Giggs em duas faixas foi definitiva para trazer um pouco mais do UK Garage. Já o talentoso Sampha ganhou uma faixa só pra ele: “4422”, na qual ele canta muito bem, do seu jeito sensível e emocional, fazendo desta uma das faixas mais especiais do projeto. Kanye West também trouxe um pouco de si em “Glow”, dividindo os vocais com Drake. “Get It Together” ganhou contornos dançantes e uma influência de música africana por conta da participação do DJ sul africano Black Coffee. Além das participações, temos também um Drake muito esforçado, cantando, fazendo rap, dando o seu melhor, mantendo sua identidade e lidando com as diversas influências trazidas pelos convidados.

E além das influências multiculturais, temos também faixas marcantes pelo próprio estilo de Drake. “Blem”, “Sacrifices” e “Can’t Have Everything” são exemplos de canções que possuem a assinatura dele e funcionam bem, com versos grudentos, mas não descartáveis. Diferentemente de VIEWS, o rapper investiu em melodias de melhor qualidade e, junto com seu time de produtores, fugiu da mesmice em More Life.

Drake acerta justamente por abraçar a ideia de diversificar, acrescentando poder de fogo à discografia do canadense e deixando claro quão grande é seu potencial. Aliás, nos primeiros trabalhos isso era notável – quando surgiu sendo apontado como um dos destaques do novo R&B -, mas foi mudando com o tempo. More Life faz questão de noas jogar isso na cara novamente.

Talvez essa playlist não seja tão boa para apresentar o Drake a novos ouvintes, e essa não foi sua intenção. Para quem já o conhecia, fica mais fácil de entender o que ele quis fazer e qual a necessidade de um álbum como esse em sua discografia. Em suma, você pode entender More Life como uma boa playlist, mas não uma qualquer. É algo que anuncia que ele pode ir além do que já virou comum.

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Real Estate – In Mind (2017)

Se não é o álbum mais inovador do Real Estate, certamente é o mais regular

por brunochair

A primeira vez de tudo a gente não esquece, não é mesmo? Pois é. A primeira resenha que escrevi para este blog foi para Atlas, do Real Estate. Um disco que havia chamado a minha atenção por apresentar um conceito, uma estética musical que seguia por todas as faixas com uma regularidade absurda. Atlas é bem produzido, tem ótimas canções e ali eu defendia ser o ápice da produção deles, ficando bem curioso para saber o que viria depois. E cá estamos, quase três anos após, com o sucessor de Atlas: In Mind.

Resumindo a ópera, In Mind é tão bom quanto Atlas. Um disco extremamente regular, repleto de camadas sonoras e ótimas faixas. Continua a habilidade do grupo em apresentar uma atmosfera bastante tranquila e até viajante. Porém (e talvez seja a grande ressalva a ser feita) o salto que o Real State apresentou com Atlas foi gigantesco, alcançando um grau de excelência que In Mind não conseguiu atingir. Como já disse, é um disco tão bom quanto o anterior, possui ótimas canções, mas parece ser um Atlas pt.2. Não houve uma superação, digamos. Mas outra questão que fica disso tudo é: para onde o Real Estate poderia correr?

E aí temos uma questão complicada, pois notei em Atlas um perfeccionismo e um alcance da sonoridade tão absoluto que, realmente, seria difícil chegar a outro lugar a partir dali. Imitá-lo seria já difícil. Necessário? Talvez não. E o Real Estate não imitou, mas usou-o como inspiração, trampolim de si mesmo. Abordar de formas distintas, sem jamais perder de vista o já realizado e consagrado. E esse, na realidade, é In Mind.

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“Darling” foi o primeiro single lançado pela banda. Terminei a audição, gostei muito da música, mas ficou aquela sensação de ser uma música que ficou de fora do Atlas, utilizada agora. “Serve The Song” já trabalha outras possibilidades de fluência, e é o ponto forte do início do álbum – destacando o instrumental, que começa aos dois minutos e segue até o fim da canção. “After the Moon” é bem tranquila, e reforça a pitada de psicodelia que há em Real Estate (ainda que a seu modo).

“Two Arrows” parece fazer uma homenagem a “I Want You (She’s So Heavy)” do Beatles, que está em Abbey Road. As canções tomam um rumo instrumental do meio para o fim um tanto caótico – o que é considerado inusual, tanto nos Beatles quanto no Real Estate. Além do mais, as duas músicas terminam abruptamente. Não é de hoje que Beatles é uma inspiração para o Real Estate. Ok, Beatles é inspiração de milhões de bandas por aí, mas a psicodelia aliada a arranjos cuidadosos e belos é um dos grandes interesses do Real Estate. Por ser uma canção em que o grupo arrisca mais na execução, podemos cravar esta como das melhores canções do disco.

Há outros bons momentos, como o slide surrealista de “Time”, a ótima intro de “Holding Pattern” e a moderna “Diamond Eyes”, num misto de country e andamento de música eletrônica – tudo bem ao modo Real Estate de fazer. Portanto, In Mind não é um álbum tão inovador e impactante quanto Atlas, mas é outro disco bastante regular e competente do Real Estate, repleto de confortantes camadas sonoras. Não há música abaixo da média, e por conta disso também a importância de se dizer que é um disco bastante regular. E, se não é genial, é muito bom.

Escuta Essa 23 – Father John Misty e seu Sarcasmo Sem Freios

Neste episódio 23, Bruno, Lucas e Gabriel recebem o convidado André Felipe de Medeiros, do Monkeybuzz e MúsicaPavê, para debaterem todo o amargor, ironia, sarcasmo e fun facts de “Pure Comedy”, novo álbum de Father John Misty.
Ainda resenhamos o disco “Rainha do Mar”, de Marina de La Riva, e acabamos debatendo Tradição vs. Originalidade e o alcance do streaming. Conheça também o som dark da sueca Demen e os hipsters nova-iorquinos do Prelow. E venha se emocionar também com a nova música do Fleet Foxes, antiga banda do Father John Misty. E só colocar os fones e se divertir!

Abertura: 00’00”
Chuck Berry: 05’39”
Indicações: 08’24”
Father John Misty: 14’53”
Prelow: 39’11”
Demen: 46’25”
Marina De La Riva: 58’19”
Fleet Foxes: 1h25
Mark Lanegan: 1h36

Site: www.escutaessareview.com
Facebook: www.facebook.com/EscutaEssaReview
Contato: escutaessareview@gmail.com

Agradecimento: André Felipe de Medeiros – www.monkeybuzz.com.br e www.musicapave.com

Kneebody – Anti-Hero (2017)

Quinteto aprofunda a relação entre o jazz e o rock progressivo

Por Gabriel Sacramento

Sabe o rock progressivo? Diante de todas as características do estilo, vamos nos ater à ideia da palavra “progressivo”. Para mim, amparado inclusive pelo seu significado no dicionário, o “progressivo” do rock progressivo refere-se, entre outras coisas, a uma forma de música dividida em seções, em que cada seção subsequente acrescenta sentido à anterior, enriquecendo ainda mais a experiência auditiva e conferindo assim a ideia de “progressão”. Os californianos do Kneebody reforçam esse conceito e trazem um grande tratado musical sobre isso.

Se você já leu sobre isso, sabe que o rock progressivo surgiu agregando influências de música clássica e jazz fusion. Essa forma de jazz, assim como a música progressiva, apresenta diferentes climas, arranjos bem elaborados e uma forte ênfase nas “seções” de cada faixa. O quinteto Kneebody é formado por Adam Benjamin (teclados), Shane Endsley (trompete), Ben Wendel (sax tenor), Kaveh Rastegar (baixo) e Nate Wood (bateria). Eles aprofundam essa relação entre o progressivo e o jazz, expandindo os limites da própria musicalidade, principalmente neste novo álbum, Anti-Hero.

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Os temas instrumentais são fortemente conectados, trazem um alto grau de complexidade, mas também uma preocupação com o lado mais atraente do som. Talvez não seja para todos os ouvidos, mas recompensa grandemente os ouvintes que estiverem dispostos a passarem pela experiência.

“Uprising” apresenta outra das características marcantes da banda: a utilização de distorção. Eles a utilizam para engordar os riffs, deixando tudo com uma veia roqueira notável, mesmo que não seja rock necessariamente. “Drum Battle” é uma jam de dez minutos, viajante, alternativa e progressiva. Vai de passagens mais “ambientes” à seções super intrincadas, com tempos complexos e ênfase na bateria. O ótimo riff de “The Ballonist” vai ficar na sua cabeça e as notas rápidas de sax em “Yes You” vão te deixar louco. No entanto, tanto a insanidade tresloucada cheia de notas quanto à riffaria pesada se unem harmonicamente para formar a identidade destes cinco músicos.

Neste conjunto de sensações, o quinteto faz a audição valer a pena. Piano, bateria, sax tenor, trompete e baixo se unem para executar as ótimas canções com timbragens precisas para a proposta e com cada instrumentista apresentando a flexibilidade necessária para os diversos solos e arranjos. Eles estabelecem uma saudável comunicação entre algo do rock progressivo e o fusion, sem fugir da ideia de ser essencialmente jazzístico e de ser, vez ou outra, climático. Também são bem dinâmicos, rejeitando a mesmice, explorando nuances diferentes e trabalhando bem a coesão entre elas.

Por essas e outras, o Kneebody, assim como diversos outros nomes, como o Donny McCaslin, Kamasi Washington e Snarky Puppy, anunciam o melhor do jazz instrumental no século XXI. Os conceitos do estilo se mantêm fortes, incisivos, mostrando que com o tempo, o gênero amadureceu, evoluiu e os artistas estão sabendo como aplicá-los à atualidade. Discos e carreiras tão interessantes nos deixam esperançosos para o futuro do estilo e nos fazem crer que trabalhos ainda mais frutíferos estão por vir.

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Rick Ross – Rather You Than Me (2017)

Esse álbum não fará de Rick  Motherf***ing Ross uma lenda

Por Gabriel Sacramento

Da capa do álbum, onde ele aparece com uma coroa a lá Notorious Big, às letras e atitude de “Big Boss”, Rick Ross não esconde a grandiosa pretensão que tem e o desejo de se tornar uma lenda bilionária dentro do cenário do hip hop americano. Status alcançado por gente que já está na estrada faz um tempo, como o Snoop Dogg, e que parece ser o ideal para essa nova geração de rappers novos. Dinheiro para ele não é problema, resta alcançar o outro título, o de lenda. E ainda falta muito chão.

Anos depois do surgimento, o cara conseguiu um status de chefão do hip hop, com quatro indicações para Grammys, milhões de audições nos serviços de streaming e uma base forte e fiel de fãs. Fãs que aguardaram ansiosamente desde Black Market (2015), o último lançamento do cara. Basicamente, o disco anterior possui uma regularidade incrível em se tratando de hip hop, seguindo as regras do gênero e com uma infinidade de participações que não cooperaram para tirar o artista da bolha criativa que o restringiu e o limitou ao padrão.

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Ouvindo este Rather You Than Me, não percebemos nenhuma vontade de mudar. Ele se esforça para trazer as mesmíssimas batidas, seu típico flow e muitíssimas participações como sempre. A diferença é que em Rather You Than Me, essas participações exercem um peso maior do que em Black Market. Seja Raphael Saadiq cantando boa parte de “Apple of My Eye”, com seu ótimo e aveludado timbre, dando um toque R&B preciso à faixa, ou Chris Rock no início de “Powers That Be”, usando seu sotaque de negro inglês pra dizer: “O senhor é minha testemunha, não há um MC como Rick Motherf***ing Ross… Quando um mano diz ‘o senhor é minha testemunha’, ele diz a verdade!”. Assim, vemos que o time de apoio dessa vez cooperou um pouco mais para tornar este álbum mais memorável que o anterior. Aliás, no caso de Chris Rock, ele só precisa de alguns segundos para nos arrancar boas risadas, seja pelo seu sotaque ou pelo seu jeito de falar.

O rapper Nas, que colaborou na melhor faixa de Black Market, aparece de novo na já citada “Powers That Be”, contrapondo-se bem ao timbre de voz e ao flow de Ross. “Trap Trap Trap” é uma das mais legais, com Rick praticamente cuspindo as palavras e versos marcantes. Traz Young Thug e Wale como participações. “Dead Presidents”, outra das mais interessantes, possui participação dos rappers Future, Jeezy e Yo Gotti. É quase uma jam de hip hop, em que vários músicos sobem ao palco para contribuir com uma parte. “Game Based on Sympathy” traz um frescor de música analógica ao álbum, com alguns instrumentos que parecem ter sido tocados na mão mesmo.

Quando se referia ao álbum, Ross diz que não seria mais um projeto, mas sim “um produto de perseverança e determinação”. Porém, minha conclusão é que se trata sim de mais um projeto, mais um disco para prateleira, cheio de pretensão, mas que esbarra na limitante falta de ousadia. O rapper, que já está na música há mais de dez anos, continua seguindo bem as regras, mesmo que transmita uma imagem de transgressor. A válvula de escape da mesmice acaba sendo as participações especiais, que são interessantes e bem colocadas.

Álbuns como Rather You Than Me não são suficientes para tornar Ross uma estrela absoluta do hip hop americano. Principalmente porque tem muita gente concorrendo. Uma coisa é certa: o rapper pode não ser uma lenda, mas tem feito o seu nome com seus lançamentos. Só que, carecendo de ousadia e imaginação, apenas mantêm o seu nome exatamente onde está.

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Steve Hackett – The Night Siren (2017)

Hackett une sonoridades do mundo todo para falar de união e paz sem pieguice

Por Lucas Scaliza

Como um dos maiores guitarristas que o rock já teve e uma formação musical ampla e clássica, Steve Hackett poderia facilmente tomar um caminho como o de Yngwie Malmsteen ou do conterrâneo Ritchie Blackmore, ambos extremamente técnicos e reconhecidos como precursores da guitarra neoclássica, fundindo escalas de blues com escalas da música clássica. Esses elementos mais eruditos estão no estilo de Hackett, sim senhor, e não é preciso fazer nenhum esforço para encontrá-los, seja em sua obra solo ou com o Genesis. Mas há um feeling diferente no que ele faz, há mais cor, mais melodia e embora sua técnica seja infalível, há muito material acessível e não cai no engodo do virtuosismo pelo virtuosismo. Caso isso não tenha ficado claro, o novo The Night Siren vem corroborar mais uma vez, com um leve acento pop que perpassa todo o disco, aliás.

Assim como em Wolflight (2015), Hackett continua explorando os modos gregos e diferentes tipos de escalas para poder fazer a música de diferentes partes do mundo. Como um artista progressivo, ele é um colecionador de referências e faz de tudo para incluir o mundo em seu caldeirão de ideias. De certa forma, The Night Siren nos coloca mais uma vez diante das mesmas fórmulas que Hackett já utilizara, mas com tantas melodias boas e harmonias sofisticadas que fica difícil não prestar atenção no que ele propõe (novamente).

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Assim, “Behind The Smoke” tem jeitão épico, “Martian Sea” é uma mistura de psicodelia pop com solo de instrumento do Oriente Médio e “El Niño” é quase uma faixa de trilha sonora de Mad Max, misturando orquestração, percussão bem marcada e guitarras distorcidas. “Fifty Miles From The North Pole” é uma dessas composições que Hackett ainda prepara com carinho para nos entregar o melhor do seu espírito progressivo, assim como “In The Skeleton Gallery” tem um solo de flauta de John Hackett que parece remeter à clássica “Firth or Fifty” e uma estrutura que vai do místico ao fusion jazz. “Anything But Love” é flamenco que se transforma em pop e então ouvimos a guitarra com vibratos e bends característicos de Hackett mais à frente; “Inca Terra” coloca o charango peruano para dialogar com as linhas supermelódicas do inglês e do cantor Nad Sylvan; “West to East” não é um dos momentos mais brilhantes de Hackett, mas é uma das mais acessíveis do álbum e trata das guerras em curso em nosso planeta.

Assim como nos discos anteriores, incluindo aqueles em que ele revisita o material do Genesis, há muito de Steve Hackett para se ouvir em The Night Siren. Ele sola o suficiente, canta o suficiente e toma a frente do palco o suficiente para você lembrar a quem pertence o show. Mas é notável, mais uma vez, como ele realmente deixa a música fluir e dá espaço a quem quer que seja para solidificar o lado mais world music do trabalho. Os vocalistas Kobi Farhi (de Israel) e Mīrā ‘Awaḍ (da Palestina), dividem espaço com uma cítara indiana, com um tar (instrumento tradicional do Oriente Médio), com a gaita de fole irlandesa e com músicos da Islândia e do Azerbaijão.

No final das contas, em nosso mundo moderno marcado pela globalização e pelas profundas diferenças culturais e sociais que evidenciadas por políticas nacionais, The Night Siren serve como uma declaração de intenção do guitarrista inglês. Para ele, o disco é como “a visão de um pássaro de um migrante musical que ignora as fronteiras e celebra nosso ancestral comum com unidade de espírito”. Não é a toa que a introdução do disco é um apelo sonoro à crise histórica dos refugiados.

Apesar de mais de 20 pessoas estarem ligadas ao álbum, o centro nervoso do projeto foi o próprio Hackett, sua esposa Jo e o tecladista Roger King (que também toca no The Mute Gods). Trocaram ideias musicais constantemente ao longo de um ano para produzir as 11 novas faixas. Hackett gravou tudo diretamente em um computador, com liberdade para experimentar diversas combinações de pedais e amplificadores simulados digitalmente (Mas não se engane, você nem percebe que a gravação foi feita dessa forma). Em outros casos, os músicos colaboradores gravavam suas partes e mandavam para ele e King ou iam até os músicos para gravar pessoalmente suas partes. Não foi trabalho fácil reunir músicos de tantos lugares diferentes em um mesmo produto.

Não é difícil ver comentário social na produção de Hackett. Um artista tão ligado à história, área de estudo e formação de sua esposa, não está alheio aos problemas do mundo, sejam eles globais (como os refugiados e as guerras) ou o abuso doméstico (tema da música “Love Song to a Vampire”, do disco anterior). The Night Siren é world music e rock progressivo para pregar a paz, sem soar redutor ou panfletário em faixa nenhuma.

 

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