Titãs – Nheengatu (2014)

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Nheengatu nos devolve um Titãs com veia rock’n’roll orgânica, musicalmente simples e socialmente relevante

Por Lucas Scaliza

Ninguém esperava nada de Nheengatu. Ninguém, já há muito tempo, esperava nada de contundente que viesse do Titãs. Uma vez, até mesmo Tony Bellotto, guitarrista da banda e escritor, comentou que a banda tinha tocado no lançamento de um projeto imobiliário e se autoironizava: “vejam vocês do que deu o rock brasileiro”. Em outro artigo, o mesmo Bellotto disse que não via mais atitude no rock nacional, mas ela sobrava em Zeca Pagodinho.

O problema do Titãs não foi deixar de fazer músicas boas, mas deixaram de ser relevantes quanto ao “rock de Brasília”, ou quanto ao rock que pode e deve falar de algo que não sejam histórias de amor. Emicida, Criolo e vários outros rappers se tornaram mais críticos que roqueiros com décadas de estrada.

Mas o Titãs fez uma bela turnê recuperando o som e as mensagens de Cabeça Dinossauro (de 1986, mas relançado em 2012), seu disco mais clássico, e então nasceu Nheengatu, que fala o português atual dos protestos, das aflições brasileiras e dos dilemas sociais. É dedo na ferida com coragem, aos berros se precisar, e tudo acompanhado por guitarras carregadas de distorção e intenção agressiva.

A faixa que abre o disco, “Fardado”, é exemplar nesse contexto. Fala diretamente sobre a atuação da polícia (de qualquer Estado) frente aos abusos cometidos contra civis em manifestações. “Você também é explorado, fardado!”, grita forte o vocal, querendo dizer como a força policial também é um cidadão, um proletário a serviço de uma ideologia (ou interesse) governamental. “Mensageiro da Desgraça” recupera a ideia do imigrante, que vem para as cidades grandes do Sul e Sudeste atrás de uma vida melhor, mas acaba, como acerta a letra, queimado vivo enquanto dorme. Durante os versos, a bateria é quem dá o tom nordestino rítmico, enquanto uma guitarra com overdrive não deixa de soar, lembrando do que se trata a música.

No melhor estilo punck rock da capital, “República dos Bananas” é uma ode aos underdogs do país, gente com história decadente que conhecemos diariamente. “Chegada ao Brasil (Terra à Vista)” segue a mesma trilha de assunto e tipo de música, falando do que há neste país (cachaça, trapaça, desgraça e índia cheia de graça). Ambas as canções têm menos de 3 minutos e são acompanhadas por guitarra, baixo e bateria bastante diretos.

“Pedofilia”, como grande parte do álbum, é uma volta revoltada aos anos 80 do rock nacional. Mensagem direta, tema polêmico ganhando forma musical e ainda conseguem encaixar um piano criando tensão ali no meio. “Eu Me Sinto bem” é a representante do ska rock no disco.

titas_1_credito_marcos_hermes_2500x1667_copiaO Titãs, que á chegou a colocar seis ou sete pessoas no palco, agora está menor, com apenas quatro integrantes (Paulo Miklos, Branco Mello, Sérgio Britto e o já citado Tony Bellotto). É uma banda essencialmente rock’n’roll sem firulas: vocal, guitarras, baixo e bateria. E tudo se resolve com isso aí e nada de efeitos de estúdio, sem DJs, sem tentar soar bonito. Não há uma única balada no disco, não tem uma música para a sua mãe se apaixonar ou virar tema romântico de novela.

Nheengatu tem 14 faixas e 37 minutos de música apenas. Apenas uma faixa alcança os 3’30” de duração. É comum faixas que mal passem dos 2 minutos. Mas a força do álbum está em ser direto, em recuperar atitude no rock nacional, mostrar que a banda sempre deveria ter sido sinônimo de atitude – e não chegar ao ponto de reconhecer que Zeca Pagodinho conseguia ser mais relevante que metade dos nomes conhecidos do “rock” nacional. Sendo assim, ponto para o Titãs, que não fez concessões no novo álbum. Ouvimos até palavrões que servem para extravasar o que são sentimentos e linguagem recorrente entre brasileiros de qualquer classe social e categoria profissional.

E “nheengatu” é uma língua derivada do tupi. Ao chamar o novo álbum por esse nome, parece que o Titãs quer dizer que fala a língua de um Brasil fundamental, sem distinções. A foto, no entanto, é uma pintura da Torre de Babel, que pode representar as diversas visões e opiniões que encontramos na sociedade sobre os temas cantados no disco. Ao mesmo tempo que combatemos a pedofilia e a violência contra a mulher, mais casos são registrados. Quanto mais protestamos, mais feridos ficamos e nem sempre com mais direitos respeitados. É a contradição e a desigualdade do Brasil ganhando vazão musical mais uma vez.

Se não é brilhante, pelo menos Nheengatu nos devolve um Titãs com veia rock’n’roll orgânica, musicalmente simples e socialmente relevante. Ainda existem problemas neste país, eles não terminaram na década de 80.

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