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Opeth – Pale Communion (2014)

Opeth_Pale_Communion_album_artworkNovo álbum mostra Opeth mais progressivo do que nunca e com excelentes composições de Mike Akerfeldt

Por Lucas Scaliza

Pale Communion, o aguardado novo álbum da banda sueca Opeth, está finalmente entre nós. Ao longo de suas oito magníficas faixas, é possível identificar os elementos e características que sempre marcaram a sonoridade da banda, mas também é possível constatar que não apenas abdicaram do death metal como também entram de cabeça numa proposta de rock progressivo (com apenas algumas passagens que se aproximam do metal progressivo). Mas ainda assim, continua sendo Opeth, sem sombra de dúvida.

Mike Akerfeldt, o vocalista, guitarrista e compositor do grupo, já havia afirmado que o novo trabalho não teria vocais guturais, mas teria um maior foco nas melodias. Ele falou sério. Quem esperava um novo Blackwater Park (2001), algo do estilo Ghost Riveries (2005)ou mesmo Watershed (2008) não encontrará os vocais monstruosos, nem mesmo nenhuma passagem com extrema distorção (nada como o primeiro acordo de “Heir Apparent”). No lugar disso há uma quantidade maior de ritmos quebrados, passagens de teclado e riffs cheios de notas, e ritmos fluentes e em loop, como em Damnation (2003). Mas tudo sem pesar a mão, sem doses cavalares de overdrive. Por isso o Opeth soa mais como rock progressivo, e não mais como death metal progressivo.

Heritage (2011), o último disco do grupo sueco, foi um passo adiante na carreira, na estética e no desenvolvimento de seus cinco músicos, mas foi elogiado e criticado em igual medida, justamente por terem abandonado os vocais guturais e se inclinado muito mais evidentemente para a música progressiva. Pale Communion é uma continuação desse pensamento, mas muito melhor focado. Suas oito faixas são únicas, empolgantes e dão mais um passo à frente na habilidade de composição e execução da banda.

opeth

Todas as músicas continuam explorando a tristeza e solidão dos tons menores e a interação entre rock e violão clássico. “Eternal rains will come”, que abre o álbum, leva mais de três minutos para que a primeira palavra seja cantada (e em coro). Abre com um riff quebrado de guitarra e com uma combinação de notas que denota algo de sinistro na música. Após um interlúdio sombrio do teclado, a guitarra de Akerfeldt faz um daqueles solos solitários a que o ouvinte de Opeth está acostumado. Só então se inicia a passagem rítmica fluida em 4/4 (preste atenção no teclado e na ótima linha do baixista Martín Méndez). Durante o solo final, a bateria de Martin “Axe” Axenrot soa como um improviso para acompanhar o ritmo imposto pela sequência de notas da guitarra.

“Cusp of eternity” é empolgante. Bateria, baixo e guitarra criam uma base sólida, grave e nada estridente. Por cima desta “cama”, o tecladista Joakim Svalberg faz sua mágica com sons que empregam um clima etéreo à canção e Mike Akerfeldt canta uma melodia bela e sombria. No lugar de refrãos, um riff de guitarra e vocais harmônicos. Há uma guitarra ao longo da faixa que contribui com o clima etéreo, tocando notas longas, abusando de ótimos bends e efeitos de expressão.

“Moon above, sun below” é a única faixa de Pale Communion a chegar aos 10 minutos. Embora não chegue nunca a ficar estridente ou extremamente pesada, é uma faixa assombrada e com riffs de guitarra que levam o som do Opeth para mais perto do metal progressivo. Vários breaks e acentuações conduzem o ouvinte por essa paisagem. Há um interlúdio com dinâmica mais baixa onde a guitarra solitária faz coro com um dedilhado. Até aqui o ouvinte já percebeu que nada neste álbum é exatamente simples. Sempre há uma ou outra finalização de riff ou fraseado de bateria que contribui para deixar tudo mais tenso, menos equilibrado e mais complexo. Não espere riffs como os do Metallic ou Black Sabbath aqui. Nem mesmo riffs de death metal. O Opeth opta pelo caminho mais indireto do rock progressivo, apostando nas sequências de notas que sobem, descem ou “enrolam” o fraseado (se você ouviu bastante Dream Theater, sabe do que estou falando).

A balada melancólica “Elysian Woes” traz dois violões e seus dedilhados acompanhando a voz limpa de Akerfeldt. O timbre suave e aveludado da guitarra PRS sobressai nesta faixa, que parece retirada diretamente de Damnation. Em sua segunda metade, a faixa ganha uma camada de teclado que parece um véu envolvendo toda a banda. Já “Goblin” é a faixa instrumental do disco. Vai ganhando força e se soltando aos poucos, até que uma programação de teclado continua soando enquanto guitarra faz seus riffs “enrolados”, acompanhado pela linha própria do teclado. Quando os riffs se estendem ou quebram os ritmos, surge novamente aquela bateria que parece improvisar para manter tudo nos trilhos. É a faixa mais jazz do novo trabalho do Opeth.

A primeira parte de “River” é o único momento de Pale Communion que não tem um ar entristecido ou climas sombrios. É uma novidade no repertório da banda. Dedilhados fluentes de violão (sem nenhuma quebra rítimica brusca) são complementados por um vocal suave e em coro da banda e um solo de guitarra ensolarado. Mas lá pela metade da faixa há um desvio por um caminho mais soturno e com letra não tão positiva assim que desemboca em uma passagem bastante progressiva, como solos de Akerfeldt e Akesson. E há mais riffs que aproximam a banda do metal progressivo conforme a dinâmica aumenta.

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“Voice of treason” e “Faith in others” fecham o álbum mostrando porque as habilidades de composição de Akerfeldt são sempre ressaltadas. Além de o músico ter encontrado há um bom tempo a sua (triste) voz artística, ele sabe como mantê-la em cada novo trabalho, acrescentando elementos, tornando as faixas interessantes, subindo e descendo a dinâmica, dando espaço para que outros músicos se expressem e façam a diferença na condução da música. “Faith in others” mantém um clima de exaltação, em que a interpretação vocal de Akerfeldt e o teclado de Svalberg são fundamentais. Um faixa bonita e que finaliza de forma perfeita esse novo esforço do Opeth.

De forma geral, é bom ressaltar que sejam solos mais agressivos ou mais emocionais, Akerfeldt e o guitarrista Fredrik Akesson sempre prezam pelo bom gosto e não pela exibição. Não há fritação em Pale Communion. Embora seja o disco com riffs mais progressivos e que mais lembrem, de certa forma, o Dream Theater, as guitarras não pecam pelos irritantes excessos com que John Petrucci vem temperando as músicas de sua banda nos últimos anos.

Quem quer ouvir um Opeth agressivo deverá esperar mais um pouco. Quem é adepto da nova fase da banda – menos preocupada em soar metal e mais focada na composição – vai adorar Pale Communion. E não precisa ser fã de rock progressivo para gostar. O álbum desce bem até para quem quer ouvir Opeth pela primeira vez.

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