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True Detective (2014)

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É notável a coerência da trilha sonora da séria com a ambientação, o tom da história e o drama dos personagens

Por Lucas Scaliza

A série True Detective, a maior surpresa da HBO e da tevê norte-americana de 2014, ganhou muitos fãs com sua história realista, dramática e cheia de contornos sociais, políticos, econômicos e íntimos que se passam em uma quase mítica América Profunda. Embora não exista, de fato, um pingo de sobrenatural ao longo dos oito episódios de sua primeira temporada, é por meio de um assassinato de inspiração satânica que somos levados a conhecer os policiais Rust Cohle e Martin Hart, interpretados magistralmente por Matthew McConaughey e Woody Harrelson. A partir daí acompanhamos a série ir e voltar no tempo. Vamos juntos com os protagonistas – um deles niilista e acadêmico, outro mais prático e bruto, mas ambos com seus demônios pessoais – tentando desvendar o quebra-cabeça do assassinato. Sob nossos olhos fica sempre a dúvida: o que está realmente acontecendo? O que existe e o que não existe? Pode a existência ter contornos tão soturnos assim?

A série nunca lançou uma trilha sonora oficial, mas os fãs reuniram 46 músicas que são executadas ao longo de seus episódios e compuseram uma trilha não oficial (unofficial soundtrack, disponível para download via torrents aqui). Quem assistiu pôde ouvir algumas das músicas, mas essa seleção de quase 3 horas de duração faz o ouvinte ter mais atenção a cada canção, já que provavelmente não pôde prestar muita atenção enquanto a história se desenrolava na tela.

A seleção tem tudo a ver com a série, sua ambientação e seu clima pesado e arrastado. Rock, blues de raiz, rock rural, country, folk, música gospel, música vocal negra, um pouquinho de metal e de hip hop e até música francesa. Além da constante atmosfera opressora que paira sobre Rust Cohle, Martin Hart, sobre o crime que tentam desvendar e sobre suas vidas infelizes, a história se passa em algum lugar do interior caipira da Louisiana, estado dos EUA de colonização francesa e que seria, traçando um paralelo meio estranho, como a Bahia brasileira: um estado conhecido por sua população negra, por suas paisagens e pelo florescimento de religiões e práticas espirituais diferentes, provindas da África. Se há candomblé e umbanda na Bahia, há o vodu na Louisiana.

Daí que a trilha sonora nos brinda com uma escalação perturbante e extremamente coerente com os temas e tipos sociais da série. O doo-wop gospel de “You better run to the city of refugee”, do reverendo C. J. Johnson e o blues raiz de John Lee Hooker (“Unfriendly woman” e “One Bourbon, one scotch, one beer”) dividem o mesmo setlist que o grunge metal dos Melvins (“A history of bad men” e “The brain center at Whispple’s”) e o jeitinho sombrio de “Train Song” (canção de 1966 da londrina Vashti Bunyan) e “The Angry River”, do grupo The Hat.

A faixa que melhor resume o seriado é mesmo “Far from any road”, da banda The Handsome Family. A balada, que toca na abertura de True Detective, tem uma levada meio folk, meio country e uma letra que retrata um ambiente bem parecido com o da Louisiana do seriado (cheio de neblinas, campos abertos, crepúsculos, luas prateadas, florestas) e seres muito dados ao esoterismo (como gatos e cobras). Mas a música mais estranha e com estrutura menos convencional executada na série –  e presente nessa trilha não oficial – é “Red light”, da dupla excêntrica Vincent & Mr. Green.

Muitos dos artistas que participam da trilha sonora da série da HBO são totalmente desconhecidos do grande público brasileiro, principalmente no que se refere ao que há de blues e country nos quatro cantos do país. Muitos são alternativos até mesmo dentro dos próprios Estados Unidos. Assim como a série nos propõem um olhar para o interior do Estado americano da Louisiana, habitado por tipos mais caipiras e economicamente mais vulneráveis, longe dos grandes centros cosmopolitas, sua trilha sonora nos faz ouvir a música que também vem desses ambientes ou os retrata de alguma forma.

Mas há também artistas do cenário indie ou alternativo que são melhor conhecidos do grande público. O grande Nick Cave participa com a música “Honey bee (Let’s fly to Mars)”, de seu projeto roqueiro Grinderman. Há “Eli”, da psicodélica Bosnian Rainbows (uma das bandas de Omar Lopez-Rodriguez, ex-Mars Volta, que também toca no Antemasque), “Fault line” do Black Rebel Motorcycle Club e “Everyman needs a companion”, do Father John Misty, pseudônimo do compositor Joshua Tillman. Tem também The Kinks, Tina Turner e Juice Newton com “Angel of the Morning”, seu sucesso de 1981 e talvez a música mais acessível da seleção.

Dentro do projeto audiovisual, a trilha sonora de True Detective é extremamente eficiente. Não faz muita diferença se você conhece ou não as músicas ou os artistas de sua trilha sonora, pois tudo está em seu devido lugar dentro da narrativa e da montagem do programa. Mas quando você se dá ao trabalho de ouvir com atenção cada uma das 46 músicas que foram executadas em apenas oito episódios, é provável que queira pular algumas faixas ou não aprecie essa jornada toda. Mas é notável a coerência da trilha com a ambientação, o tom da história e o drama dos personagens.

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2 comentários em “True Detective (2014)

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