2014 Indie Nacional Pop Resenhas Rock

Transmissor – De Lá Não Ando Só (2014)

transmissor1Banda mineira mantém as boas melodias e dá mais espaço para passagens instrumentais

Por Lucas Scaliza

A banda mineira Transmissor lançou o sucessor de Sociedade do Crivo Mútuo (2008) e do ótimo Nacional (2011). O novo disco, que tem uma das capas mais bonitas que vi este ano, chama-se De Lá Não Ando Só e continua explorando o mesmo tipo de sonoridade do álbum passado: pop/rock com melodias bonitas e com poucas arestas, deixando o som redondinho. De Lá…, terceiro do grupo, até soa como um disco gêmeo de Nacional. O trabalho pode ser baixado gratuitamente do site oficial da banda: www.transmissor.tv.

As faixas “Queima o sol” e “Só um”, que abrem o novo trabalho dos mineiros, são canções básicas e tão redondinhas que não chegam a soar interessantes. A terceira faixa melhora, com mais camadas sonoras e uma parte instrumental que cria um clima com guitarra antes de desembocar novamente no refrão.

É a partir da quarta faixa, “Todos vocês”, que De Lá Não Ando Só torna-se um disco para se prestar atenção até o fim. A faixa tem guitarras mais fortes e o vocal consegue se impor de forma mais contundente (mas ainda não de forma mais agressiva), além de um trabalho rítmico bem feito.  É daí para frente que vemos a criatividade do sexteto em ação e justificam a contratação do produtor Carlos Eduardo Miranda. Se você só conhece o Miranda da televisão – o gordinho de barba branca de programas do SBT –, saiba que ele já produziu bandas como Mundo Livre S/A, Skank, Móveis Coloniais de Acaju, Raimundos, O Rappa e a famigerada banda Cansei de Ser Sexy (banda que perdeu seu principal criador e parece ter perdido o foco também).

Foto: Carol Araújo
Foto: Carol Araújo

“Mais quente do que quis” é uma faixa ensolarada que sedimenta o papel da guitarra no novo disco dos mineiros. “Nessas horas” é a balada que de novo faz um uso excelente das guitarras com efeitos para criar uma cama bonita para os versos. Mas o destaque especial vai para o baixo e para uma certa virada na hora do refrão que ao invés de expandir a música, a “contrai” inesperadamente, algo que vimos o Los Hermanos fazer muito bem. Toda a passagem instrumental que fecha a faixa é excelente.

“Nada pra te devolver” se beneficia das técnicas de estúdio de ambientação, efeitos de pedais e de um bom gosto mineiro para resolver a faixa com um violão ditando o ritmo e nenhum vocal. Essa mesma ambientação vazia, ritmo mais lento, instrumentação mais viajante se repete em “Retiro”.

A faixa que dá título ao disco tem um ótimo refrão ensolarado, que ao vivo deve soar ainda melhor, mas é uma faixa bastante básica também calcada na estrutura do verso-refrão-verso. “Canso a cabeça” devolve o rock melódico ao disco. A voz muito doce do vocalista não bate com a pegada mais firme da guitarra e da bateria nesta faixa. Os arranjos e o overdrive pediam uma voz mais agressiva. E “Casa Branca” começa como uma balada triste para fechar o disco que de repente ganha o poder de toda uma banda tocando junto, como acontece com “My body is a cage”, do Arcade Fire, que fecha o disco Neon Bible.

De Lá Não Ando Só até parece inofensivo a princípio, como um disco muito focado em parecer bonitinho e acessível, mas o foco maior nos instrumentos e nas passagens instrumentais faz dele uma evolução em comparação com Nacional. Por isso, imagino que, enquanto banda, ao vivo tenha se tornado um grupo ainda mais interessante.

Não sei se diria que é um dos melhores álbuns nacionais lançados até agora, mas com certeza coloca o Transmissor entre as principais bandas independentes do Brasil. Percebemos que o som deles tem muito de Minas Gerais – um celeiro de grandes artistas, de Lô Borges e Milton Nascimento a Skank e Pato Fu – e tem muito do que virou o indie rock brasileiro após os dois últimos discos do Los Hermanos. Em franca expansão sonora, acompanhar o Transmissor pode render surpresas muito boas num futuro nada distante. (Se mantiverem o ritmo, o futuro chega em 2017).

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1 comentário em “Transmissor – De Lá Não Ando Só (2014)

  1. Pingback: Thales Silva – Minimalista (2014) | Escuta Essa!

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