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Pulp Fiction (1994) – 20 anos da trilha sonora

PulpFiction-Soundtrack-001Surf music, rock, soul e silêncio: o ritmo e as ideias musicais de Tarantino

Por Lucas Scaliza

Nenhuma música executada em Pulp Fiction, esse clássico do cinema dos anos 90, está lá por acaso. A trilha sonora do segundo filme de Quentin Tarantino (que dirigiu Kill Bill, Django Livre, Cães de Aluguel) é parte indissociável da estética cheia de referências que o diretor cultiva há mais de 20 anos.

Além disso, as canções que ele escolhe não estão ali meramente para que haja trilha sonora. Elas ajudam a dar ritmo a uma cena, a agregar significado, são responsáveis por criar a identidade dos personagens e do filme como um todo. A famosa cena da dança entre Uma Thurman e John Travolta ao som de “You never can tell”, de Chuck Berry, é um exemplo de como aquela música nos diz algo sobre aquelas pessoas, sobre o que podem ou não fazer (como atores e como personagens) e como aquele momento prosaico se encaixa em um filme tão violento, intenso e sarcástico.

Logo início do filme, após a cena de assalto, ouvimos a famosa “Misirlou”, clássico da surf music de Dick Dale. Quem não conhece a versão original de 1962, certamente vai se lembrar da versão usada pelo Black Eyed Peas em “Pump It”. No entanto, é uma canção que tem suas origens em 1927, no Oriente Médio (aqui tem um pouco da história). Tarantino escolheu essa música, de ritmo vigoroso e guitarra nervosa, por achar que era como uma composição western de Ennio Morricone, mas em versão rock’n’roll.

Há em Pulp Fiction a consciência de que o filme lida com o submundo do crime, pessoas ligadas umas às outras por meio de algo ilícito – seja um assalto à lanchonete, uma luta de boxe combinada que dá errado, vingança ou uma cabeça explodida acidentalmente no banco traseiro de um carro. Da mesma forma, a trilha sonora não se prende ao que havia de mais conhecido na década de 1960 e 1970, incluindo o lado B do rock, do pop e do soul. Afinal, é um filme baseado também no lado B da literatura americana, a chamada “literatura de polpa” que era comprada baratinha nas bancas de jornal.

Por isso, Tarantino incluiu o cover da banda Urge Overkill para a balada “Girl, you’ll soon be a woman”, de Neil Diamond, lançada originalmente em 1967. Essa balada é tocada na cena em que Mia (Uma Thurman) dança e se droga a espera de Vincent Vega e tem uma quase overdose logo em seguida. A banda Urge Overkill não era muito conhecida da época, mas a participação na trilha do filme fez com que alcançasse algum sucesso. A banda esperava que fosse decolar depois disso, o que nunca aconteceu. A Urge Overkill continua sendo o alternativo do alternativo nos EUA.

Em uma entrevista de 16 minutos presente em forma de áudio em uma versão estendida da trilha de Pulp Fiction, Tarantino conta que imaginou a cena em que Vincent busca Mia para sair durante seis ou sete anos. A cena é tensa: o cara não conhece a garota, mas ouviu histórias a respeito dela e tem consciência do que significa levar a mulher do chefe (do crime) para sair. Tarantino diz que sempre imaginou essa cena acompanhada da música “Son of a preacher man”, um soul branco água-com-açúcar da cantora Dusty Springfield.

O diretor diz que quando tem uma ideia de filme e sua trama, antes de começar a escrever o roteiro ele vai até sua coleção de discos e tenta encontrar ali uma personalidade para o filme. Tarantino deixa claro que tenta escolher a música certa para os créditos iniciais, para o encerramento e para cada momento, pois a trilha contribui com o tom da obra no geral e em cada cena específica.

Mas o diretor também usa o silêncio a seu favor da mesma forma como usa as canções – e tem se destacado por isso. Se assistir novamente a Pulp Fiction ou Kill Bill poderá reparar em longas cenas que constituem momentos superclimáticos, mas sem nenhuma trilha sonora. É o silêncio dando o peso às situações absurdas e inquietantes criadas por Tarantino.

Pulp Fiction, assim como Kill Bill, é um filme enquadrado por muitos críticos e estudiosos dentro da estética pós-modernista: é uma obra de seu tempo (1994), mas com referências diretas a westerns, a filmes europeus e americanos dos anos 60 e 70, ao cinema mais comercial e ao cinema underground. Mistura coisa séria com passagens prosaicas (como é o caso do Quarteirão do Queijo na Holanda) e ainda reinterpreta um trecho da Bíblia. A passagem de Ezequiel 25:17 recitada duas vezes pelo personagem de Samuel L. Jackson foi reescrita pelo ator e pelo diretor. A parte sobre “o caminho do homem justo” e sobre aquele que “pastoreia” não fazem parte do texto bíblico. Só as linhas finais existem em Ezequiel.

(Aliás, esse trecho já tinha sido utilizado em Um drink no inferno, filme que também tem roteiro de Tarantino, na cena em que Harvey Keitel se afasta dos vampiros. E o trecho sobre “o caminho do homem justo” aparece na lápide de Nick Fury, personagem de Samuel L. Jackson em Capitão América 2 – Soldado Invernal).

Essa multiplicidade está presente na trilha sonora, que tem ainda “Bustin’ surfboards”, do The Tornadoes, e “Surf rider”, do The Lively Ones (mas composta pelo líder do The Ventures), duas deliciosas faixas instrumentais de surf rock. “Lonesome town”, de Ricky Nelson, é uma balada melancólica folk de 1959. Tem o funk animado “Jungle Boogie” de Kool & the Gang de 1973 e a balada soul “Let’s stay together”, de Al Green, lançada em 1972. Maria McKee contribuiu com “If love is a red dress (hang me in rags), a única faixa que está na trilha sonora de Pulp Fiction e em nenhum outro disco. E “Flowers on the wall” é o country do The Statler Brothers, a banda que fazia o backing vocal para Johnny Cash. Ou seja: crossovers e ecletismo não só na montagem do filme enquanto imagem e narrativa, mas no som também.

Ouvir a trilha sonora do filme de forma isolada é um experiência que só se completa quando, depois de ouvi-la várias vezes e entrar em seu clima, você volta a rever o filme com os ouvidos prontos para reconhecer cada canção. É assim que sentirá a ironia, o sarcasmo, o vigor e o ritmo pretendido por Tarantino com sua trilha pouco comum. E há os silêncios também, tão importantes no corte final de Pulp Fiction.

Ah, e Tarantino nunca achou que a surf music tivesse algo a ver com surf. Para ele, era rock’n’roll com um quê de western.

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5 comentários em “Pulp Fiction (1994) – 20 anos da trilha sonora

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