2014 Folk Indie Nacional Resenhas Rock

Ian Ramil – IAN (2014)

capaGaúcho sem medo de incluir o diferente, o ruído e o estranho (e tudo fica muito bem junto)

Por Lucas Scaliza

Conheci o Ian Ramil esses dias, no Twitter, interceptando alguns retuítes pela timeline. Não conheci o cantor, instrumentista e compositor propriamente, mas sua música (que pode ser baixada de graça – ou doando o valor que você quiser – aqui). Ao ouvir suas músicas, com violão e com guitarra, com ruídos e com música concreta, com bons versos e boas ideias, imaginei logo que Ian e IAN estariam em algum lugar entre Lenine, Apanhador Só e Los Hermanos (essa eterna referência do indie rock nacional deste começo de século [não que haja algo de errado com isso, vejam bem]).

Pesquisando sobre o cantor, descobri que ele é mesmo parceiro do Apanhador Só, o que pode explicar os ruídos e a utilização de “sons estranhos” nas músicas. Ele também gosta de Beatles, Nirvana e Radiohead. E assim sabemos de onde vem muitos dos elementos que encontramos em IAN. E não dá para deixar de sentir algo de Caetano também, que aparece logo em “Segue o bloco”, que abre o disco de forma bem peculiar, com metais soprando por trás do vocal tímido de Ian. Para completar esse background, vamos anotar que Ian, natural de Pelotas, no Rio Grande do Sul, é filho músico e escritor Vitor Ramil.

ian ramil

Em compasso ¾ e com ares parisienses, Ian canta a doce letra de “Seis patinhos” antes de embarcar num “quá-quá-quá-quá”. “Zero e um” tem um quê de Radiohead e Lenine em suas escolhas pouco usuais e na estrutura intrincada da canção. Uma faixa que vai se revelando aos poucos e nunca se resolve da maneira como achamos que deveria. “Nescafé”, outro destaque, tem um violão presente (e um dos instrumentos mais marcantes do disco), uma banda que mantém o pulso e ruídos constantes ao fundo. Caminha para um clímax noisy emocionante e estranho.

“Suvenir” é basicamente uma levada de cuatro, uma espécie de violão tocado pelo próprio Ian que pode ter quatro cordas ou mais. É muito tradicional da Venezuela e em outros países da América do Sul. Aliás, em termos de instrumentos diferentes, IAN está cheio. Além do cuatro, que também aparece em “Over and over”, temos o órgão Wurlitzer (“Entre o cume e o pé”), violino corneta (“Seis patinhos”), caxixa, reco mola, conga, maracas, beatbox (“Zero e um” e “Rota”), bandolim, serrote (“Imã ralo”) e até caixas de fósforo (“Segue o bloco”). Damon Albarn, Lenine e Apanhador Só devem estar orgulhosos.

ian ramil3

Dono de um timbre bem legal de voz grave, Ian Ramil sabe se beneficiar disso. Contudo, ao longo do álbum soa como se ele fosse afinado, sim, mas não tivesse muita experiência na hora de usar a voz pra valer. Não que haja erros, mas às vezes soa um pouco vacilante. Talvez seja esse mesmo o jeito de cantar dele e é assim que vai ser sempre. Se esse for o caso, não há problemas também, mas Ian, enquanto cantor, não terá um alcance muito longo. Porém, o forte de Ian, como IAN demonstra, é a composição.

IAN é um bom e belo álbum, nos mesmos moldes de Feito Pra Acabar (2011), primeiro disco de Marcelo Jeneci. Quero dizer que é uma ótima estreia para um músico que já tem experiência de palco e de composição, mas que lança sua carreira somente agora. E, como Jeneci, ele permeia o disco todo com uma instrumentação coesa e uma voz autoral que unifica todo o trabalho, mas há grande diversidade de estilos musicais. O “estilo Ian Ramil”, por assim dizer, ainda está por vir para que nossos ouvidos possam decupá-lo e reconhecê-lo por suas características mais intrínsecas. O quanto IAN vai pesar nisso – ou o quanto de IAN sobrará nesse estilo – é algo que só o tempo dirá.

O capixaba Silva, que lançou o disco Claridão em 2012, mostrava uma aura anos 80 inegável. Com Vista pro Mar, Silva confirmou essa referência retrô em sua música, embora muitos outros elementos musicais tenham entrado em seu mundo. Com Jeneci foi parecido: no primeiro disco ele mostrava que sabia cantar, tocar e percorrer diversos estilos musicais. Em 2013, com De Graça, manteve um certo ecletismo, mas foi pretensioso, deixando sua música mais rebuscada e, de certa forma, um tantinho mais difícil de digerir.

Ian Ramil mostra potencial e mostra disposição tanto para ser pop quanto rock viajante e flertar com uma MPB que exige de seu ouvinte (e de sua banda) dar um passo para fora da zona de conforto. E esse é seu melhor atributo em IAN: não ter medo de arriscar, não deixar de incluir o diferente, deixar soar estranho, deixar que o público aprecie as experiências.

2 comentários em “Ian Ramil – IAN (2014)

  1. Pingback: Pélico – Euforia (2015) | Escuta Essa!

  2. Pingback: Ian Ramil – Derivacivilazação (2015) | Escuta Essa!

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