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Jorge Ben – A tábua de esmeralda (1974)

Há 40 anos, Jorge Ben criava o seu álbum mais inspirador e místico

por brunochair

Em 1974, Jorge Ben Jor já era considerado um ícone da música popular brasileira. Até então, havia lançado dez discos desde Samba Esquema Novo, seu álbum de estreia em 1963. Em 1973, a gravadora lançou Dez anos depois, uma coletânea com as melhores músicas produzidas pelo cantor. No ano seguinte, hora de lançar material novo.

Jorge já tinha em mente o que desejava produzir: queria algo mais filosófico, que estivesse de acordo com as suas convicções pessoais. Chegou na gravadora Philips Records (depois tornou-se Polygram) com essa intenção. “Quero fazer um disco sobre os alquimistas, sobre Hermes Trismegisto e a tábua de esmeraldas, Paracelso e a agricultura celeste. Simbora gravar?”

De pronto, houve uma certa rejeição da gravadora em acolher a nova ideia. Queriam o básico, o vendável, o realizável. Um disco sobre alquimia não interessaria a ninguém, levando-se em conta o mercado fonográfico da época. Coube a André Midani, gerente da gravadora na época, ouvir os apelos de Jorge Ben e bancar o desafio do cantor de transmutar uma ideia em realização.

Curioso é que, deste mesmo ano também é o álbum Gita, do Raul Seixas; e no ano seguinte foi lançado o álbum Racional, do Tim Maia. Nos três, um assunto em comum, que é o misticismo, a busca por uma verdade universal em diferentes crenças. Necessário lembrar, também, que estávamos em plena Ditadura Militar. Talvez essa procura por novos caminhos e verdades tenha relação com o real, tão sufocante e arbitrário.

Jorge Ben (Jor, só em 1989), após ter conquistado o aval da gravadora, produziu um álbum em que há referências diretas aos grandes alquimistas. Pra começar, podemos observar a capa, que mostra figuras de Nicolas Flamel, e a primeira lei da tábua de esmeralda, texto escrito por Hermes Trismegisto que deu origem a alquimia: “é verdade, sem mentira, certo e muito verdadeiro”.

Apenas pela capa, percebe-se que Jorge Ben conhecia os fundamentos e as origens da alquimia. Era um estudioso da teoria, mas nunca foi um prático. As referências sobre alquimia estão na maioria das músicas do álbum. Referências que são preenchidas da mais pura criação poética, acrescidas a arranjos inspirados de violão (em 1976, o cantor abandonaria de vez o acústico e partiria para a guitarra elétrica).

Já que o assunto é alquimia, vamos falar primeiramente das músicas com essa temática:

1) “Os alquimistas estão chegando” : frase que é entoada por boa parte da música, seguida por qualificações dos alquimistas (discretos, silenciosos, pacientes, assíduos, perseverantes) e sobre a técnica de trabalho deles (Trazem consigo, cadinhos / Vasos de vidro / Potes de louça). Pura poesia.

2) “O homem da gravata florida”: talvez ninguém saiba, mas este homem existiu, e foi Paracelso. Médico e teórico da época, ele é conhecido como um dos grandes alquimistas. Segundo relatos, era comum Paracelso visitar os pacientes com uma echarpe colorida. Jorge Ben imaginou a echarpe, a gravata colorida, e viajou. Deu detalhes descritivos que só uma imaginação fértil poderia produzir. E nos fez entrar nessa brincadeira de ver o homem e a gravata florida também.

3) “Errare humanum est”: Não tem menção a alquimistas ou a alquimia, mas a música faz parte deste universo místico, dessa ideia da transcendência.

10) “O namorado da viúva”: Talvez ninguém saiba, mas esta música tem uma relação com a alquimia. Nicolas Flamel, alquimista já citado, começou a namorar e casou-se com Pernelle, mulher rica. O problema era que a mulher, antes de Flamel, havia sido viúva por três vezes. Os homens, portanto, tinham medo de casar com ela. O legal é o refrão da música, que Jorge fez encaixar na melodia a palavra namorado. Torna-se “namo-mora-rado da viúva”. Uma das músicas mais bonitinhas da carreira do Jorge Ben:

11) “Hermes Trismegisto e Sua Celeste Tábua de Esmeralda”: a própria letra da música vai explicando ao ouvinte o significado da música. Hermes é considerado o fundador da alquimia, a tábua de esmeralda é o texto de princípio de tudo isso, inclusive desta obra artística de um carioca do século XX. “O sol é seu pai, a lua é a mãe / O vento o trouxe em seu ventre / A terra é seu nutriz e receptáculo”.

Exceto o tema principal do álbum, temos:

4) “Menina mulher da pele preta”: Alusão a mulher brasileira, realçando a sua beleza e a sua negritude, valorizando-a.

5) “Eu vou torcer”: uma mensagem também positiva, em favor da paz e das moças bonitas.

6) “Magnólia”: Este álbum, que é repleto de arranjos sensacionais para violão, o de Magnólia consegue destacar-se, ainda assim. Magnólia é uma das (várias) musas de Jorge Ben. Lindíssima música.

7) “Minha Teimosia, Uma Arma Pra te Conquistar”: sem muito o que dizer. O título da música diz tudo. Outra música linda.

8) “Zumbi”: Uma música em homenagem a Zumbi dos Palmares, o senhor das guerras e das demandas.

9) “Brother”: Um inglês meio macarrônico ao estilo Joel Santana, talvez a única música fraca do álbum.

12) “Cinco minutos”: Para terminar o álbum com chave de ouro. Uma música triste frente às demais, que relata um apelo (amor, espere mais cinco minutos) e uma negativa (o amor se foi). Canta baixinho, triste, desesperançoso. Música que, mais tarde, foi regravada por Marisa Monte.

Este álbum passa no teste do tempo?

Sim. Aliás, na época o álbum teve uma ótima repercussão, mas tornou-se mais importante com o tempo. Uma das provas disso foi o clamor nas redes sociais, anos atrás, para que Jorge Ben Jor fizesse um show baseado em A tábua de esmeralda. Jorge Ben Jor atendeu aos apelos do público, e voltou a manejar o violão, instrumento que há muito havia abandonado em prol da guitarra. Portanto, é um álbum de referência para quem gosta/deseja conhecer a música brasileira. E é difícil não gostar, hein!?

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14 comentários em “Jorge Ben – A tábua de esmeralda (1974)

  1. Tranquilamente um dos melhores álbuns que já escutei. Boa pedida!!! É um dos discos que quero na minha coleção heuehueh … valeuuuu abraços …

    • aee brunão! você não tem esse? se alguém estiver lendo este post e tiver o vinil do tábua de esmeralda e quiser vender ao meu amigo que é colecionador de discos, ele compra!!! rs. abraços mano!

  2. “Errare Humanum Est” é uma clara referência à obra de Erik Von Daniken, intitulada “Eram os Deuses astronautas?” O autor teoriza a possibilidade das antigas civilizações terrestres serem resultados de alienígenas (ou astronautas) que para as épocas relatadas teriam se deslocado.

    • Cássio, eu não mencionei a obra do Erik Von Daniken pq não pude checar se essa alusão é verídica ou não. Pela letra da música e tudo o mais, também acredito que seja. Espero que tenha gostado da resenha, e agradeço o comentário. um abraço!

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  6. Brother: “Inglês macarrônico e talvez a única música fraca do álbum” achei ruim essa curta e arrogante descrição, além de discordar totalmente. Poderia ter desenvolvido mais, um álbum todo falando em alquimia, vem Jorge ben e mete um “Jesus Christ is my lord, Jesus Christ is my friend”, porquê?
    Marcelo Adnet em uma das edições de seu programa 15 minutos na falecida MTV, abordou a música do homem da gravata florida e deu uma outra versão: disse que tinha sido feita para Roberto Carlos ou um outro cantor, não me lembro, que certa vez apareceu com uma gravata bem colorida e chamativa, que todos acharam graça e ele retratou na canção, como homenagem. As letras de Jorge Ben são mesmo enigmáticas. A gente pensa que ele tá viajando e vai ver ele tá só contando alguns episódios da vida como em outro exemplo, a música Cinco Minutos deste mesmo disco (linda e regravada por Marisa Monte em 2001 no álbum Memórias, Crônicas e Declarações de Amor): quem foi que não esperou cinco minutos e foi embora, sem o atender, sem ver como ele ficou [triste]?

    • Já temos um ano e meio desta resenha, e continuo com a mesma opinião sobre a música brother. A análise não deixa de ser subjetiva, e você não é a primeira pessoa que me critica a respeito dessa minha opinião. Estamos aqui para isso, para trocar ideias sobre o álbum, não é algo estático. Sobre “O homem da gravata florida”, seguindo a lógica do disco, era Paracelso mesmo. Se você der uma olhada na história dele, verá que ele possuía uma gravata florida. Mas, obviamente a obra artística não é um fim em si mesmo, pode conter diversas interpretações. Mas, num disco que fala sobre alquimia, faz mais sentido Jorge Ben estar falando sobre Paracelso, não? E sobre cinco minutos, é uma linda letra, msm! 🙂 abs

      • Eu li uma entrevista do Ben Jor, para a Trip se não me engano, em que ele confirma que estava falando do Paracelso.

    • Brother tem tudo a ver com essa questão da Alquimia, o que está no alto é como o que está embaixo. Cristo e o cristianismo místico em um sentido muito diferente do tradicional romano, de repressão e tristeza. Ao contrário, é o Cristo enquanto Krishna, a manifestação da personalidade divina presente aqui e agora e sempre. Veja com a música fala da preparação do caminho para sua manisfetação através da alegria, musica, flores… Sem falar que é uma canção muito pra cima e agradável de se ouvir.

    • Sobre “O Homem da Gravata Florida”, parece que é sobre Paracelso mesmo, mas nada impede que outras referências simultâneas estejam ali também no grande caldeirão do mestre.

  7. Pingback: Marcelo Santana – #Sem Filtro [Álbum] – Bossa Nova Foda

  8. Zumbi é homenagem a Zumbi dos Palmares, mas a primeira parte da música conta como a família dele chegou ao Brasil: sua avó, princesa Aqualtune, foi capturada no Congo e vendida em um leilão no Brasil como escrava

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