Especial Resenhas Rock

Soundgarden – Superunknown (1994) faz 20 anos

Superunknown-Cover

O melhor álbum do Soundgarden e o mais significativo do grunge chega aos 20 anos passando com louvor no teste do tempo

Por Lucas Scaliza

O que é?

Superunknown é o quarto disco do Soundgarden, banda que foi definitiva para sedimentar o grunge como estilo musical de Seattle e que se expandiu para o resto dos EUA e do mundo.

Histórias e curiosidades

Desde o princípio, o Soundgarden queria que o seu próximo disco fosse algo mais. Não só para a carreira da banda, mas para toda a cena rock’n’roll em que atuavam, em especial o cenário grunge de Seattle. Chris Cornell, guitarrista e vocalista, e Ben Shepherd, baixista, começaram a escrever algumas músicas no verão de 1993. Como assinala esta matéria da época, Cornell era um apaixonado por Beatles e Pink Floyd, enquanto Shepherd gostava de afinações diferentes e de brincar com a dinâmica. Chamaram Michael Beinhorn – que já tinha trabalhado com o Red Hot Chili Peppers – para ajudar na produção do quarto disco da banda.

Foram seis meses de gravação até a finalização. Houve muitas brigas e muito cansaço com as diversas sessões que o produtor exigia. Contudo, o resultado foi Superunknown, marco na carreira do Soundgarden e um disco que levaria o grunge a outros patamares de reconhecimento técnico e estético. Eles sabiam o que estavam criando, queriam ir mais longe.

“A banda foi formada em 1984, então vejo o Superunknown como uma espécie de período tardio, o momento em que estávamos meio que reinventando quem nós éramos e indo mais longe, ampliando nossa abordagem criativa dentro de um disco”, disse Cornell este ano, recordando os 20 anos do disco.

Soundgarden_01

Embora o Soundgarden tenha sido a precursora do grunge, tenha tido sucesso com seus três primeiros discos (foram headliners do Lollapalooza Chicago em 1991) e tenha sido a primeira banda da cena de Seattle a assinar com uma grande gravadora – o que conferiu a eles o título de “heróis” do movimento –, ainda não haviam explodido verdadeiramente para todos os lados. Mas todo mundo que estava envolvido com a banda entre 1993 e 94 sabia que o próximo disco deles deveria colocar a banda no panteão das grandes bandas americanas, como o Ten fez logo de cara com o Pearl Jam e como o Nevermind fez pelo Nirvana, ambos em 1991.

Os membros da banda e a equipe de produção atribuem grande responsabilidade sobre a qualidade das composições de Superunknown a Cornell e Shepherd. Nos álbuns anteriores, quem mais escrevia era o guitarrista Kim Thayil e o antigo baixista, Hiro Yamamoto. Cornell teve muito mais espaço naquele momento e estava no auge de sua capacidade vocal e criatividade, como anota Adam Kasper, assistente de engenharia do álbum. “Quando entrei para a banda, comecei a fazer afinações estranhas. Todo mundo começou a se adaptar a isso e fazer suas próprias músicas com afinações estranhas”, lembra Shepherd.

Quando iam gravar as 16 canções de Superunknown, elas estavam completas. Não era necessário fazer uma jam session para estrutura-las. Chris Cornell tinha gravado algumas músicas de sua autoria só com voz e guitarra, para que o resto da banda avaliasse. “Havia material que nós não respondemos com muito entusiasmo, como ‘Let me down’ e ‘Black hole sun’”, diz Thayil. Por fim, “Let me down” abre o álbum de maneira primorosa e “Black hole sun” é o maior sucesso do Soundgarden até hoje, 20 anos depois.

O músico Álvaro Mesquita, que já deu uma mão aos Escuta Essa! Com a análise do Vitalogy (1994) do Pearl Jam, diz que Superunknown é depressivo como o Soundgarden sempre foi, mas que também é uma “porrada na cara” e abre espaço para experimentação. “O tempo das músicas é completamente louco. O baterista que gravou o álbum é o Matt Cameron, que depois se tornaria batera do Pearl Jam. E o Chris Cornell cantando é mitológico!”, Álvaro enumera.

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A primeira música a ser gravada foi “Kickstand”. Antes, precisaram de quase uma semana para encontrar o som ideal para a bateria de Matt Cameron. Jeff Ament, o baixista do Pearl Jam, gosta muito dessa faixa porque ela fala sobre a bicicleta de Cornell – e a juventude de Ament está ligada a de Cornell e às bicicletas em que eles andavam por Seattle. E no meio disso tudo está Andy Wood, o vocalista da Love Mother Bone, cuja morte afetou toda a cena roqueira de Seattle e, de certo modo, levou a criação do Pearl Jam e, logo depois, do Temple of the Dog, um tributo a Woody reunindo membros do Pearl Jam e do Soundgarden.

“Passei a conhecer o Chris melhor depois que o Andy morreu. A gente saía junto umas duas vezes por semana. Íamos de bicicleta, geralmente de noite, para um dos grandes parques de Seattle. Acabávamos em uma fogueira na praia e com uma garrafa de bebida. Acho que a gente tentava entender por que o Andy estava morto”, revela Jeff Ament.

Spoonman” é o nome de um músico amigo da banda, conhecido como Artis the Spoonman. Ele inclusive toca nessa faixa. Quando o Soundgarden ganhou o Grammy 1995 de melhor performance de metal por esta faixa, Artis não recebeu um troféu e os membros do grupo se esqueceram de agradecê-lo no palco.

Chris Cornell fez a letra de “Black hole sun”, maior sucesso comercial do grupo, enquanto dirigia de madrugada. Durante o trajeto, ele formou toda a letra em sua cabeça. Quando ouviu uma demo da música pela primeira vez, o baixista Ben Shepherd pensou: “Isso é o tipo de coisa que alguém como eu espera anos e anos para ver caindo no colo”. Cornell diz que quando canta “Black hole sun” vê elementos de Beatles, Led Zeppelin e de Syd Barrett (dos primeiros anos de Pink Floyd) na canção. Kim Thayil admite que teve dificuldade para tirar o arpejo inicial da música. “Não era o meu estilo”, ele diz. Para Thayil, aquilo era como uma sequência de notas para um piano, mas que ele deveria fazer na guitarra.

Com 16 faixas e 73 minutos de música, Superunknown é bem longo para os padrões da época (e muito mais para os de hoje). Cornell explica que isso se deve ao fato de o Soundgarden não ter se aborrecido em 1994 com o que iriam cortar ou manter no disco, afinal os membros da banda tinham opiniões diferentes. Então colocaram tudo o que tinham até o limite máximo do CD. Só depois foram pensar em quais faixas poderiam render singles.

Durantes as gravações, a banda recebeu alguns amigos. A galera do Pearl Jam estava sempre por lá. Billy Corgan, líder dos Smashing Pumpikins, também. Johnny Cash apareceu, os caras do Nirvana também. Josh Homme, do Queens of the Stone Age, passou por lá e quis jogar ping-pong com Adam Kasper e Thayil logo depois de ambos terem se empanturrado de comida indiana. Havia um PlayStation no estúdio e Cornell gostava de jogar Doom.

Músicas e destaques

“Superunknown”: uma faixa incrível: refrão que te pega pelo estômago, riff matador e um solo com efeitos wah-wah que o fazem parecer uma parece de vidro sendo distorcida.

“Black hole sun”: é a canção que mostra, de uma vez por todas, como o Soundgarden e o Superunknown conseguiram romper a barreira do grunge e expandir as fronteiras musicais tecnicamente e estilisticamente. Há pelo menos 3 variações de compasso nesta faixa.

“Limo wreck”: uma das interpretações vocais mais impressionantes de Chris Cornell. E a música é carregada de sentimentos pesados e arrastados.

“The day I tried to live”: uma das faixas que permanece na cabeça por muito tempo. Bons riffs, boas mudanças rítmicas e de dinâmica, baixo marcante e um vocal agressivo que envolve o ouvinte.

“4th of July”: tão arrastada quanto “Mailman”. Ben Shepherd diz que aprendeu a tocar essa música chapado. Tinha fumado maconha naquele dia após um bom tempo longe da droga. “Foi estranho”, ele conta. “Voltei ao estúdio para gravar o baixo no dia seguinte e foi, tipo, ‘Meu Deus! Como foi que afinei isso aqui? O que está acontecendo?’”

“Like suicide”: uma das faixas mais épicas de Superunknown e que também expandem as fronteiras estilísticas da banda. Kim Thayil faz um trabalho primoroso aqui de melodia e solo.

“She likes surprises”: o Soundgarden tentando entrar numa onda estranha, mas mais psicodélica.

Passa no teste do tempo?

Com louvor. O compositor, guitarrista e professor de música Álvaro Mesquita diz que já indicou Superunknown para um número enorme de pessoas e todas voltaram perguntando onde é que o disco tinha se escondido que não o conheciam ainda. Talvez isso tenha a ver com a longa pausa do Soundgarden entre 1997 e o lançamento do disco Animal Kingdom, em 2012.

Para Álvaro, Superunknown é um passo à frente tecnicamente e estilisticamente para toda a banda, trazendo novos elementos ao grunge. “Todos na banda, em termos de composição, execução e criatividade, estavam tinindo”, diz ele. “Para mim, é um álbum extremamente atual e importante para quem gosta de rock e de música em geral. É o melhor disco do Soundgarden e, se for ver, musicalmente é o melhor do grunge de 1990 a 1996.”

Álvaro rejeita a interpretação generalista de que o grunge não era um estilo de rock’n’roll que não levava em conta a técnica. Para o músico, essa interpretação só valeria para o caso do Nirvana, e mesmo assim ele lembra que Dave Grohl (líder do Foo Fighters) era um excelente baterista. “No restante das bandas grunge, a técnica sempre importou, basta observar o nível das composições do primeiro disco do Pearl Jam. O Alice in Chains tem um dos guitarristas de rock mais respeitados até hoje. E o Soundgarden sempre teve excelentes músicos, do contrário Superunknown e suas quebradeiras rítmicas nem existiriam”, conta Álvaro. “Hoje se faz muita música que é muito mais simples do que naqueles dias de Superunknown”.

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16 comentários em “Soundgarden – Superunknown (1994) faz 20 anos

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