2014 Diversos Resenhas Trilha Sonora

Guardiões da Galáxia – a trilha sonora (2014)

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A incrível Mix Tape de Peter Quill tem funk, soul, rock e pop dos anos 70 para todo mundo dançar junto

Por Lucas Scaliza

Um traço marcante do filme Guardiões da Galáxia é, sem dúvida, sua trilha sonora. Além dos elementos óbvios da produção – uma superequipe, muitas explosões e aventuras, viagens espaciais, o selo Marvel, etc – a escolha de músicas tem sido comentada desde que o filme saiu.

O terráqueo Peter Quill, interpretado por Chris Pratt, encara suas aventuras com uma “awesome mix tape” – que é mesmo incrível. Recupera soul, funk e rock dos anos 70 dos Estados Unidos (e da Suécia, vejam só) e ajuda a compor não apenas o personagem principal do filme, mas dar um ar retrô que contrasta com todo o avanço tecnológico que vemos na tela. Mais do que naves, armas e gadgets superavançados, o filme Guardiões da Galáxia foi produzido e filmado com o que havia de mais moderno a disposição de seus realizadores, incluindo câmeras 3D. No meio de tudo isso, é um frescor para os ouvidos e para a nostalgia tão própria dos telespectadores humanos ouvir aquela guitarra distorcida de “Go all the way”, do Raspberries, se tornar um pop balançante e suave.

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A música é tão importante no filme que a primeira cena é justamente um close da Awesome Mix Tape Vol. 1 (uma fita cassete). Prestes a perder a mãe, um Peter Quill bem jovem ouve “I’m not in love”, do grupo inglês 10cc, que fora muito requisitado até a década de 1980. Lançada em 1975, ela entrou nas paradas na 98ª posição e chegou ao 2º lugar em dois meses. Ela já fez parte da trilha sonora do filme Briget Jones e do jogo GTA: Vice City Sotries. Na época de seu lançamento, a faixa trouxe uma inovação para a música inglesa: os backing vocals, além de serem em coro, possuem uma roupagem fantasmagórica.

Quando “Come and get your love” toca faz Peter dançar enquanto explora uma caverna em busca do orbe, que é o objeto de desejo do filme. Música romântica de letra inocente e ritmo dançante lançado pela banda Redbone em 1974. É o maior sucesso da Redbone e ficou por 18 semanas no Top 40. Logo depois, um voo interplanetário é empalado por “Go all the way”, dos Raspberries, música de pegada rock’n’roll, mas com ritmo e refrão dançantes. Por causa de “Go all the way” a banda conseguiu um disco de ouro em 1972 e vendeu 1,3 milhão de cópias. A música também aparece no filme Quase Famosos e teve um cover gravado em 2012 pelo The Killers para o filme Sombras da Noite, de Tim Burton.

Hooked on a feeling”, que era tocada no trailer do filme, embala a chegada de Peter Quill a prisão, onde os guardiões vão se formar. A música comparece na trilha sonora na versão cover de 1974, da banda pop sueca Blue Swede. Mas a música foi originalmente lançada em 1969 por B. J. Thomas e escrita por Mark James (que compôs várias músicas de sucesso de Elvis Presley). Em sua versão, o Blue Swede incluiu um coro (bem cafona, é verdade) que diz “ooga chaka” repetidas vezes. A versão original de “Hooked on a feeling” tem um solo de cítara elétrica, mas é a versão sueca da música que ficou famosa no mundo todo e tem uma pegada mais soul (a original é um pop muito clean). A mesma versão da música aparece na trilha de Cães de Aluguel, o primeiro filme de Quentin Tarantino.

Durante a fuga da prisão, Peter Quill sai da nave somente para recuperar seu walkmen Sony e sua Awesome Mix Tape Vol. 1. E ele o faz ao som de “Escape (The Piña Colada Song)”, um pop funkeado do americano Rupert Holmes cheio de suingue e um convite para a dança. Lançada em 1979, foi a última canção da década de 1970 a chegar ao número um nas paradas de sucesso dos EUA.

Ao chegarem a uma cabeça gigante à deriva no espaço ouvimos a clássica “Moonage daydream” de David Bowie, saída do excelente disco Ziggy Stardust and the Spiders from Mars (1971). Esse disco narra a visita de um alienígena a Terra. Bem conveniente, não?

Ao tentar convencer Gamora a dançar, Peter fala do filme Footloose e faz uma piada envolvendo o ator Kavin Bacon (astro de Footloose) – mas temo que seja uma piada que só funcione bem com plateias americanas ou cinéfilas. E quando ele coloca os fones de ouvido de seu walkman em Gamora ouvimos a balada “Fooled around and fell in love”, do guitarrista de blues Elvin Bishop. Não é difícil imaginar dois adolescentes dançando, se apaixonando e tendo o coração partido ao som dessa música. Ela é bobinha, mas evoca certa desilusão ao mesmo tempo que faz qualquer corpo se mexer numa pista de dança. Essa música chegou ao 3º lugar no Top 100 da Billboard de 1976. Uma curiosidade: Elvin Bishop achou que o timbre agressivo de sua voz não combinaria com a intenção da canção, então convidou seu backing vocal da época, Mickey Thomas, para gravá-la.

Quem viu o filme ou leu os quadrinhos sabe: Peter Quill é um conquistador. Encara até extraterrestres e isso até vira motivo de piada na película. E a música de Elvin Bishop que toca na cena descrita acima diz exatamente o seguinte logo nos primeiros versos: “Eu devo ter ficado com um milhão de garotas/ Amei todas e deixei todas sozinhas/ Não me importei com o quanto elas choraram, oh não/ Essas lágrimas me deixaram frio feito pedra/ Mas então eu errei e me apaixonei…” São em momentos assim que sabemos como a pesquisa sonora foi feita com cuidado, para significar algo na história, para o personagem e ainda por cima com coerência estética (retrô, década de 70).

A trilha sono de Guardiões da Galáxia tem ainda “Cherry Bomb”, sucesso do grupo de meninas punk The Runaways, de 1976, que é executada quando o grupo enfrenta o vilão do filme, Ronan. Após uma grande explosão, ouvimos “O-o-h Child”, do grupo de soul Five Stairteps, sucesso nas paradas de verão de 1970. O protagonista até recita os versos da música e faz uma coreografia para distrair Ronan. Sim: a música, que é a primeira cena do filme, também foi importante na derrota do vilão.

Mais do que uma aventura espacial, Guardiões da Galáxia é um filme sobre a família. Esse é o ponto de partida do filme – perder a mãe acabou significando também a perda do planeta natal para Peter Quill – e seu ponto de chegada: onde está o pai do Senhor das Estrelas? Que família lhe restou? Sob esses pensamentos, Peter Quill resolve abrir, 26 anos depois, o presente que sua mãe lhe deixou no leito de morte. E lá está a Awesome Mix Tape Mix 2, que já chega tocando a esperançosa “Ain’t no mountain high enough”, o pop açucarado e ritmo contagiante. Essa música foi escrita para a Motown (a gravadora americana de música negra para audiências brancas) em 1966 e gravada com sucesso por Marvin Gaye (que ainda mostraria um soul muito mais desenvolvido na década seguinte) e Tammi Terrell em 1967. “Ain’t no mountain…” voltou a ser um sucesso em 1970 na voz de Diana Ross.

Norman Greenbaum lançou “Spirit in the sky” no fim de 1969. Até o ano seguinte, o single com esse rock’n’roll vendeu mais de 2 milhões de cópias e chegou ao 3º lugar das paradas americanas. Um rock simples de harmonia bluseada, backing vocal gospel e uma guitarra bem presente. “Spirit in the sky” também está na trilha do filme.

Tem até Michael Jackson na “Awesome Mix Tape”. Mas nada de “Billy Jean” ou “Beat It”. É o funk inocente e feliz de “I want you back”, do Jackson 5, quando o pequeno Michael cantava com seus irmãos mais velhos. Embora tenha sido lançada em 1969, a canção foi um sucesso da Motown logo no início de 1970.

A Awesome Mix Tape de Peter Quill, lançada comercialmente como um disco da trilha sonora do filme da Marvel, é excelente para viajar, para ouvir no quarto, no trabalho e em qualquer festa. Compõe uma trilha sonora comparável a de Pulp Fiction, mas com uma grande diferença. Se em seu segundo filme Tarantino incluía músicas labo B na trilha sonora (aquelas que não tinham sido sucessos estrondosos 20 ou 30 anos antes da realização de seu filme), a direção musical de Guardiões da Galáxia foi mais conservadora e apostou numa seleção de 12 canções que já estavam testadas e aprovadas. Só precisavam ser recuperadas.

São todas músicas fáceis, palatáveis, dançantes e prontas para embalar o filme e a sua vida. Mesmo colocando a música negra americana em pauta, tomaram o cuidado para que fosse a música negra mais acessível a audiências brancas e de todas as idades. Sem transgressões. Afinal, Guardiões da Galáxia é um filme para garotos e garotas, meninos e meninas, para assistir comendo pipoca e comprar os bonequinhos logo depois. Bem, a maioria dos filmes da Marvel são assim mesmo, mas Guardiões conseguiu reunir uma trilha sonora excelente mesmo assim.

Há três semanas, a trilha de Guardiões vendeu 60 mil cópias. Na semana seguinte, vendeu 109 mil. É a primeira vez que uma trilha sonora composta apenas de músicas já lançadas chega ao topo das paradas nos EUA. Mesmo assim, a trilha sonora que mais vendeu na história é a do filme Frozen, lançado em 2013 pela Disney, cuja música tema “Let it go” até levou um Oscar este ano. Até julho de 2014, a trilha de Frozen vendeu 600 mil cópias.

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9 comentários em “Guardiões da Galáxia – a trilha sonora (2014)

  1. Nossa ia procurar a TS desse filme hoje, quebrou meu galho.! Parabéns pelo blog.!!!

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  8. Olá Lucas. Parabéns pelo post.
    Me tira uma dúvida? Você mesmo viu o filme e sabia das músicas ou usou alguma fonte? Pode me indicar a fonte, caso tenha utilizado? Obrigado.

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