Especial Indie Resenhas Rock

Nick Cave & The Bad Seeds – Let Love In (1994)

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O disco que marca a transição de Nick Cave para a maturidade completa 20 anos

Por Lucas Scaliza

O que é?

Let Love In é o oitavo disco da carreira solo de Nick Cave, lançado em abril de 1994.

História e curiosidades

Se From Her to Eternity (1984) foi a estreia de Nick Cave e sua banda, The Bad Seeds, com um projeto agressivo de música estranha, tensa e cavernosa, com mais narração do que melodia, uma década depois chega Let Love In, um de seus discos mais elogiados e que está completando 20 anos. É o disco que marca com perfeição a transição de um Nick Cave mais histriônico e agressivo para aquilo que será o Cave pós-The Boatman’s Call, mais melodioso, harmonioso, equilibrado e dotado de um raro dom de criar belíssimas canções a partir de 3 ou 4 acordes simples.

Cave permaneceu viciado em cocaína por oito anos. Antes de Let Love In ele tinha gravado o bom Henry’s Dream, que era seu álbum mais comercial até o momento, mas não gostou da produção final das músicas. Sentia que o disco poderia ser uma obra prima, mas não da forma como as músicas acabaram gravadas e lançadas. Mas quando chegou a hora de grava e lançar Let Love In, ele parecia um pouco mais em paz consigo mesmo. Estava casado e feliz com isso; tinha um filho, Henry, que havia homenageado no disco anterior; e tinha finalmente superado o vício em cocaína.

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Na época do lançamento do álbum, a revista American Musical Express perguntou se seu afastamento das drogas tinha algo a ver com o tom positivo que o disco trazia. “Bom, não sei dizer”, ele respondeu. “Quando eu usava um monte de drogas eu não revisava o que fazia, eu só botava pressão, usava drogas e escrevia. Não sei, não me lembro! Bem, as drogas fazem isso com a gente”.

Na época, Cave já tinha contribuído com o roteiro do filme Ghost of the Civil Dead e havia até atuado na produção, interpretando um prisioneiro. Também havia lançado seu primeiro livro, E o Asno viu o Anjo (mais tarde, ele contribuiria com mais roteiros cinematográficos, mais atuações e mais trilhas sonoras ao lado do parceiro australiano Warren Ellis – agora membro da The Bad Seeds também. Sem falar que lançaria um romance). Mas nessa época a música era sua principal forma de expressão artística. “Eu amo fazer discos. Amo escrever músicas e adoro o fato de estar ficando melhor nisso. Posso ver que isso vai me levar para algum lugar, mas não quero parar até saber onde”, disse Cave em 1994. Nesse momento, Cave já havia vivido em Melbourne, em Londres, em Berlim e em São Paulo. Let Love In era seu 8º disco de estúdio, tinha lançado há pouco tempo o Live Seeds e o documentário The Road To God Knows Where, que mostrava o grupo na estrada – e o quanto isso era difícil para uma banda. Tudo isso em apenas 10 anos de carreira solo, desde o lançamento de From Her to Eternity.

Com o lançamento de Let Love In, Nick Cave & The Bad Seeds fizeram parte do casting do Lollapalooza daquele ano nos EUA. Era o momento para que ele, uma força criativa e visceral da música australiana, recebesse em fim o reconhecimento do público americano. Até então, as principais turnês de Cave haviam se restringido ao seu país natal e à Europa. Era, de fato, um álbum e um momento de transição para o compositor: seu estilo sendo cada vez melhor lapidado, sua banda cada vez mais afiada, suas letras e histórias cada vez mais maduras, seu reconhecimento internacional crescendo, sua raiva da juventude dando espaço para reflexões e versos mais adultos – mas ainda com potência.

Como anota Stuart Berman, Let love In prova que as canções de amor de Nick Cave poderiam facilmente ser convertidas em canções de morte (algo que culminaria no excelente disco seguinte, Murder Ballads, de 1996).

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Músicas e destaques

“Do you love me” (partes 1 & 2): Um baixo hipnótico, um riff de piano e uma guitarra que marca os acordes da harmonia criam o ambiente para a narração de Cave e um refrão marcante. A parte 1 da música abre Let Love In já mostrando que banda e cantor estão mais musicais do que nunca. A parte 2 da canção, que fecha o álbum, mantém a mesma linha vocal, mas é mais lenta, arrastada e assombrada. Um arranjo de cordas feita pelo músico Mick Harvey, da The Bad Seeds, transforma a faixa em algo fantasmagórico.

“Loverman”: mais uma história dark de Cave com uma levada bem característica da banda, com ruídos de guitarra e sinos tocando, para desembocar em um refrão rascante e cheio de distorção. A canção foi regravada pelo Metallica no disco Garage, Inc.

“Red Right Hand”: outra historinha de terror que se tornou tema do filme Pânico e uma das músicas mais conhecidas de Nick Cave. Apesar de falar sobre algum tipo de diabo ou assassino, mantém um tom de suspense debochado.

“I Let Love In”: música em ¾ que embala qualquer coração, mesmo que os versos cantados pela voz grave de Cave não seja nenhuma versão bonita do amor. Mesmo assim, ele canta que “deixa o amor entrar”. Exemplo do estilo Cave/Bad Seeds de composição bem estruturada, com poucos acordes, mas com arranjos ricos e de bom gosto.

“Thisty dog”: um rock’n’roll com riff de guitarra, agitado e com distorção. O disco mostra musicalidade e menos raiva, mas Cave não deixa de nos dar algo de sua rebeldia barulhenta característica.

Passa no teste do tempo?

Sim. É um disco que permanece bonito, agressivo na medida certa e contém todas as características que seriam ainda desenvolvidas de outras formas por Cave e sua banda. Diferente de From Her to Eternity, que é bem difícil de se ouvir, Let Love In pode tranquilamente ser uma ótima introdução ainda hoje para quem quer conhecer Nick Cave. E quem conhece o australiano na fase pós-Boatman’s Call deve ouvir este álbum para conhecer o ponto de virada estético e até de reconhecimento da obra de Nick Cave & The Bad Seeds.

Nick Cave and Mick Harvey London 5-17-1981

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1 comentário em “Nick Cave & The Bad Seeds – Let Love In (1994)

  1. Pingback: Nick Cave – Push The Skay Away (2013) | Escuta Essa!

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