2013 Indie Resenhas Rock

Nick Cave & The Bad Seeds – Push The Sky Away (2013)

cover

Nick Cave faz seu melhor disco em 10 anos e leva sua música para outro nível de maturidade

Por Lucas Scaliza

Nick Cave demorou para lançar um disco de inéditas. Se nos dez anos que separam From Her to Eternity (1984) e Let Love In (1994) ele lançou oito discos de estúdio, um ao vivo e um documentário, levou meia década para ir de Dig, Lazarus, Dig!!! (2008) para o estupendo Push The Sky Away (2013). Mas acreditem: ele precisou desse tempo. Seu 15º disco da carreira é mais um passo à frente artisticamente.

Depois de morar em Melbourne, Londres, Berlim e São Paulo, nos últimos anos o compositor se estabeleceu em Brighton, Inglaterra, por sugestão (ou livre e espontânea pressão) de sua atual esposa, Susie Bick – que aparece nua junto de Nick Cave na capa de Push The Sky Away. A foto foi tirada no quarto do casal.

O álbum foi gravado dentro de uma mansão-do-século-19-convertida-em-estúdio chamada La Fabrique, na França. Cave levou as letras escritas em um modesto caderninho. Uma vez no estúdio-casa, ele e os Bed Seeds – mas sem Blixa Bargeld, que saíra da banda há algum tempo e com a inclusão do multi-instrumentista australiano Warren Ellis – a banda conviveu sob o mesmo teto por três semanas. Ninguém saia da casa. Passavam quase o tempo todo gravando. “Foi intenso. Era como a porra de uma rehab ou coisa assim”, Cave desabafa. “Como uma rehab feliz, se é que isso existe”, completa. Mesmo com todos esses poréns, Cave gostou da experiência.

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Em meados da década de 1990, a selvageria deu lugar a ritmos mais calmos, mais delicados e menos ruidosos. Nem por isso deixou de fazer rock ou de soar pesado (afinal, como já sabemos, a maturidade mostra que peso não se faz apenas com distorção de guitarra, baixo e bateria potente). Prova disso é o projeto Grinderman, que Cave fundou ao lado de Warren Ellis, que lançou dois discos de rock cavernoso e visceral. É quase como se Cave voltasse ao início da carreira, mas com a experiência de 30 anos de estrada. E Dig, Lazarus, Dig!!! é um registro de rock’n’roll bastante vigoroso, com guitarras para todos os lados. E antes dele, o duplo Abbatoir Blues/The Lyre of Orpheus (2004) também estava carregado dos dois lados de Nick Cave: emoção, delicadezas e composições mais brutais.

Mas Push The Sky Away é uma guinada, de certa forma. Há todo o peso da experiência – nas letras e na gravidade das músicas – mas o que era delicado sobe a um novo patamar de qualidade no disco, uma vez que Nick Cave & The Bad Seeds se lançam a uma proposta quase minimalista de música. Como contou ao The Guardian ano passado, Cave “fez questão de se afastar da música levada pela guitarra e do estilo de Nick Cave de balada para deixar um pouquinho de ar e um pouquinho de luz entrar”. Mas o jeitão das letras é o mesmo de sempre.

Nick Cave & The Bad Seeds
Nick Cave & The Bad Seeds

“We No Who U R”, que abre o disco, é exemplo máximo desse minimalismo: ouça atentamente a canção: a voz de Cave ressoa delicadamente sobre um looping de piano e uma percussão cheia de nuances e pequenos detalhes sonoros que se repetem ao longo de toda a canção. E a mesma precisão delicada e fantasmagórica aparece na faixa-título “Push the sky away”, um trabalha climático e sensível. Pelo mesmo caminho vão outras faixas como “Finishing Junilee Street” e sua percussão bem marcada; a linha de baixo bem marcada e o naipe de cordas que dão o tom em “We real cool”; os versos recitados de “Water’s edge” cuja tensão latente só se resolve no refrão.

“Wide lovely eyes” também obedece a esse padrão minimalista. A faixa é cantada por Cave e tocada pelos seus músicos com cuidado e paciência, como se qualquer nota tocada ou cantada com muita força pudesse partir sua frágil harmonia e manchar sua singela beleza. Já “Mermaids” permite uma liberdade maior aos músicos, mas ainda assim sem exageros. E Cave não economiza em seu poder lírico, cantando: “Eu acredito em Deus/ Acredito em sereias também/ Acredito em 72 virgens em uma corrente (por quê não?, por quê não?) e “Ela era um bom partido/ Nós éramos um jogo/ Eu era o fogo que incendiava a sua xana”.

Neste álbum, quase tudo é uma peça única e com abordagem diferente de tudo que Nick Cave tenha gravado até então. As faixas funcionam muito bem juntas e o próprio Cave disse que ao vivo era preciso manter uma certa rigidez na execução dessas músicas. São canções delicadas, cheias de nuances e de detalhes que fazem parte de um cenário maior. Não são o tipo de música que possa ser desenvolvido ou executado com maior dinâmica e força em cima do palco.

Foge a esse esquema “Jubilee Street”, um novo clássico da banda, que se permite ganhar força e virar um rock’n’roll com um crescendo épico. A música é inteirinha em loop – os mesmos acordes de novo e de novo… – mas cada vez mais forte e com mais instrumentos e um insistente zunido de guitarra. Uma balada de redenção com uma beleza que vai se revelando aos poucos.

“Higgs Boson Blues” é a melhor composição do disco. Com mais de sete minutos, abre com um violão tocando o acorde si menor. Toda a progressão de acordes que se segue cria tensão e dá forma a esse blues existencialista e soturno. Assim como “Jubilee Street”, a dinâmica tem papel fundamental aqui na forma como carrega os ânimos do ouvinte. O canto narrado de Cave é um primor de interpretação e um ponto alto de sua carreira. A letra é a divagação de um homem ao volante balbuciando algo sobre o bóson de Higgs, as flores desabrochando, Lúcifer com seu direito canônico, o bluesista Robert Johnson, árvores em chamas e a Miley Cyrus flutuando em uma piscina em Toluca Lake. É uma pequena obra prima dentro de um disco que exige de seu ouvinte o mesmo comprometimento que seus músicos tiveram para se reinventarem.

As letras de Push The Sky Away evocam cenas de maior intimidade e introspecção de. Cave não abandona seu estilo narrativo característico, mas deixa um pouco de lado as histórias bem amarradas que sempre escreveu e apresenta linhas mais soltas, existencialistas e que permitem ao ouvinte tentar completar boa parte do que está havendo e decifrar sensações e emoções. E o próprio Cave afirmou que são letras que se aproveitam da internet, googleando curiosidades, pesquisando assuntos aleatórios na Wikipedia, absurdos das celebridades, fatos importantes, modismo. Nesse contexto, o que é realmente importante? (Voila, agora você entende de onde saiu a letra de “Higgs Boson Blues”).

Este álbum leva Nick Cave & The Bad Seeds para um novo grau de maturidade musical, flertando com o minimalismo e o abstracionismo, propondo um tipo de música diferente. Foi um movimento comparável ao que os suecos do Opeth apresentaram este ano no excelente Pale Communion, abandonando de vez o death metal em favor de um rock progressivo sem afetação. Nem sempre o público abraça logo de cara essas incursões, mas são elas que levam qualquer tipo de artista à frente.

Push The Sky Away é o melhor disco dos últimos 10 anos de Nick Cave (incluindo aí o The Bad Seeds, o Grinderman e as trilhas sonoras cinematográficas). Não é seu disco mais emocionante ou acessível, mas recompensa o ouvinte dedicado. Seus detalhes deixam marcas indeléveis em quem procura seus sons únicos.

Nick Cave durante apresentação no festival Primavera Sound em 2013
Nick Cave durante apresentação no festival Primavera Sound em 2013

15 comentários em “Nick Cave & The Bad Seeds – Push The Sky Away (2013)

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