2013 Metal Resenhas Rock

Steven Wilson – The Raven That Refused to Sing (2013)

Cover

Um clássico moderno do rock progressivo

Por Lucas Scaliza

Um ataque preciso e extremamente bem calibrado de baixo e bateria, nada mais, é o que ouvimos logo na introdução de “Luminol”, a música que abre The Raven That Refused to Sing, de Steven Wilson. O ataque é vigoroso e mostra como será tecnicamente perfeccionista o trabalho da banda de SW em seu terceiro disco solo. Precisão rítmica, semitons, alternância constante de dinâmicas, uso de combinações de efeitos para criar uma paisagem sonora condizente com as composições e que, ao mesmo tempo, façam teclado, guitarra e sintetizadores soarem únicos, e não como algum efeito já ouvido antes. Não é a toa que este disco foi aclamado ao longo de 2013 e culminou com um show especial no tradicional Royal Albert Hall, em Londres. Dentro do rock e do metal progressivo, The Raven That Refused to Sing tornou-se rapidamente um clássico moderno.

Após a vigorosa abertura de “Luminol”, a banda de SW vai se somando aos poucos. Primeiro o teclado, cheio de efeitos. Depois, a guitarra, com um toque de jazz. Logo em seguida, o clarinete. Daí então a voz, à capela. E voltamos ao som. Com uma letra curta, “Luminol” é quase uma faixa instrumental de 12 minutos e deliciosa de se ouvir. O baixo de Nick Beggs nunca esteve tão evidente e desempenhando um papel tão protagonista. Adam Holzman coloca o todo o seu feeling e conhecimento a favor de uma atmosfera etérea e que atinge seu ápice em um crescendo épico antes de iniciar a terceira e derradeira parte da canção.

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Embora seja uma música de rock progressivo com todos os elementos da música progressiva (passagens instrumentais, alternância rítmica e dinâmica, sons trabalhados, longa duração, flertes jazzístico), “Luminol” não é um rock orientado pela guitarra. Guthrie Govan – um exímio músico, porém mais conhecido na área da fusion jazz do que no rock –, participe bem em momentos da chaves da composição, mas não o ouvimos a todo instante. Até mesmo o riff principal é dividido pelo saxofone de Theo Travis (mais um músico do fusion jazz e que já realizou trabalhos experimentais com Robert Fripp, do King Crimson – que não por acaso é uma referência [e amigo] pessoal de SW). Só mesmo uma composição muito bem feita e executada por uma banda madura para chegar a esse resultado dentro de qualquer estilo de rock.

“Drive Home” é aquela balada que não deixa de ser uma composição bem elaborada, mas consegue soar simples e menos densa aos sentidos de qualquer ouvinte. Traz uma estrutura mais tradicional, dedilhados, refrão melodioso (embora melancólico), e Steven Wilson cantando suavemente. Mas se sentiu falta da guitarra em “Luminol”, aqui Govan faz dois solos cheios de feeling. No primeiro, impressiona a quantidade de sustain do instrumento (o tempo que uma mesma nota fica soando, sem perder volume). No segundo, Govan mostra que conhece como ninguém o braço de uma guitarra e faz fraseados bonitos sem apelar para licks fáceis.

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The Raven That Refused to Sing é uma coleção de seis músicas sobre histórias de fantasmas. Embora seja um álbum temático, não é conceitual no sentido de todas as músicas se unirem de alguma forma para contar uma mesma história. Cada faixa é como um conto diferente. Para os versados em literatura fantástica, é possível ver que SW cria música para temas e climas que encontramos rotineiramente nos escritos de H. P. Lovecraft, Jorge Luis Borges, Bioy Casares, entre outros. São histórias de humanos confrontados com o sobrenatural.

Uma das mais sombrias faixas do disco é “The Holy Drinker”. O tremolo do teclado inicial já nos coloca em estado de alerta. O riff do baixo, o solo de guitarra e de clarinete que se seguem só aumentam a nossa suspeita de estar no meio de uma invocação sobrenatural meio rock, meio jazz. “The Holy Drinker” é inteira assombrada. Após um momento em que SW sussurra, nos dando a impressão de que sua voz vem do além, a guitarra de Govan surge carregada de distorção escolhendo intervalos bastante perturbadores.

– Aliás, a mistura de músicos versáteis com pegada jazzística e pegada roqueira foi uma decisão consciente de Steven Wilson para poder levar sua música a um novo patamar estético, rompendo fronteiras musicais que não teria como romper em um de seus projetos, como o Porcupine Tree e o Blackfield, por exemplo. –

“The Pin Drop” mostra SW cantando em um tom bem alto, deixando sua voz bem aguda, algo que não ouvimos antes em sua carreira solo ou mesmo na extensa discografia do Porcupine Tree. Apesar de soar doce, há algo de vacilante em sua voz que nos remete a uma estranheza. No poderoso refrão, a guitarra de SW executa acordas semitonais, criando tensão.

Com quase 12 minutos, “The Watchmaker” é uma composição que se mostrou muito cara a SW. Ao vivo, ela é executada com a banda por trás de um véu preto, sobre o qual é projetado uma animação feita especialmente para a canção. Trocas de tom, trocas rítmicas e dinâmicas marcam a faixa, que vai lentamente progredindo de um dedilhado de violão para um mais um riff metaleiro ao seu final que nos coloca dentro de um ritual de invocação de uma entidade carregada de ódio e lamento (riff, aliás, muito interessante que possui até três trocas de compasso, dependendo de como você encarar sua “contagem” rítmica). Uma dessas composições que atestam a versatilidade de uma banda e de seu criador.

“The Raven That Refused to Sing”, que fecha o dá nome ao disco, é uma balada melancólica e fantasmagórica. Simples na técnica, ela tem uma execução sem excessos e uma produção primorosa. SW gostou muito dessa sua composição que a colocou para fechar os shows da turnê em clima épico e emocional (diferente do caos total em que terminavam os shows do álbum de Grace For Drowning, com a ruidosa “Get all you desserve”).

Quando Steven Wilson ele gravou Grace For Drowning (2011) não sabia quem o acompanharia em turnê, por isso convidou diferentes músicos para as sessões do disco. Após a exitosa turnê mundial deste álbum, SW voltou para o East West Studios, em Los Angeles, sabendo exatamente que banda teria em estúdio e em turnê. Essa confiança no próprio taco e nas opções que seu time lhe dava permitiu que desenvolvesse músicas em que todos brilhassem ao mesmo tempo.

É rock, mas a guitarra não soa o tempo todo em nossos ouvidos. Tem jazz, mas o sax, o clarinete e a flauta são muito bem usados tanto para solos (como em “The Pin Drop”), como para criar camadas sonoras e enriquecer versos, refrãos e riffs (como em “Luminol”). O baixo e o stick de Nick Beggs soa ainda mais potente e livre do que antes (como em “The Holy Drinker”). Adam Holzman, ex-pianista de Miles Davies, tem classe, tem feeling, tem técnica e sabe ser jazz quando é preciso e ser um criador de atmosferas de mão cheia (como na faixa título). E o baterista Marco Minnemann é excelente em todos os sentidos, criando viradas e passagens de encher os ouvidos. Longe de ser um baterista feijão-com-arroz, ele varia suas cadências quando é possível e sabe mandar tudo ao inferno quando a porção mais noiser de SW emana (como na parte final de “The Watchmaker”).

Steven Wilson tem sido visto como a cara da renovação do rock progressivo europeu. Além de reconhecido compositor, cantor e multi-instrumentista, com um ouvido para o que é acessível e para o que é experimental e mais desafiador para o ouvinte, tem se destacado como produtor. Foi ele quem ajudou Mikael Akerfeldt, do Opeth, a dar a cara ao disco clássico da banda, Blackwater Park, que foi um divisor de água para os suecos. Além disso, SW tem remixado em 5.1 álbuns de diversas bandas de rock progressivo das décadas de 1960 e 1970, o que lhe confere ainda mais credibilidade na indústria e no meio progressivo. Não é a toa que quando foi gravar The Raven…, conseguiu fazer com que o produtor Alan Parsons voltasse a fazer a engenharia de som de seu disco. Parson foi o engenheiro de som da obra-prima The Dark Side of the Moon (1973), do Pink Floyd, e só aceitou voltar à sua antiga função porque era um disco de Steven Wilson.

SW queria um som consistente como aquele conseguido por Parsons com o Floyd. Com tecnologia atualizada e qualidade técnica de sobra, o que ele fez foi criar um disco denso, musicalmente plural e que não se esgota rapidamente. É preciso ouvi-lo diversas vezes para absorver seus detalhes e suas nuances.

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12 comentários em “Steven Wilson – The Raven That Refused to Sing (2013)

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