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Karen O – Crush Songs (2014)

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Um rascunho de trilha sonora para relações efêmeras, passageiras e marcantes

Por Lucas Scaliza

Você assistiu a Her (Ela), o último filme do Spike Jonze? Viu até o fim? Ouviu uma baladinha cantada por uma mulher e um homem, com um violão e um som que parece saído de dentro de uma piscina ou aquário? Pois a música é “The moon song”, da Karen O, a espera e talentosa vocalista do Yeah Yeah Yeahs e colaboradora de trilhas sonoras (como a inesquecível trilha de Onde Vivem os Monstros, também dirigido por Jonze). O caso é que “The moon song” é uma epítome do que ouvimos em Crush Songs, o aguardado primeiro álbum solo de Karen O, que pode ser ouvido na íntegra aqui.

Para resumir: Crush Songs tem menos de 20 minutos e 10 faixas. Todas são curtinhas, delicadinhas, muitas são estranhinhas e todas são subaquáticas, como se tudo tivesse sido gravado em um aquário-estúdio. Sendo assim, o clipe de “Rapt” cai como uma luva a impressão sinestésica que temos do álbum.

Karen usa um violão bem seco, um teclado bem discreto, alguns ruídos de ambiência e reverb em quase tudo, até em sua voz tão estridente quanto doce. E tudo é bem melancólico, como um dia de outono na beira do mar. É essa tristeza, esse violão solitário, essa ambiência e o reverb que dão o tom afogado ao disco.

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“Visits” usa uma percussão eletrônica e até soa mais como um dia bom de praia, mas a produção fuleira faz com que não fuja do clima geral do disco. “Beast”, uma das melhores do disco, é uma mostra de como Karen O usa bem sua voz e deixa o erro fazer parte de sua estética. Não é preciso ser músico para flagrar as notas imprecisas ou que acabaram não soando bem no dedilhado do violão. Essa característica não profissional e até meio caseira torna-se um traço estilístico marcante em Crush Songs. Só para continuar no campo cinematográfico de comparações, é como se um diretor como Jason Reitman (que dirigiu Juno e Amor Sem Escalas) resolvesse fazer um filme de baixíssimo orçamento e com a estética de found footage.

“NYC Baby” mal começa e já termina depois de alguns segundos. E é uma ótima musiquinha. Com “Comes the night” ocorre o mesmo. Até “Rapt” não chega aos dois minutos. Há uma economia de tempo e de recursos impressionante. Questiono se isso tem a ver, de algum modo, com a efemeridade dos relacionamentos atuais, tão toscos em sua superficialidade e ainda assim capazes de ser tão avassaladores e profundos que, por menor que seja a duração, deixam marcas nos casais casuais e momentâneos que se distanciam, se perdem e esmorecem como a voz de Karen no final de “Far”. Daí a melancolia, a solidão, o sentimento de vazio, o afogamento (afinal, afoga-se uma paixão com outra paixão, daí afoga-se novamente para em outra para esquecer a anterior e assim segue indefinidamente desde que o romantismo surgiu).

São esboços de relacionamentos, esboços do que poderiam ser um dia, esboços de escolhas não feitas. E são como esboços também as músicas de Crush Songs. Assim como ela esboçou o que seria um release do álbum por meio de um cartãozinho manuscrito que diz: “Quando eu tinha 27, me apaixonei pra caramba. Não tinha certeza se algum dia iria me apaixonar de novo. Essas músicas foram escritas & gravadas de uma forma bem pessoal naquela época. Elas são a trilha sonora do que foi uma contínua CRUZADA DO AMOR. Espero que façam companhia à sua também.”

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Sentimental, Karen O expressa como “love is a fucking bitch” de forma crua, distante da produção triste e glamorizada de Lana Del Rey e seu Ultraviolence, sem a precisão técnica vocal de Lykke Li em I Never Learn, muito mais econômica que o Ghost Stories do Coldplay, colocando sua inventividade estética em uma subtração ainda mais acentuada do que faz  Damon Albarn em Everyday Robots.

Karen O faz um disco para fãs de música alternativa tão íntimo quanto o Are We There da Sharon Von Etten. Não espere nada de Crush Songs no rádio ou na balada. Mas talvez os 19 minutos de música possam embalar sua lembrança dos 15 que passou com alguém na noite passada e que não vão mais voltar.

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5 comentários em “Karen O – Crush Songs (2014)

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