2013 Indie Resenhas Rock

Queens of the Stone Age – …Like Clockwork (2013)

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…Like Clockwork é mais uma coleção de sintomas do mal estar da sociedade com bons versos e riffs matadores

Por Lucas Scaliza

O interesse sobre …Like Clockwork, lançado em 2013, não veio do nada. O Queens of the Stone Age, que já era uma banda reconhecida pela criatividade, pelas músicas estranhas e pela força rock’n’roll de seu som não lançava nada desde Era Vulgaris (2007). E quando o novo disco viu a luz do dia, veio na forma de uma avalanche sonora: 10 músicas excelentes, alternando peso (“Keep your eyes peeled”), melodia (“I sat by the ocean”) e estranha visceralidade (“I appear missing”) e estranha harmonia (“The vampyre of time and memory”).

O cantor, guitarrista e compositor do grupo, Josh Homme, ficou de cama por 4 meses após uma cirurgia no joelho em que quase morreu após complicações. Quando pôde enfim levantar e voltar a vida que levava, saiu com sua banda tocando o primeiro disco do grupo, autointitulado Queens of the Stone Age (1998). Homme achou que seria um exercício para recuperar sua criatividade e a vontade de voltar a gravar algo novo com sua banda, mas não foi bem o que ocorreu. Ele continuou sem encher a luz no fim do túnel, perdido em sua escuridão. E foi justamente nessa situação que encontrou a inspiração para fazer …Like Clockwork.

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Embora seja muito mais fluído e menos cheio de arestas do que Era Vulgaris – que realmente parecia uma obra de rock futurista –, …Like Clockwork não é exatamente menos denso. As letras continuam sendo pesadas e retratando figuras e situações taciturnas. Uma mostra disso são os violentos clipes animados lançados para o álbum que constituem um curta-metragem quando assistidos na ordem correta. O tom geral do álbum não evoca, nem em faixas mais acessíveis ou calmas, um rock’n’roll divertido ou despojado. Josh Homme e sua gangue prezam mesmo por uma seriedade maior, uma gravidade mais opressora. E isso se manifesta nos riffs de Homme do guitarrista Troy Van Leeuwen. Em “Keep your eyes peeled”, além do jeitão arrastado da faixa, temos guitarras afinadas dois tons abaixo do padrão, o que confere um timbre extragrave à composição. A própria faixa título “…Like Clockwork”, que fecha o disco, é uma vastidão de desolação.

“I appear missing” é uma das melhores e mais violentas canções do álbum. Rompe com a estrutura linear e se permite criar tensão do começo ao fim, deixando o ouvinte em um estado de alerta constante. “The vampyre of time and memory” é outra das faixas para se prestar atenção. Sem pressa, segue uma progressão de acordes bem feita e cultiva um clima de inescapável solidão (um tema que se repete ao longo de todo o álbum) em meio a tempos rápidos, consumistas e superficiais.

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As letras do álbum – nenhuma animadinha, no máximo fazendo piadas amargas – são algo para se prestar atenção também. Josh Homme criou imagens pouco usuais e bastante poéticas em diversas ocasiões. “Folhas caídas percebem que não são amigas do outono / A visão do Inferno é um céu azul / De um azul tão ameaçador / Que devaneio até o azul acabar, em “Keep your eyes peeled”. Em “I sat by the ocean” um casal com problemas é comparado, afinal, com “navios que colidem na noite”; sem falar que Homme canta “O tempo fere todas as curas conforme a gente se afasta”, uma clara inversão do clichê de que “O tempo cura todas as feridas”.

E se o tema do álbum são pessoas e uma sociedade que caminha para um vazio ou para algum tipo de bancarrota, é na derradeira faixa “…Like Clockwork” que tudo fica evidentemente claro – e obscuro, veja só – com os versos “Uma coisa está clara / Daqui, é tudo colina abaixo.

Durante as gravações do disco, Homme despediu o baterista Joey Castillo, que já tinha gravado quatro músicas do disco. Para o lugar dele foi convocado Dave Grohl, vocalista e líder do Foo Fighters, que gravou mais cinco canções (faixas 4, 5, 7, 8 e 9). Jon Theodore, o novo baterista do QOTSA, chegou a tempo de tocar na faixa final que dá nome ao álbum.

Além de Grohl, que já tinha gravado as baterias para o QOTSA no álbum Songs for the Deaf (2002), há muitas outras participações especiais: Alex Turner, do Arctic Monkeys, Mark Lanegan e Nick Olivieri – que já foram parte do QOTSA – fazem backing vocals em “If I had a tail”. A participação deles está bastante diluída na mixagem final da música e pode passar despercebida facilmente. Trent Reznor, chefão do Nine Inch Nails e outro amigo de Homme, ajuda nos vocais de “Kalopsia”; Jake Shears, do Scissor Sisters, canta na faixa que abre o álbum; e Elton John faz backing vocals e toca piano em “Fairweather friends”.

Levou seis anos para compor e gravar o sexto disco de inéditas. O resultado é excelente e ajuda a dar peso ao rock’n’roll americano enquanto música relevante. Embora já não faça parte do mainstream como antigamente – é só ver a galeria de indicados do VMA dos últimos anos, por exemplo, para saber que o rock não goza de grande prestígio entre a juventude –, o rock não precisa ser salvo e nunca esteve morto, só precisa de um empurrão de vez em quando para se manter como uma das forças criativas e inspiradoras de toda a música ainda sendo capaz de refletir nosso mundo, e não apenas a cultura de celebridade, romances rasos e a diversão mais rasteira.

E o Queens of the Stone Age fez isso pelo rock ao longo de sua existência e …Like Clockwork, assim como Era Vulgaris, Rated R (2000) e Lullabies to Paralyze (2005) é mais uma coleção de sintomas do mal estar da sociedade com bons versos e riffs matadores. E um dos melhores álbuns lançados em 2013.

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