Especial Resenhas Rock

Pink Floyd – The Division Bell (1994)

Art

Último disco do Pink Floyd (até agora) completa 20 anos

Por Lucas Scaliza

O que é?

The Division Bell é, até agora, o último disco de músicas inéditas lançado pelo Pink Floyd em julho de 1994. Este ano, em comemoração aos 20 anos de seu lançamento, o álbum foi relançado em um vinil duplo.

Histórias e curiosidades

O Pink Floyd já não era a mesma banda desde The Wall (1979). Nick Mason, Richard Wright, David Gilmour e Roger Waters – juntos desde a saída de Syd Barrett – estavam juntos em um dos discos mais famosos e relevantes já criados pela humanidade, mas internamente a relação da banda estava em frangalhos. Principalmente a relação de Gilmour e Waters. Durante a década de 80 a banda foi conduzida por Waters até 1985, quando deixou o Floyd alegando diferenças criativas e filosóficas. Dali até hoje, Gilmour encabeçou os projetos (e o hiato) do grupo.

Na última fase da banda, o Floyd era liderado por Gilmour e Waters não participava de mais nada. Assim ocorreu com o The Division Bell, um álbum com Wright nos teclados e piano, Mason na bateria e Gilmour em todo o resto: guitarra, violão, vocais, baixo, produção e mixagem. Todas as músicas foram escritas por Gilmour e Wright. A quase totalidade das letras são de Gilmour e sua esposa, a jornalista e escritora Polly Samson. Não é a toa que chamam o disco de “um trabalho solo do Gilmour”.

PinkFloyd-

Quando o disco foi lançado, o Pink Floyd não fez muita questão de ir atrás da imprensa. Os ingressos para os shows da turnê de 1994 evaporaram (só o arco que encobria o palco foi construído com 700 toneladas de aço). E David Gilmour estava muito confortável com a situação. “Não dá pra dizer o quanto estou feliz com os acidentes e escolhas que me trouxeram até aqui, em que posso cantar o que eu quiser, ser muito bem pago por isso e ainda poder levar a vida como um ser humano normal”, disse Gilmour para a revista Guitar World na época. Ele sempre foi um cara reservado e continua sendo.

Embora Gilmour afirme ter gostado de gravar este disco, não houve muita conversa entre ele, Wright e Mason. Passaram três semanas apenas fazendo jam sessions e gravavam tudo o que parecia uma ideia promissora. No final, tinham 65 pedacinhos de música. É daí que se desenvolveu todo o disco.

O “sino da divisão” de que fala o nome do álbum era um aparato do parlamento inglês que convoca o debate na Casa dos Comuns. O sino era uma forma de chamar os parlamentares para a interação, a troca de ideias, de informação. É um processo de comunicação, e é sobre isso que discorre todas as letras de The Division Bell, sobretudo a comunicação problemática de Gilmour com as mulheres que estiveram em sua vida e com o ex-baixista do Floyd, sir Roger Waters. Mas os significados de cada uma não vêm fácil: “Não gosto de detalhar muito as letras. Isso pode limitá-las e acabar com a interpretação de quem ouve”, ele diz. O álbum não pretendia ser temático, mas a questão da comunicação foi aparecendo e tudo seguiu esse caminho naturalmente.

Polly Samson não era, de forma alguma, uma musicista ou alguma entendida de música e composição. Mas lidava bem com as palavras. Na época em que as canções estavam sendo compostas, ela era a namorada a quem Gilmour levava suas letras. Ele conta que, a princípio, ela tentava não interferir muito, mas aos poucos ela começou a ficar mais e mais envolvida no processo que estava sugando as horas de vida do namorado músico. E boa parte das situações retratadas nas músicas tem a ver com a relação de Gilmour e Polly. O título e o verso “What do you want from me?” (O que você quer de mim?) realmente foi dito por um deles durante uma discussão do casal.

pink-floyd-94-neustadt-tz

“A great day for freedom” é a instância política de The Division Bell. A letra claramente fala sobre o muro de Berlim, mas de forma amarga. Esperavam que algo mudasse com essa mudança, que as coisas melhorassem na Europa, principalmente no leste europeu, mas não houve grande melhora. “Vemos mudanças superficiais que as pessoas acham que são enormes. Mas elas passam, e muitos anos depois você se vê de volta ao mesmo lugar em que estava 20 anos atrás pensando ‘Meu Deus, tudo isso aconteceu e nada aconteceu’”, diz Gilmour.

Há o blues de Chicago em The Division Bell, presente em grande parte em “What do you want from me” e no solo de “Poles apart”. Mas Gilmour não faz nenhum tipo de homenagem ao blues de raiz que aprendeu quando adolescente. Nos anos 1990, ele já tinha seu próprio estilo de tocar. A instrumental “Marooned” é o melhor exemplo disso. “É impressionante quantos bends eu posso fazer com as notas, não é?”, ele comenta. E ele está certo. Seus bends são famosos e acabaram por ajudar a dar parte da identidade instrumental do Pink Floyd.

Algumas curiosidades: o maestro Michael Kamen – que gravou o disco S&M com o Metallica – foi o responsável pelos arranjos de orquestra de The Division Bell. O saxofone que ouvimos em “Wearing the inside out” foi gravado por Dick Parry, que tocou o instrumento em outras conhecidas faixas do Pink Floyd na década de 1970, como “Money”, “Us and them” e “Shine on your crazy diamond”. Em 1995, The Division Bell concorreu na categoria Melhor Álbum do British Awards, mas quem levou o prêmio foi Parklife, do Blur, banda liderada por Damon Albarn e que estava no centro da renovação do britopop ao lado do Oasis.

PK6

Músicas e destaques:

“Marooned”: Gilmour usou o famoso pedal Digitech Whammy para alcançar as oitavas que ouvimos nesta faixa. Ele usa os recurso do pedal com naturalidade. Se não prestarmos atenção, pode ser que nem percebamos quando ele usa os saltos de oitava do aparelho e quando toca as notas naturais do instrumento. A faixa é quase toda um improviso de Gilmour. “Marooned” Ganhou o Grammy de 1995 por “Melhor música instrumental de rock”.

“Take it back”: Gilmour gravou essa música com um violão Gibson J-200 usando um e-bow (um aparelho eletrônico que o som de um arco tocando as cordas do instrumento) e uma pedaleira Zoom. O som proporcionado por essa combinação foi gravado em estúdio e transformado em um sample. O que ouvimos na faixa é um sample em looping. O mesmo sample foi usado também em “Keep talking”. É este detalhe que proporciona a textura tridimensional da faixa.

“Lost for words”: Gilmour tocando um violão de uma forma folk e de um jeito que não tínhamos ouvido ainda no Pink Floyd. Uma das melhores letras do disco e uma das canções mais acessíveis também.

High hopes: foi a primeira música escrita para o álbum e a última a ser gravada. A música começou com uma frase que a namorada de Gilmour disse sobre a como o tempo acaba com as pessoas. O músico diz que não havia nada de realmente importante no comentário, mas o fez pensar na infância e em sua vida em Cambridge. A letra acabou sendo mais pessoal do que ele imaginou que seria e deu o tom para o que viria a seguir. A faixa demorou a ser gravada porque Gilmour fez uma demo dela e gostou da forma como a prévia soou, mas precisaram de muito tempo em estúdio até fazer a gravação oficial soar como queriam. Tem algo de místico e de misterioso em sua letra, em seu piano, na forma como Gilmour a canta. Não é a toa que se tornou uma das músicas preferidas de Gilmour de toda a discografia do Pink Floyd.

Passa no teste do tempo?

É um dos discos com opiniões mais diversas entre fãs e não fãs do Pink Floyd. Sem dúvida é um ótimo álbum, mas acabou sendo reconhecido como: 1) um disco solo do Gilmour, que pouco teria a ver com o restante da banda; 2) um disco muito new age; 3) um excelente disco apesar das diferenças em relação ao restante do catálogo do Floyd. Eu particularmente fico com a terceira opção, embora seja verdade que a mãe de Gilmour pesa bastante. Descarto a opção número 2 completamente. É preciso lembrar que mesmo o Pink Floyd e sua formação clássica sempre soube mudar seu som de um álbum para outro. Não seria agora que não fariam isso. Além disso, em 1994 Gilmour não se sentia na obrigação de fazer um disco do Floyd para os fãs exatamente, mas para si mesmo e para os outros membros da banda como uma criação artística sem a pressão de quem quer que fosse. Então, pensando dessa maneira, sim, o disco passa no teste do tempo e é até hoje um bom álbum.

(Embora eu não queira cair na besteira de fazer aqui uma espécie de Fla-Flu, PT-PSDB, Lennon-McCartney, Cerveja ou Vodca, devo dizer que The Division Bell é muito recompensador principalmente para quem gosta do jeito de Gilmour de conduzir a música. E não quero dizer com isso que o jeito dele seja melhor que o de Roger Waters.)

David Gilmour confirmou que este ano haverá um novo disco do Pink Floyd. Ele se chamará The Endless River. Foi composto por Gilmour e Nick Mason apartir das sobras de estúdio que o tecladista Richard Wright (que faleceu em 2008) havia deixado das sessões de The Division Bell. Não há informações de como o disco vai soar e se será, de alguma forma, uma continuação do álbum de 1994, mas seu nome é retirado do penúltimo verso da faixa “High hopes”. Aí está mais um motivo para você ouvir, conhecer ou relembrar The Division Bell.

pinkfloyd_400

Anúncios

10 comentários em “Pink Floyd – The Division Bell (1994)

  1. Pingback: Joe Bonamassa – Different Shades of Blue (2014) | Escuta Essa!

  2. Pingback: Marilyn Manson – Portrait Of An American Family (1994) | Escuta Essa!

  3. Pingback: Supertramp – Crime of the Century (1974) | Escuta Essa!

  4. Pingback: The Flaming Lips – With a Little Help From My Fwends (2014) | Escuta Essa!

  5. Pingback: Pink Floyd – The Endless River (2014) | Escuta Essa!

  6. Pingback: Van Der Graaf Generator – Merlin Atmos (2015) | Escuta Essa!

  7. Pingback: David Gilmour – Rattle That Lock (2015) | Escuta Essa!

  8. Pingback: Cotton Salamander – The Pale and Crescent Moon (2016) | Escuta Essa!

  9. Pingback: Michael Kiwanuka – Love & Hate | Escuta Essa!

  10. Pingback: Roger Waters – Is This The Life We Really Want? (2017) | Escuta Essa!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: