2014 Folk Indie Resenhas

The Antlers – Familiars (2014)

Um disco confessionário, melancólico, dolorido e bonito. Para se ouvir com muita atenção

por brunochair

Familiars é o quarto álbum da carreira da banda nova-iorquina The Antlers. Como é meio comum, a banda demorou alguns discos para se encontrar: o que pretendia musicalmente, que estilo iriam seguir, etc… tatearam um caminho possível, até chegar ao que são hoje. The Antlers (hoje) é conhecida como uma banda intimista, de letras doloridas e simbólicas.

Em Familiars, não há de ser diferente. As letras de Peter Silberman ecoam, reverberam nos ouvidos de quem está atento. São recordações, lamentos, lamúrias, verdades, tanto para si quanto para outrem(s). É um processo doloroso, o de recepcionar tantas impressões em cinquenta minutos de álbum, e nove canções. O teclado e os metais, executados em todas as músicas, são os responsáveis por dar um clima confessionário na música, bem como essa aura de recordação que atravessa palavras e sensações. Há que se ressaltar o ótimo trabalho do baterista Michael Lerner, que percorre as músicas sem aparecer muito, mas preciso na ambientação e nas levadas. Parece simples, mas não é. Sobretudo, não é mecânico: há vida nas baquetas.

Sem maiores delongas, vamos às músicas do álbum. São nove, todas elas com essa marca já citada, de absurda reflexão. Portanto, necessário tomar mais tempo falando das músicas e das letras do que propriamente sobre a história da banda, e a história do álbum. Isso já tem aos montes pela Web.

Palace” – A música de abertura do álbum já mostra a intenção de banda, de produzir uma sonoridade singela e melancólica, esteticamente perfeita. Os metais (trompete) e o teclado produzem esse limiar entre o belo e o triste. A letra da música é dura, mas necessária. É cantada com maestria por Peter Silberman, que consegue expressar a reminiscência nos primeiros versos

“You were simpler, you were lighter
When we thought like little kids
Like a weightless, hate-less animal
Beautifully oblivious before you were hid”

Aos poucos, aquela memória transforma-se em frustração, sobre o que poderia ser – sobre como poderíamos encarar as coisas. Transcrevo a parte final da música, que não é mais um lamento, e sim uma direção, uma possibilidade. E diante da possibilidade, uma forma sincera de esculpir o palácio:

“Then when heaven has a line around the corner
We shouldn’t have to wait around and hope to get in
If we can carpenter a home in our heart right now
And carve a palace from within
We won’t need to take a ton of pictures
It won’t be easy to believe
The day we wake inside a secret place
That everyone can se”

“Doppelgänger” – começa com um instrumento de sopro (trombone, possivelmente), o teclado entra aos poucos – tudo vagarosamente. Lá pelos 1’15 é que Silberman começa a cantar. O clima é de incerteza, temor e terror. No fim, a letra é uma continuação da primeira. Se lá temos a forma de tentar superar a aparência (num sentido mais amplo, não apenas o estético), aqui o eu-lírico está preso diante de sua própria imagem. E o considera seu “sósia”.

“Hotel” – Embora continue o mesmo clima confessionário, intimista e melancólico, esta música tem uma pegada mais “alegre”. Fala-se de dar entrada no hotel e como sentir-se diante da cama vazia e de amanhã estar indo embora. “Fuck now, I’m outta here tomorrow” Tá, mas não é tão simples. E nem deveria. Trata-se, aqui, de transitoriedade, da acumulação de lugares vazios (em nós próprios) que estivemos, visitamos, e damos adeus. É que em hotéis essa situação fica bastante evidente, esse não  pertencimento, caloroso adeus que damos ao que acreditamos não nos pertencer.

obs1: A voz de Silberman nos falsetes lembra a de Daniel Johns, do Silverchair.

obs2: Dessa música, lembrei também do Paulinho Moska falando sobre a solidão em hotéis, no ao vivo Tudo novo de Novo.

“Intruders” – Outra música com uma pegada rítmica mais tranquila, aquela alegria ébria de alguém que teve más notícias. A letra fala sobre um diálogo entre o eu-mais-velho e o eu-hoje, entre o que o que o eu-hoje quer ser e o que o  eu-mais-velho conseguiu ser. O eu-hoje captura o eu-mais-velho e pergunta: valeu a pena, mesmo? Bom, a música é dita uma das mais tranquilas por alguns, mas sei não. Tão reflexiva quanto as primeiras do álbum.

“Diretor” – Acabaram as músicas alegres (rs). Essa música é confessionária, trata-se de alguém dizendo a outro alguém o quanto este está perdido em suas escolhas, opiniões. “Eu só assisto / eu sou um diretor / vendo você ensaiar”. Silberman gosta de uns filmes, gosta de literatura e filosofia. Tudo isso está muito presente nas composições da banda, em cada arranjo e em cada silêncio. As músicas exalam confissões, mas também exalam arte, reelaborada ao modo deles. Essa comparação entre o diretor assistindo alguém errar na vida tal qual um ator em ensaio é extremamente feliz.

“Revisited” – Se você tá achando o conteúdo pesado, então pare nessa música. Essa letra é de cortar o coração. O arranjo é lindo, como sempre. Tem os metais, tem o teclado, tem o ambiente todo. Tem o solo de guitarra mais bonito do álbum (talvez, do ano) totalmente de acordo com a direção da música. Começa lá pelos seis minutos, e segue até quase o fim da música, quando os instrumentos vão se despedindo, despindo, um a um. A letra da música fala exatamente sobre isso: sobre a perda. Novamente, num sentido amplo, uma perda material, mental e espiritual. Sobra apenas o vazio, as lembranças e a realidade de ter que olhar pra trás e enxergar a casa vazia.

“So leave everything you’ve stolen that you can’t give back
And don’t replace what you’ve been missing
Until you know what you’re lacking
Leave everything you’ve borrowed and kept for yourself

You can’t unbreak our broken leases
Holding on to broken pieces
So return them
No guilt, no sorry speeches”

“Parade” – Mais um arranjo mais tranquilo, menos melancólico que setenta por cento do álbum. Mas a letra não alivia, novamente. Temos aqui a recordação de uma desfile, de toda a inspiração que aquele evento causou. E não são recordações das mais agradáveis, das mais simples. E a música segue, mais uma vez, de uma recordação para uma confissão, uma tentativa de entender o que se passava. Por fim, ela volta ao seu tempo de reminiscências, e termina mais tranquila.

“Surrender” – Música tão bonita, tão melancólica, tão “esteja preparado” quanto as outras do álbum. Deixo aqui um excerto dela, que se sobrepôs:

“Who are you lapping when you’re running from surrender
If life is a fatal race for all contenders?

“Refuge” – Mais uma música que trata de “casa” em sentido figurado. Em uma parte da letra, assim está escrito: não é bem da casa que lembramos, mas da sensação de olhá-la por fora quando não há ninguém mais dentro, e as luzes continuam acesas de qualquer forma. A mesma temática do álbum inteiro, desse despir-se, desse vazio de recordações e intensidades. Fecha bonito o álbum, depois de tantas reflexões e possibilidades, um momento mais relax para terminá-lo brilhantemente.

4 comentários em “The Antlers – Familiars (2014)

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