2014 Indie Resenhas Rock

Julian Casablancas + The Voidz – Tyranny (2014)

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O disco mais ruidoso do ano.

Por Lucas Scaliza

Quando lançou seu primeiro disco solo, Phrazes For The Young (2009), Julian Casablancas se afastou do rock de garagem de sua banda The Strokes e se permitiu mostrar um outro lado: o Julian criativo com sintetizadores, com a new wave, com a música eletrônica e até com algo de disco music. Em uma entrevista, disse que poderia ter deixado as coisas muito mais estranhas, forçado a barra mesmo, mas resolveu ser esperto e fazer um disco que continha todas essas novas influências diretas e que soassem bem.

Depois de dois álbuns não tão bem sucedidos do Strokes, Casablancas anunciou no início de 2014 que iria lançar mais um disco solo, mas dessa vez contando com o apoio da The Voidz, uma banda com músicos de bigode, cabeços enrolados/cacheados e cheios de mullets. Mesmo sem nada pronto, o grupo fez diversos shows pelo mundo, foi escalado pelo Lollapalooza 2014 e desembarcou na América do Sul também. Os shows receberam muitas críticas negativas. No Brasil não foi diferente: quem tentou ver o show dele se deparou com seu jeitão simples de ser, mas o som estava complicadíssimo. Uma barulheira, sua voz sendo abafada pela massa sonora, guitarras modelo Flying V sendo tocadas ao mesmo tempo que guitarras semiacústicas (uma combinação meio estranha) e riffs e solos que pareciam saídos de uma trilha de videogame da era Mega Drive.

Tenso.

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Agora o disco de Julian Casablancas + The Voidz está entre nós. Tyranny é, basicamente, o que já se viu no show. Um álbum até que criativo e bem diverso, mas difícil de ouvir, difícil de pinçar alguma música que consiga se destacar das demais, difícil até de dizer qual é o melhor momento. É tudo bem estranho ou bem barulhento, ou ambas as coisas juntas, como em “Father Electricity”, que fica entre ritmos latinos, rock com distorção nervosa e os sintetizadores.

No geral, o disco é como se o garage rock encontrasse as ambições eletroestéticas de Thom Yorke (do Radiohead), mas no final não faça nem um bom rock simples e direto e nem dê grandes contribuições à música eletrônica experimental.

Faixas como “Take me in your army” e “Business dog” são exemplos de Julian e da The Voidz tentando mesclar o rock orgânico com algo de eletrônico, como Thom Yorke faz não só no Radiohead, mas também em seu projeto classudo Atoms For Peace, ao lado de Nigel Godrich e Flea. São músicas menos barulhentas, mas nem por isso menos ruidosas. Já faixas como “Crunch punch”, “M.utally A.ssured D.estruction”, “Where no Eagles fly” e “Johan Von Bronx” são pancadas roqueiras temperadas com sintetizadores e efeitos que não se esforçam para soar bonitas.

De certa forma, Tyranny é algo feio e feito para soar estranho, como o Lulu (de 2012, do Metallica + Lou Reed), o The Terror (de 2013, do The Flaming Lips) e o To Be Kind (lançado este ano pelo Swans). Mas Julian & The Voidz, apesar da pretensão, não chegam lá. Mesmo para se fazer uma obra feia que tenha valor estético é preciso um certo cuidado, um certo jeito, talvez um conceito que ajude a direcionar a obra e a justifica-la. Ou talvez Julian + The Voidz só tenham errado a mão mesmo.

Apesar do estranhíssimo solo que parece não respeitar campo harmônico, há melodia em “Xerox”. “Dare I Care” e “Nintendo Blood” são boas, mas também não são fáceis. Já “Human sadness” é um mix: flertando com o eletrônico, tem até efeitos de voz no estilo Daft Punk. Um riff de baixo carrega a música pelos primeiros 4 minutos. Daí até o fim de seus 10 minutos, a música é arrastada por uma barulheira. Nada é cristalino, tudo soa meio torto. A voz de Casablancas entra na maçaroca sonora e disputa espaço com sintetizadores (alguns parecem efeitos de jogos de vídeogame) e riffs de guitarra.

Talvez o segredo de Thom York – seja em carreira solo, com o Atoms ou com o Radiohead – seja fazer música estranha de uma forma que não soe agressiva. Tyranny, por sua vez, tem tanta distorção e tantos sons competindo por espaço que é como uma briga interna (no estúdio) e externa (em seus ouvidos). Seja como for, o disco é um esforço criativo em que Julian Casablancas claramente tenta sair da caixinha e explora novos horizontes. Tyranny sai pelo selo do próprio Julian, o Cult Records (que também lançou o Crush Songs de Karen O), o que lhe deu liberdade para experimentar e fazer o que bem entendesse. Uma pena que o resultado tenha fica tão ruidoso.

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4 comentários em “Julian Casablancas + The Voidz – Tyranny (2014)

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