2014 Eletronica Indie Resenhas

Thom Yorke – Tomorrow’s Modern Boxes (2014)

cover

Definitivamente Thom Yorke não é um compositor que insiste na mesma tecla

Por Lucas Scaliza

Ele não avisou ninguém. Nem deu tempo de especular. Hoje, sexta-feira, 26 de setembro, Thom Yorke resolveu mais uma vez testar uma nova forma de compartilhar e vender música fugindo do combalido mercado tradicional. De surpresa, avisou que seu novo disco solo, Tomorrow’s Modern Boxes, estava pronto para ser ouvido. Bastava que você entrasse no site do BitTorrent (sim, aquele programa para baixar arquivos por torrent, um dos facilitadores da pirataria e “vilões” da indústria cinematográfica, fonográfica e editorial) e pagasse somente 6 dólares pelo cartão de crédito. Automaticamente recebe o arquivo que dá acesso às oito faixas do álbum e ao clipe da faixa inicial, “A Brain in a Bottle”.

E é isso. A foto de um vinil branco postado por Yorke e pelo produtor Nigel Godrich essa semana – que todo mundo suspeitava que pudesse ter algo a ver com trabalhos solos do cantor ou com o próximo disco do Radiohead – é mesmo o vinil físico do novo disco de Yorke. Como já é de praxe, Godrich produziu Tomorrow’s Modern Boxes, assim como tem feito com o Radiohead e com o Atoms For Peace, projeto paralelo de Yorke com Godrich, Flea e o percussionista brasileiro Mauro Refosco.

O segundo trabalho solo de Yorke, sucessor de The Eraser (2006), continua a exploração do compositor pelo mundo da música eletrônica alternativa. Dessa vez, seu som é bem mais esparso e bem mais etéreo e abstrato. O que mantém mesmo a música “no chão” e com um ritmo fácil de acompanhar são as baterias eletrônicas e alguns sons graves que fazem as vezes do baixo.

Thom-Yorke

The Eraser soava estranho quando foi lançado, mas com o tempo sua audição foi se tornando cada vez mais natural e palpável (embora possa ser estranho pensar em música nesses termos). Tomorrow’s Modern Boxes não causa o mesmo impacto logo de cara, uma vez que nos últimos oito anos o próprio Radiohead se tornou mais eletrônico de vanguarda e o Atoms For Peace também não apostou em música fácil, sem falar em todos os outros artistas eletrônicos fora do mainstream que continuaram experimentando, como o deadmau5, Nicholas Jaar, entre outros.

Embora mais etéreo agora, Thom Yorke ainda usa efeitos com os mesmos timbres de The Eraser, o que causa uma familiaridade sonora e ajuda a tornar a audição mais fácil. Mas seja como for, é importante salientar que não se trata de um disco do Prince ou do David Ghetta, feito para pistas, direto ao ponto e com melodias assobiáveis. São músicas mais introspectivas que pedem fones de ouvido para que você seja capaz de se ater aos detalhes, a vibração de cada nota. Faixas como “Interference”, “The Mother Lode” e “Nose Grows Some” são bons exemplos disso. E como novidade entre todos os trabalhos de Yorke há duas faixas instrumentais: “There is no Ice (In my drink)”, que aposta numa percussão bem marcada, e “Pink Section”, que soa árida e faz a afinação das notas do piano oscilarem.

Tomorrow’s Modern Boxes não é nenhuma obra genial de Thom Yorke, mas como ele está no comando de três projetos (Radiohead, carreira solo e Atoms For Peace) fica mais claro que sua musicalidade é ampla e ele sabe explorar diferentes estéticas dentro de cada projeto. Definitivamente não é um compositor que insiste na mesma tecla. Importante dizer que, ao que parece, as músicas de seu novo disco foram feitas para poderem ser eventualmente reproduzidas ao vivo por uma banda. (Yorke excursionou pelo mundo com o Atoms For Peace entre 2013 e 2014 e incluiu faixas de The Eraser no repertório).

No âmbito musical, é na forma de vender música que o disco deverá ser mais lembrado. Em uma entrevista recente para a NME, o chefe do BitTorrent, Matt Mason, disse que as negociações com Nigel Godrich e Thom Yorke começaram no final do ano passado. Para ele, a maior inovação na forma de comercializar música do ano havia sido a ferramenta que a Apple teve de disponibilizar para que os usuários de iTunes pudessem remover o novo disco do U2 de seus aparelhos. “Foi um ano ruim para a inovação da música. O jeito como as maiores gravadoras jogam todas as suas músicas no Spotify, elas desistiram de vender música às pessoas”, ele afirma. Vale lembrar que Thom Yorke já entrou em um debate público e acalorado contra o modo como o Spotify trata a música.

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Em uma declaração oficial, Yorke e Godrich dizem que se o modelo BitTorrent funcionar (ou seja, se as pessoa souberem usar e pagarem os 6 dólares pelo álbum), pode ser que encontrem uma saída para que as pessoas tenham acesso fácil à música e que os criadores também possam ser pagos pelo trabalho. “Permitindo que pessoas que fazem música, vídeo ou outro tipo de conteúdo digital vendam o trabalho por si mesmas, evadindo os auto-eleitos intermediários”, dizem. Por intermediários, ele quer dizer selos e gravadores, grandes companhias que são as responsáveis por CDs serem caros e que ficam com a maior parte do lucro das vendas. “Se isso funcionar”, eles continuam, “qualquer um pode fazer a mesma coisa que fizemos”.

Matt Mason, do BitTorrent, deixa claro também que adoraria lançar o próximo disco do Radiohead. Aliás, as gravações do novo disco da banda começaram essa semana.

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15 comentários em “Thom Yorke – Tomorrow’s Modern Boxes (2014)

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