2014 Live/Ao vivo Metal Resenhas

Dream Theater – Breaking The Fourth Wall (2014)

Ótimo repertório faz tributo aos excelentes Awake e Scenes From a Memory

Por Lucas Scaliza

O Dream Theater sempre foi uma banda que impressiona ao vivo. A qualidade dos músicos, a complexidade das músicas (várias delas bem longas), e o som que sai dos PAs lembra bastante aquele que ouvimos nos álbuns de estúdio. E tudo isso ficou melhor a medida que a banda foi ganhando mais experiência e estrutura. Não é a toa que acabam de chegar ao 8º registro ao vivo da carreira (sem contar os ao vivo do projeto de covers) com o ótimo Breaking The Fourth Wall (Live at the Boston Opera House), gravado em um show da atual turnê Along for the Ride Tour dia 25 de março.

Assim como Live at Budokan (2004), Score (2006), Chaos in Motion (2008) e o Live at Luna Park (2013), o novo lançamento trata-se de mais um disco triplo com a íntegra da apresentação em mais de 2 horas e meia de som. Algo que torna este novo disco interessante é que ele se baseia em três álbuns da banda: Dream Theater, lançado ano passado, Awake (1994), que está completando 20 anos, e o clássico Metropolis Pt. 2: Scenes From a Memory (1999), completando 15 anos.

No primeiro disco, logo após a porrada inicial “The enemy inside”, em que o guitarrista John Petrucci destila peso com sua Majesty de sete cordas, a banda chega com tudo com uma das composições mais vigorosas dos últimos anos: “The shattered fortress”, que é a parte final da sequência de músicas do ex-baterista Mike Portnoy sobre seus problemas com álcool e os 12 passos do AA. Ao vivo, os 12 minutos da música soam tão pesados e agressivos quanto no disco. Um exemplo de metal progressivo: riffs animais e um virtuoso solo de teclado de Jordan Rudess.

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Do álbum mais recente, executam ainda as power ballads “Along for the ride” e “Looking glass”. Do álbum de 2011 A Dramatic Turno f Events, a banda recupera “On back of angels” e a excelente “Breaking all illusions”, que além das boas passagens de baixo de John Myung, tem um solo inspirado e emocional de Petrucci lá pelos 7 minutos.

Além de “The shattered fortress” e “Breaking all illusions”, há outras duas faixas que tornam este primeiro disco especial. Uma versão de 15 minutos de “Trial of Tears”, faixa que mantém neste ao vivo sua introdução climática, o baixo bem evidente de Myung e a bateria cheia de nuances de Mike Mangini. Como trata-se de uma música menos pesada e que aposta muito no feeling de todos os músicos, é a prova de entrosamento e bom gosto que o quinteto mantém. “Enigma Machine”, música instrumental de Dream Theater, é mais interessante neste ao vivo do que a versão de estúdio. Música em que todos podem ser virtuosos: Petrucci ataca com a guitarra de sete cordas novamente e Jordan Rudess mostra velocidade e novos timbres em seu teclado. Mas é Mangini quem rouba a cena, não só fazendo um acompanhamento acertado nas baquetas, mas emendando um solo só seu no meio da faixa. E ele faz questão de usar pelo menos 90% de seu enorme kit de bateria nessa demonstração.

O segundo disco é um tributo aos 20 anos de Awake, o melhor disco do Dream Theater em minha opinião. Nem Mangini e nem Rudess fizeram parte das gravações na época, mas interpretam com maestria o que originalmente foi executado por Portnoy e pelo tecladista Kevin Moore. “Lifting shadows off a dream”, uma das melhores partes deste segundo disco, mostra Rudess refazendo com maestria e respeito o que Moore havia gravado com tanto tato. Os acordes iniciais são tão presentes que me fizeram pensar em Kevin Moore e no que ele deve estar fazendo agora, há tantos anos longe dos holofotes. Mangini também não se limita a reproduzir o CD e encontra muito espaço para colocar novos detalhes percussivos. Há ainda a dobradinha “The Mirror” e “Lie” – com direito ao tecladista tomando muitas liberdades na segunda.

O clima de “disco ao vivo”, com espaço para mudanças na melodia de voz e improvisações – sem falar nas várias viradas de bateria –, é onipresente, tornando faixas que são vigorosas ainda mais up beat. E há participação do público, o que é essencial para que tenhamos a sensação do retorno de algo que estava sendo apresentado no palco.

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“Scarred”, uma das grandes músicas de Awake, ganha uma ótima versão ao vivo. Enquanto as partes mais aceleradas e pesadas se mantêm como na gravação original, as partes mais lentas trazem uma interpretação ligeiramente diferente, mas ainda preservando a suavidade desses momentos. E há o momento histórico: pela primeira vez desde que foi gravada, a linda composição de Kevin Moore “Space-Dye Vest” tem sido executada ao vivo pela banda. E Rudess mais uma vez trata a obra com carinho, interpretando-a sem descaracterizar o que foi criado pela sensibilidade de Moore.

Fechando o segundo disco, tocam “Illumination Theory”, a faixa de mais de 20 minutos que encerra Dream Theater. Diversas vezes ao longo de Breaking The Fourth Wall a voz de James LaBrie soou mais aguda do que estamos acostumados a ouvir, mas nessa faixa ela soa corretamente. É a partir desta faixa também que entra em cena a Berklee College of Music, conduzida por Eren Başbuğ, contribuindo com uma orquestra e um coral, ajudando “Illumination Theory” a soar épica como no álbum (que também teve participação de uma orquestra).

O terceiro e mais curto disco contém quatro músicas de Scenes From a Memory. “Overture 1928”, “Strange Déjà Vu”, “The dance of eternity” e “Finally free” soam ainda mais encorpadas com a presença da orquestra e do coral, ao mesmo tempo em que oferecem um registro diferente das canções ao público recuperando sua fase mais criativa. Mas fiquem tranquilos: tudo isso é usado com sabedoria e não ofusca o som da banda.

A famosa instrumental “Dance of eternity” ganha ares de trilha sonora cinematográfica nas passagens em que a orquestra está mais presente. E é trilha de filme de ação, então você já imagina. “Finally free” toma ares ainda mais belos com o coral ajudando no coro do verso “One last time…”. LaBrie, por outro lado, solta trêmulos em notas altas que raramente ele usa em gravações de estúdio, mas ao vivo – seja nos discos ao vivo ou nos shows mesmo – ele faz bastante. Isso não prejudica a canção, mas é um maneirismo bastante repetido por ele.

O maior acerto de Breaking The Fourth Wall é não se basear inteiramente no setlist do último disco do grupo – que não é tão forte e nem tão longo assim para sustentar mais de 2 horas e meia de show. Há boas escolhas do que tocar, mesmo deixando de fora clássicos como “Metropolis Pt. 1” e “Pull me under”, que já fazem parte de outros registros ao vivo e do show de outras turnês. Além disso, embora a criatividade não tenha sido o maior mérito do Dream Theater nos últimos 10 anos, a execução ao vivo do grupo continua impecável. Dá para ver (no Blu-ray) e ouvir (nos CDs) que fazem valer o preço dos ingressos.

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3 comentários em “Dream Theater – Breaking The Fourth Wall (2014)

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