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Marilyn Manson – Portrait Of An American Family (1994)

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20 anos depois, a história desse álbum tem serial killers, casa assombrada, crítica aos Estados Unidos e uma mãozinha de Trent Reznor

Por Lucas Scaliza

O que é?

Portrait of an American Family é o primeiro disco de Marilyn Manson, lançado em 1994.

História e curiosidades

1994 foi um bom e interessante ano para a música. E foi bem diversificado, com muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. Nos Estados Unidos, estávamos em um momento grunge de pesar (a morte de Kurt Cobain) e de inovação com o ambicioso Superunknown, do Soundgarden, vindo para a luz do dia. Além disso, o Pearl Jam continuava em sua jornada alternativa com o Vitalogy. Foi o ano também que o punk voltou à pauta dos EUA impulsionado pelo hit “Basket Case” de Dookie, do Green Day. Do outro lado do Atlântico, o Pink Floyd lançava seu (até então) último disco de estúdio, The Division Bell, sem a participação de Roger Waters e embarca numa grande turnê, que deixava saudade antes mesmo de acontecer por ser a última. Ao mesmo tempo o Oasis fazia sua estreia com o animado Definitely Maybe, dando uma arrancada no britpop e afastando aquela tristeza grunge que havia no rock. Também foi o ano em que o Dream Theater lançou Awake e deixou claro que seguiria firme com o metal progressivo, um estilo que a partir dali iria se expandir e aos poucos retomar o interesse de parte do público por esse tipo de música.

Foi o ano também que vimos surgir Marilyn Manson. Antes um jornalista chamado Brian Warner, ele se revoltou contra o sistema e chegou despejando raiva e crítica ao famigerado way of life com Portrait of an American Family. Musicalmente, era algo entre o grunge e o metal, mas já continha elementos eletrônicos, berros e riffs pesados que definiriam o som da banda nos anos seguintes. Costumeiramente visto como figura polêmica, sobretudo após o segundo disco, Antichrist Superstar, Marilyn Manson cultivava uma figura sombria e corrosiva. Se nos anos 70 as mamães americanas achavam que uma banda divertida como Kiss eram “cavaleiros a serviço de satã” (Knights In Satan’s Service), o que pensariam de Manson que, este sim, chegava com letras ácidas, palavrões e fúria contra a sociedade?

(Bom, existe todo o episódio de Columbine para discutirmos o que pensaram de Manson, mas isso fica para outra hora.)

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Manson já fazia demo tapes de rock sinistro e subversivo antes de entrar em estúdio para o seu primeiro álbum. Foram essas demos que chamaram a atenção de ninguém menos do que Trent Reznor, o líder do Nine Inch Nails, e músico-produtor que viabilizou a estreia de Manson na música. Para esta oportunidade, o jornalista chamou amigos e músicos locais para fazer parte de sua banda – inclusive um baterista de verdade, substituindo a bateria programada que utilizava até então. A princípio, gravaram com o produtor Roli Mossimann do Celtic Frost, que fez o que Manson não queria: ao invés de preservar o som subversivo e sinistro do grupo, ele polia o material e deixava tudo mais palatável, com menos arestas. Trent Reznor sentiu que Manson estava certo e se voluntariou para mexer no material e fazer as coisas voltarem ao anormal. E é essa versão mixada por Reznor que foi lançada (embora a versão de Roli possa ser encontrada online também).

Como vocês já devem saber, Brian Warner escolheu seu nome artístico misturando Marilyn Monroe, o ícone do cinema, do glamour e da sensualidade dos anos 60 nos EUA, com Charles Manson, o serial killer que mostrou o lado negro do sonho hippie e também virou um ícone dos EUA, símbolo da monstruosidade humana.

Para retrabalhar o material com o novo produtor, o cantor alugou a casa de Sharon Tate para as novas mixagens. Tate foi uma das vítimas de Charles Manson e diziam que a casa era assombrada. Manson conta que durante as mixagens de “Wrapped in Plastic” o sample com a voz de Charles Manson que aparece logo no início de “My Monkey”, começou a surgir no meio da música, sem motivo ou explicação lógica e tecnológica aparente. Era o trecho em que o serial killer diz “Por quê uma criança iria matar sua mãe e seu pai?”. “A gente ficou totalmente assustado e pensamos que era melhor parar por ali”, Manson lembra. “Voltamos no dia seguinte e não havia problema nenhum. Os samples de Charles Manson não estavam mais na fita. Foi um verdadeiro momento sobrenatural que me matou de medo!”

Antes de Marilyn Manson se tornar o codinome de Brian Warner, era o nome da banda dele: Marilyn Manson & The Spooky Kids. O guitarrista e cofundador da banda, que permaneceu com Manson até 1996, é Scott Putesky, mas o nome de palco era Daisy Berkowitz – nome que combinava a Daisy do seriado Os Gatões (também símbolo de sensualidade) com David Berkowitz, conhecido também como o serial killer Son of Sam. Atualmente o músico – que já não se parece em nada com a figura apocalíptica da época da banda – luta contra o câncer em estágio 4 desde setembro de 2013. Putesky conta que no início o som e as letras do grupo eram para soar estranhas, como viagens psicodélicas. Com o tempo é que tudo foi ganhando contornos sociais que explodiram em Portrait of an American Family. Críticas às religiões, a mídia dos EUA, ao jeitinho americano e canções inspiradas por assassinatos (como “Get your Gunn”, baseada no assassinato do médico David Gunn na Florida. Veja abaixo mais informações).

Logo que o disco saiu a banda enfrentou protestos. Putesky lembra de um show em que iriam abrir para o Nine Inch Nails em 1994, em Utah. Era uma apresentação em um estádio, mas os donos do local proibiram o Marilyn Manson de subir no palco. “Foi fofo, porque o NiN podia tocar, mas nós não. Isso prova que eles não fizeram a lição de casa”, o ex-guitarrista ironiza, já que o NiN tinha altas doses de críticas, estranhezas e letras contundentes em seu repertório também. Putesky também diz que logo os pais dos adolescentes da época começaram a ouvir falar da banda e das supostas mensagens anticristãs que propagavam. Então os pais proibiam os filhos de ouvir a banda Marilyn Manson. Mas foi exatamente essa fama seguida de proibição que atraiu a juventude para o som (e mensagens) do grupo.

“Eu queria dizer [no álbum] um monte de coisas que disse em entrevistas. Mas queria abordar a hipocrisia dos talk shows na América, como a moral é usada como um crachá para te fazer parecer bom e como é muito mais fácil falar sobre suas crenças do que viver a partir delas”, diz Manson em uma entrevista. “Eu estava muito preso ao conceito de que enquanto crianças crescendo, um monte de coisas que nos são apresentadas tem um significado mais profundo do que nossos pais gostariam que enxergássemos, como o Willy Wonka e os Irmãos Grim. Então o que eu tentava dizer é que quando nossos pais escondem a verdade isso é muito mais prejudicial do que se nos expusessem a coisas como o Marilyn Manson pra começar”.

Não é por acaso que o disco abre com uma citação do filme A Fantástica Fábrica de Chocolates. A recriação torna o trecho do filme infantil assustadora e sombria, subterraneamente maléfica mesmo. E na sequência vem a música “Cake & Sodomy” (bolo e sodomia), cuja inspiração foi a programação da TV americana da madrugada, vendo o pastor Pat Robertson se esforçando para conseguir o número do cartão de crédito dos telespectadores. “I am the god of fuck”, ele canta. (Este ano o mesmo tema foi ironizado no clipe de “Fever”, do duo The Black Keys).

Além do cantor, que permanece ativo até hoje, todos os músicos que participaram da gravação de Portrait of an American Family deixaram a banda. Além de Scott Putesky, o baixista Gidget Gein foi demitido por consumir heroína demais. Algum tempo depois ele morreria em decorrência de uma overdose. O baterista Sara Lee Lucas também foi tirado por falta de compromisso e entusiasmo com o grupo.

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Músicas e destaques

“Lunchbox”: uma das faixas mais conhecidas do disco, traz uma ótima bateria e riffs de guitarra que já mostram a característica da banda. A música se baseia em uma leia de 1972 que proibia lancheiras de metal nas escolas da Flórida. É uma música sobre ser alvo de bullying mas querer ser uma estrela do rock.

“Get Your Gunn”: música com uma pegada mais industrial. Baseia-se no assassinato do ginecologista David Gunn, que provia serviços de métodos contraceptivos e abortos para mulheres no interior dos EUA. Morreu na Flórida, vítima de um homem antiaborto e fundamentalista cristão. Anos depois, Marilyn Manson diria que a morte de Gunn pelas mãos de um membro de uma organização pró-vida era a hipocrisia definitiva que havia visto no mundo pouco antes de chegar a idade adulta.

“Wrapped in Plastic”: música baseada no série Twin Peaks, criada e dirigida pelo diretor surrealista David Lynch. A série aos poucos vai mostrando as segundas vidas de todos os habitantes de uma pequena cidade americana e como todos têm sujeira a esconder debaixo de seus tapetes e como a realidade é muito mais dúbia, ambígua e sombria. É esse tipo de situação que essa música expõe.

“Dogma”: é o principal ataque do disco às religiões organizadas. Mas ao invés de simplesmente proferir o ódio contra elas, a canção inverte o jogo e diz que são as religiões que estão cheias de ódio e tentam sublimar tudo isso que as incomoda.

Passa no teste do tempo?

O disco está cheio de significados e conteúdos importantes em suas letras. Numa época em que o punk retomado pelo Green Day – só para citar um exemplo – não questionava mais nada, foi a música underground de Marilyn Manson que terminou fazendo a crítica aos EUA e ao mundo. Nesse sentido, o disco permanece atual, sem dúvida. Com o passar dos anos, a música da banda passaria por algumas transformações, mas as bases da estética do grupo está contida já neste primeiro disco.

Portrait of an American Family é um bom disco, mas não é o melhor de Manson. Mas, se comparado com seus últimos três álbuns pelo menos, possui muito mais energia e ódio criativo (se é que isso existe de fato). É claro que na época muita gente achou que tudo o que Manson fazia era só pose. E em alguma medida deveria ser mesmo. Mas parte daquele teatro todo era verdade.

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2 comentários em “Marilyn Manson – Portrait Of An American Family (1994)

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