2013 Pop Resenhas Rock

David Bowie – The Next Day (2013)

David Bowie's The Next Day

Novo álbum tem vídeos com profanação, música sobre tiros em escola, rock’n’roll provocativo, amargura e morte

Por Lucas Scaliza

David Bowie não teve a mesma relevância nos anos 90 que teve em 2013 com o lançamento de The Next Day, que chegou meio de sopetão, ao estilo recente do Radiohead anunciar que um próximo trabalho está saindo e você nem sabia. Bowie sempre foi uma figura de referência para pessoas de sua geração e das gerações mais recentes, e sempre esteve produzindo, só diminui o ritmo. Produziu até um disco que acabou não lançando, mas que caiu na rede (contra a sua vontade) um tempinho atrás. Por conta de um suposto câncer, ficou mais recluso nos últimos anos e nem quis ser entrevistado por Marc Spitz para a biografia que o jornalista estava escrevendo sobre ele.

The Next Day salta aos olhos, pois mostra Bowie em grande forma. Não há músicas ruins no álbum, nem mesmos as mais contidas “Dirty boys” e “Love is lost” (que parecem nunca chegar a uma resolução harmônica). É um desfile de vigor e também de amargura. É criativo desde a sua capa autoirônica: é basicamente a capa do disco Heroes (1977) com um quadro branco cobrindo o rosto de Bowie e o nome do novo trabalho. Não é uma negação de Heroes, assim como também não é uma revisitação a ele. Mas é, sem dúvida, uma retomada do vigor daqueles anos, mas com a vantagem da experiência e de poder gozar de liberdade criativa para fazer sua música como quiser.

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Para um artista de múltiplas personalidades, mais de 20 discos na bagagem, e que transitou por vários estilos musicais, The Next Day é uma volta ao rock. Não é uma direta continuação de seus últimos discos, Heathen (2002) e Reality (2003), que, se não eram ruins, também não eram clássicos de sua maturidade. Mas The Next Day é.

Desde o primeiro estampido da bateria no primeiro segundo de “The next day” até o último refrão, temos guitarra e vocal forte de Bowie em uma música bastante animada. “The stars (Are out tonight)” segue pelo mesmo caminho, colocando riffs de guitarra ao longo de toda a música e mantendo Bowie no centro de tudo e letras que não são fáceis e nem tolas. A música dele não é complexa, mas é bem realizada e sabe ser interessante do começo ao fim.

Os vídeos que vieram com o disco também são dignos de nota. Para “The next day”, Bowie usa de profanação do cristianismo com ajuda do ator Gary Oldman. Sinceramente, não achei que ele iria tão longe em sua crítica, mostrando padres e bispos em um clube underground, na presença de Joana D’Arc – entre outras vítimas do Vaticano –, cercados de mulheres lascivas e de uma banda de rock liderada por Bowie vestindo uma túnica. Assista e tire suas próprias conclusões. O inegável é que Bowie não só voltou com tudo como voltou provocativo e afiado como poucos no rock atual.

O refrão da música é incrível, mas sua letra é pesada: Aqui estou / Não para morrer / Meu corpo deixado para apodrecer numa árvore oca / Seus galhos lançando sobras nas forcas para mim / No dia seguinte, no próximo e no outro.

Em “The stars (Are out tonight)”, com cara de curta-metragem, a atriz Tilda Swinton e a cineasta Floria Sigismondi (que dirigiu Runaways) ajudam Bowie a traçar um pequeno perfil da hipocrisia entre as celebridades. Novamente há um quê de autoironia: Bowie é uma estrela e coloca uma atriz para interpretá-lo como se fosse os anos 70 novamente. Há uma inversão bizarra de papeis no clipe que lembra parte da trama de Cidade dos Sonhos, filme de David Lynch.

Já “Valentine’s Day”, uma das melhores músicas e o melhor solo do álbum, mostra apenas Bowie tocando guitarra em um galpão abandonado. De cara limpa, sem personagem para interpretar, sem máscara, sem atores. É até chocante a ênfase dada a seus olhos de cores diferentes (ele tem anisocoria), ênfase em seus dentes brancos, e na forma como sua guitarra lembra uma arma de propósito… Bem, apesar de ser uma música aparentemente animada, de três acordes e que não evoca nenhuma agressividade no som, é uma canção sobre um garoto que foi para a escola armado e atirou nas pessoas que estavam lá. Ao longo de todo The Next Day, Bowie faz isso: músicas muito boas com significados pesados. Prestando atenção apenas à música, muitos desses significados ficam até insuspeitos.

Assim, sobra desesperança em “Love is lost”. Diga adeus às emoções da vida/ Quando o amor era bom, nenhum amor era ruim/ Diga adeus à vida sem dor, ele canta no refrão. A balada “Where are we now” não é mais positiva. Basicamente um homem em Berlim refletindo sobre alguma terrível decepção ou perda que o faz perder todo o senso de objetivo e direção. Mesmo a animada “Dancing out in space” tem seu jeito de tornar uma dança algo mais sombrio em seu refrão: Algo como religião/ Dançando cara a cara/ Algo como se afogar/ Dançando cara a cara.

A coisa morta, ou os mortos, são lembrados a todo momento ao longo do álbum. Desde o verso de “The stars…” (As estrelas estão lá fora hoje/ As vivas e as mortas) até o final. Na incrível “How does the grass grow” Bowie canta sobre garotas e garotos em um cemitério onde árvores estão morrendo e a grama cresce com o sangue. Em certo ponto, ele diz: “Lembrem-se dos mortos, alguns deles eram tão legais”. Mas talvez nenhuma supere a amargura do fim de “You feel so lonely you could die”:

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As paredes te encurralaram/ Você tem a tristeza, amigo/ E as pessoas não gostam de você/ mas você vai partir sem fazer barulho ou sem um Deus, um fim/ Oh, felizmente eu te amo/ A morte que virá deverá te amar/ Aposto que se sentirá tão sozinho que podia morrer.

Quando dizem que “Bowie” voltou, estão falando menos de Bowie do que de um artista completo e com algo a dizer e que sabe realizar a sua arte. É um Bowie que parece, a primeira vista, revitalizado e rock’n’roll. Mas uma análise mais detida de suas mensagens e suas palavras, vemos um Bowie cheio de fúria e de amargor. Tinha 66 anos quando The Next Day saiu. Não fez nenhuma aparição na televisão para promover o disco, não marcou nenhum show (e avisou que não marcaria) e o mais próximo de uma entrevista que deu foi uma sequência de palavras para o The Guardian que deixa para o público tentar apreender alguma ordem ali.

The Next Day é uma das melhores coisas que a música recebeu em 2013. Deixamos de admirar Bowie apenas pelo passado e respeitar o que tinha lançado nos últimos 20 anos para perceber que ele tinha o que mostrar e foi tão relevante em 2013 quanto na época de Ziggy Stardust ou Heroes. Não é a toa que o disco chegou a ser número um em vendas no Reino Unido, marca que ele não atingia desde Black Tie White Noise, de 1993. A história ainda está sendo escrita e Bowie não está pronto para se aposentar. Seu agente, inclusive, recentemente disse que ele pode lançar um novo álbum de inéditas a qualquer momento. Uma coletânea com raridades para comemorar os 50 anos de carreira sai em breve e vai se chamar Nothing Has Changed.

Bowie vem aí, para sorte de nossos corações e mentes.

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9 comentários em “David Bowie – The Next Day (2013)

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  8. DE ONDE VOCÊ TIROU QUE UM DOS OLHOS DE BOWIE É DE VIDRO??? DÁ UM SEARCH NO GOOGLE ANTES DE ESCREVER, QUE TE AJUDA A NÃO PASSAR VERGONHA.

    • Verdade. Ele teve anisocoria. Obrigado pela ajuda! Mas dada a quantidade de análises válidas e outras informações prestadas no mesmo texto, até que não estamos com tanta vergonha. Pedimos perdão pelo vacilo cometido!

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