2014 Indie Resenhas Rock

Thurston Moore – The Best Day (2014)

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Disco se beneficia com a intacta personalidade musical de Thurston Moore e sua tendência de criar tensões

Por Lucas Scaliza

O (ex?) guitarrista do Sonic Youth deixou de lado o violão que dava o tom no ótimo Demolished Thoughts (2011) para voltar a guitarra em seu novo trabalho solo, The Best Day. Thurston Moore está tão criativo como sempre e sabe entregar um misto de barulho noise com melodia e escolhas acertadas de notas. Os 8’40” de “Speak to the wild”, a faixa que abre o disco, deixa claro como sua música ainda é um exemplo do melhor que o rock alternativo americano (e inglês também, já que Moore vive em Londres há alguns anos) tem a oferecer.

As mudanças de ritmo dentro de “Speak to the wild’ e a ênfase na parte instrumental lembram muito o disco que Lee Ranaldo, parceiro de guitarras de Moore no Sonic Youth, lançou em 2013, Last Night On Earth. Aliás, uma aula de bom gosto e criatividade. Mas conforme o álbum prossegue, sentimos cada vez mais a mão pesada e a personalidade tensa de Moore dominando a obra.

The Best Day não tenta de forma alguma fazer música para os mais afoitos. “Forevermore” tem mais de 11 minutos de duração e leva 2’30” para o vocal aparecer. O baixo calcado na repetição de notas faz a cama para a guitarra se manter presente, ao mesmo tempo rítmica e melódica, uma presença magnética.

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“Tape” e “Vocabularies” nos colocam na presença de um violão que lembra bastante o que Moore apresentou em Demolished Thoughts. “Tape” música que se desenvolve em uma linha experimental com um violão que ora dedilha acordes, acorda ataca as cordas para extrair tensão da repetição, e a presença de um baixo que com algumas notas coloca tudo em estado de suspensão. “Vocabularies” é uma música que coloca muita ênfase nos instrumentos e na criação de suspense sobrepondo a linha de guitarra com o ritmo do violão.

“Detonation” tem apenas 3 minutos e assemelha-se a uma composição de Ryan Adams. Tem energia e parece que seu tom grave a qualquer momento pode explodir, só faltava um pedal Big Muff ou distorção mais pesada para que tudo fosse pelos ares. E Moore constrói a tensão usando guitarra solo, base e baixo que sobem cada vez mais a altura das notas antes de fazer tudo voltar ao tom original da canção.

Thurston Moore é um guitarrista que sabe solar – se ele quiser. Mas fica claro que ele prefere ser o noiser de sempre. E o pedal de fuzz chega para por fogo em tudo na instrumental “Grace Lake”. Duas guitarras, um baixo e uma bateria e alguns pedais para ajudar é tudo o que ele precisa para criar uma ótima faixa instrumental que não tem solo, nem orquestração. Um exemplo do pós-punk afiado de Moore, ruidoso, viajante e rock’n’roll.

“Germs burn” (referência a Darby Crash, da banda punk Germs) fecha The Best Day mostrando que Moore é polifônico: dedilha, sola, cria tensão, canta, mantém o baixo básico, mas ajudando na criação harmônica, e solta a mão direita na guitarra para criar ritmos rápidos, repetições e frases que ganham força com a percussão das cordas do instrumento.

A faixa-título “The best day”, um rock mais direto, é o primeiro single do trabalho. Não há estranhamento nem clima obscuro na faixa, que surge com um clima positivo e melodia de voz fácil de acompanhar. Moore disse que todo o processo de gravação de seu novo disco solo estava permeado de um clima positivo trazido por sua atual banda de apoio, que inclui Debbie Googe (baixista do My Bloody Valentine), o guitarrista James Sedwards (do Nought) e o (ex?) baterista do Sonic Youth, Steve Shelley.

Moore conheceu Sedwards logo depois de se mudar para Londres, quando soube de um cara das redondezas que ensinava riffs do Led Zeppelin para as crianças do bairro. Descobriu que ele era um cara que adorava coisas cruas – como a dos My Bloody Valentine e Sonic Youth – mas ao mesmo tempo era um músico cheio de técnicas avançadas. Juntos, tocaram na abertura de um show solo que Lee Ranaldo fazia na cidade. Steve Shelley também acompanhava Ranaldo como seu baterista e soube do novo projeto de Moore. Disse que se precisassem de um baterista, ele estava disponível. E a baixista veio como sugestão de Sedwards.

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A capa do disco é uma foto da mãe de Moore com o cachorro da família tirada por seu pai, uma cena de família positiva também. Meses antes desse lançamento, porém, veio a tona algo não tão positivo no contexto familiar de Moore.

O Sonic Youth terminou quando acabou também o casamento de Moore com a vocalista da banda, Kim Gordon. Eram casados desde 1984, mas Kim descobriu que o marido chegara à meia idade repetindo os mesmo velhos hábitos e clichês de centenas de outros homens por aí: arrumou uma amante e manteve-se com ela por anos sem nunca expor o fato. Até que Kim descobriu. Enquanto gravava o novo disco, Moore se mudou para Londres e passou a viver com essa (ex?) amante, Eva Prinz, uma editora. O caso já dura seis anos, ele revelou.

“Estou em um relacionamento muito bom que me faz feliz – feliz mesmo. Mas sempre terei aquela experiência de tristeza que uma separação traz, especialmente uma que foi tão importante não só para mim, mas para todos a nossa volta”, ele disse quando resolveu comentar o caso.

Não é um tema que pareça dar o tom do disco. Algo parecido parece ter feito mais efeito sobre Lazaretto de Jack White, embora sejam letras retrabalhadas de quando o músico tinha 19 anos. De qualquer forma, The Best Day  soma à carreira de Moore: mais músicas boas, fuga do convencional, abraço de suas técnicas rústicas mas que lapidadas pelo bom gosto e bom senso criam ótimas canções. Last Night On Earth, de Ranaldo, é mais sofisticado e se preocupa mais em ter momentos de pura beleza, mas The Best Day se beneficia com a intacta personalidade musical de Thurston Moore e sua tendência de criar tensões. Aos 56 anos, o guitarrista ainda mostra que pode influir na música alternativa e carregar essa bandeira como bandas de integrantes na casa dos 20 anos ainda não aprenderam.

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3 comentários em “Thurston Moore – The Best Day (2014)

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