2014 Resenhas Rock

Bush – Man On The Run (2014)

cover

Grunge com melodia

Por Lucas Scaliza

O ano de 1994 já foi bem discutido aqui no Escuta Essa! Dá para dizer que foi um ano em que o grunge deu seu último sopro de criatividade e consistência com Superunknown, do Soundgarden, no mesmo ano em que Kurt Cobain cometeu suicídio, no ano em que o Pearl Jam lançava Vitalogy e o Oasis, do outro lado do Atlântico, deixava de lado a tristeza e crueza grunge para soar mais solar com seu disco de estreia, Definitely Maybe. Mesmo que o auge do grunge tenha sido ali por 1991-1992, no esteio de Nevermind, Ten (ambos de 1991) e outros trabalhos do Alice In Chains e Soundgarden, foi só em 1994 que a terra da rainha viu surgir a banda Bush, o grunge inglês, com o disco Sixteen Stone.

Tiveram sucesso comercial naquela década, mais nos EUA, lar do grunge, do que no Reino Unido, mas venderam 10 milhões de discos. A banda encerrou as atividades em 2002 e só retornou em 2011, com o disco The Sea of Memories. Este mês chegou ao público seu novo disco, Man on the Run, que é bom, mas causa um misto de sentimentos em seus ouvintes.

A princípio, é como se Man on the Run fosse disco dos anos 90 que você está ouvindo pela primeira vez com uns 20 anos de atraso. Por outro lado, é difícil saber até onde você gostaria que a banda atualizasse ou mudasse seu som para se adequar melhor a esta era em que tudo é válido, tudo encontra seu público, toda experiência pode dar em algo positivo e resgatar raízes não é dar um passo atrás. Como mostra o U2 com Songs of Innocence, resgatar essas raízes pode ser a melhor forma de revigorar uma banda que já perambulou por diversas esferas estéticas.

bush

Porém, o Bush não é o U2 e não tem muita diferenciação estilística no currículo para mostrar. O que eles fazem é manter viva a chama do grunge acesa ao longo das 14 faixas de Man on the Run.

É um disco de rock com distorções bem sujas, mas nunca pesado demais. As músicas, sem exceções, são feitas para funcionar e seguem uma estrutura padrão de composição que não vai causar nenhum estranhamento. As músicas, no geral, tem um clima animado, longe do clima deprê de Superunknown, Vitalogy ou mesmo do arrastado e ótimo The God Put Dinosaurs in Here (2013) do Alice In Chains.

Há muita melodia também em músicas como a ótima “The house is on fire”, “The only way out” e as baladas arrastadas “Surrender” e “Eye of the storm”, o que facilita a digestão do disco, do estilo e a reprodução das músicas em rádios mundo afora. Também é o elemento que o Bush sempre deu valor, como ocorre em toda a música britânica. Há também alguns elementos eletrônicos, mas nada que seja suficiente para descaracterizar o som do grupo ou tirar o foco das guitarras, do baixo e da bateria.

Mas eles também bebem na fonte do grunge de Seattle e mostram uma ótima performance na pesada “Loneliness is a killer”, com bons riffs, linha de baixo que carrega a música. Embora existam muitos arranjos de guitarra, o Bush não apresenta muitos solos de guitarra propriamente ditos (a exceção é “Broken in paradise”). E mesmo assim suas músicas beiram ou ultrapassam os 5 minutos de duração.

Após o lançamento de The Sea of Memories, a banda excursionou pelo mundo por dois anos. Fizeram uma breve pausa e voltaram a escrever músicas, mandando o sinal de que o Bush estava mesmo de volta. Rick Raskulinecz é o produtor do disco e manteve as coisas dentro do reino do rock’n’roll, mas Gavin Rossdale, o líder do Bush, não abriu mão de poder fazer canções melódicas. “Você pode ficar superatonal às vezes e isso é legal, mas as melodias são a base do que gosto”, diz ele à Rolling Stone EUA. “Amo o rock, mas gosto quando outros elementos vêm somar, como um híbrido”.

Sobre o título do trabalho, Man on the Run (homem em fuga), Rossdale diz que é o nome mais universal que um disco de sua banda já recebeu. Para ele, todo mundo está “em fuga”, pois com a idade o mundo não é mais cheio de possibilidades infinitas e você começa a trilhar um caminho mais estreito. Então, para ele, é como se todo mundo estivesse em fuga, tentando encontrar seu caminho.

Vale ressaltar que a volta do Bush se resume ao vocalista e guitarrista Gavin Rossdale e ao baterista Robin Goodridge da formação original. Em Man on the Run a segunda guitarra ficou a cargo de Crhis Taynor e o baixo por conta de Corey Britz, ambos já trabalharam no disco solo de Rossdale.

Man on the Run é uma recuperação da sonoridade grunge que deverá encontrar seu público, mas é sobretudo um bom disco de rock, um registro animado e que mantém a roda do estilo girando e abastecida com bons refrãos. Não é um disco que vai se tornar clássico ou que vai virar referência para o estilo, mas é um grunge que soa honesto. Mesmo no século 21, em que tudo parece encontrar seu público, algumas coisas podem soar cafonas e datadas. Não é o caso do Bush, mas aí está o Judas Priest para comprovar.

Bush (1)

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3 comentários em “Bush – Man On The Run (2014)

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