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Nick Cave – 20,000 Days on Earth

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Um drama em forma de documentário ou um documentário que faz uso do drama

Por Lucas Scaliza

20,000 Days on Earth é um dos mais belos documentários sobre a carreira de um artista que já foi feito. O filme não tenta nunca abarcar toda a carreira do australiano Nick Cave, que há alguns anos mora com a esposa Susie Cave em Brighton, nas costa da Inglaterra. Toda a carreira do compositor e escritor é resumida na primeira e criativa cena, em que um contador parte do zero e vai até o 20 mil, mostrando cenas da vida de Cave, com fotos, filmagens ao vivo, clipes, participações em filmes, etc.

Após essa introdução, a primeira cena mostra Cave sem camisa, ao lado da esposa, ambos na cama, envoltos lençóis brancos em um quarto com decoração espartana até onde podemos ver. Quando Nick se levanta, percebemos que se trata do local em que foi feita a foto de capa para seu último disco, Push The Sky Away (2013), que também figura Susie, nua.

Nick cave conversa com seu psiquiatra
Nick cave conversa com seu psiquiatra

O documentário é como um drama. Os diretores Ian Forsyth e Jane Pollard acompanharam as gravações do disco na casa-estúdio La Fabrique, na França, com Nick Cave & The Bad Seeds, e planejaram cenas em que o cantor interage com amigos e conhecidos e é por meio dessas interações – meio planejadas e meio espontâneas – que ficamos sabendo um pouco mais sobre a vida, a obra, os medos, as paixões, as inseguranças e o modo de pensar de Nick Cave.

Embora Forsyth e Pollard tenham planejado muita coisa, e embora o filme também tenha sido coescrito pelo próprio Cave (que é roteirista de cinema e também ator ocasionalmente), percebemos que as reações e as falas do australiano são sinceras. É um tipo de documentário diferente daquele feito nos últimos anos sobre o Pearl Jam, o Foo Fighters, o Rush e sobre o Lemmy Kilmister, do Motörhead. Nesses quatro documentários, os realizadores vasculham a vida e a carreira das bandas rapidamente. Eles sentam e entrevistam os músicos, usam gravações de arquivo e tentam fazer carreiras inteiras caber em 2 horas de filme. É um formato que rendeu bons documentários, mas este de Nick Cave torna-se especial ao fugir desse formato.

Em 20,000 Days On Earth temos bem menos informação sobre a vida de Cave e sobre seus discos e fases da carreira de forma linear. O que se capta são momentos, pensamentos, sentimentos, coisas bem mais raras e de uma forma bem diferente, o que acaba aproximando o documentário de um filme de arte, do tipo que não estranharíamos ver um diretor como Jim Jarmusch (Café e Cigarros, Flores Partidas, Amantes Eternos) realizando.

Nick está escrevendo em seu escritório. Ele escreve em uma máquina de escrever. Atrás dele estão fotografias de sua carreira. O filme nunca para nos explicar cada uma. Ele recebe um telefonema e tem que ir ao psiquiatra. Acompanhamos sua conversa com ele e por meio dela sabemos que Cave não crê em Deus, mas Deus existe no universo de suas músicas. Por meio da falta de palavras do cantor sabemos também o que ele sentiu ao perder o pai aos 19 anos, uma morte que “veio do nada”, como ele mesmo diz. “Devo parar por aqui?”, pergunta o psiquiatra ao notar o silêncio do interlocutor.

Nick Cave e Kylie Minogue

Cave dirige. E de repente Blixa Bargeld, o guitarrista que o acompanhou de From Her To Eternity (1984) até Nocturama (2003), está ali no assento do passageiro. Sem nenhum introdução ele diz que o processo de composição no grupo sempre foi aberto, mas que durante as sessões de Nocturama parecia que Nick tinha tudo planejado já e ninguém tinha muito com o que contribuir. Ele deixa claro que saiu da banda sem ter problema nenhum com Cave e com qualquer outro membro dos Bad Seeds, mas não podia estar mais em duas bandas (além de uma carreira solo experimental, Bargeld fazia parte da banda alemã Einstürzende Neubauten). Em outro momento, totalmente de repente, a popstar australiana Kylie Minogue aparece no banco traseiro e eles falam sobre algumas noções de imortalidade. Em entrevistas para promover o documentário, Cave revelou que fazia muito tempo que não se encontrava com Minogue, com quem ele fez um belo dueto na música “Where the wild roses grow”, do disco Murder Ballads.

Em outros momentos vemos Nick visitando Warren Ellis em uma casa no campo. Ellis é músico, parceiro de Cave no Bad Seeds, no Grinderman e nas trilhas sonoras que compuseram para diversos filmes. Vemos ele visitando seu arquivo pessoal (que parece uma repartição pública, tem até funcionários para organizar tudo para ele) e assistindo o violento Scarface com seus dois filhos gêmeos, ainda crianças. Curiosamente o rosto de sua esposa Susie nunca é mostrado diretamente pelas câmeras de Forsyth e Pollard.

Nick Cave come pizza e assiste a "Scarface" na companhia dos filhos gêmeos
Nick Cave come pizza e assiste a “Scarface” na companhia dos filhos gêmeos

Entrecortando todos esses momentos estão as gravações do excelente Push The Sky Away. Temos uma longa cena com uma gravação de “Higgs Boson Blues”, um novo clássico de sua discografia e cena de um coral de crianças gravando para “Push the sky away”. Uma versão inicial de “Animal X”, que não entrou no disco e só foi liberada no Record Store Day de 2013, também é mostrada, assim como uma gravação prévia de “Give us a kiss”, linda música só liberada este ano. Cave poderia ter preenchido o documentário com várias de suas músicas mais clássicas, mas manteve tudo dentro do contexto e do momento em que disco e documentário foram gravados.

20,000 Days on Earth é, assim, mais como um álbum de fotos. Não é uma cinebiografia, temos apenas flashes e lampejos da história de vida de Cave. Mas o apenas ali no meio da frase deveria estar entre aspas, pois essa mudança de tom e de formato em relação a outros documentários é bastante significante, nos entrega um Nick Cave mais confessional, mais introspectivo e menos exibicionista. É um filme para quem é fã de Cave, com certeza, mas vai revelar um ser humano muito mais do que uma carreira. Assim como as músicas dele são sobre pessoas, este é um documentário sobre um ser humano que, afinal de contas, poderia ser qualquer outro. Mas não é, é Nick Cave.

4 comentários em “Nick Cave – 20,000 Days on Earth

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