2014 Folk Indie Resenhas

Damien Rice – My Favourite Faded Fantasy (2014)

Art

A volta do irlandês e o folk com sensação de imprevisibilidade

Por Lucas Scaliza

A espera foi longa. Oito anos até que o irlandês Damien Rice lançasse oito canções inéditas misturando suspiros, falsetes, violões, violinos, pianos, guitarra e percussão. Como My Favourite Faded Fantasy é apenas seu terceiro disco, é fácil perceber que é também seu empreendimento mais ambicioso.

O estrondoso sucesso de Damien Rice não veio logo que lançou O (2002), seu primeiro disco solo, mas dois anos depois, quando a canção “The blower’s daughter” foi tema do filme Closer (2004) e ficou conhecida no mundo todo. A música ganhou várias versões e só no Brasil foram duas diferentes. De lá até aqui, mesmo famoso e requisitado pela fama que alcançou, Rice não se vendeu ao mainstream e continua fazendo seu folk sofrido e humano, cheio de ritmos de violão e voz embriagada de amor, de dor e de esperança.

My Favourite Faded Fantasy faz um excelente uso dos crescendos. Quando a faixa título começa, você logo pensa que está de frente com mais uma balada melancólica. A voz de Rice parece a de uma mulher. Mas a canção cresce aos poucos e quando você se dá conta, está totalmente embalado pelos batidas suaves do baterista e do dedilhado da guitarra enquanto ele canta repetidamente “O que tudo isso pode ser?”, buscando uma saída de sua tristeza. Quando uma guitarra com distorção aparece por poucos segundos pronta para explodir, Rice segura a mão e deixa o piano dar mais um tempo ao ouvinte. Mas a catarse com a guitarra virá, pode ter certeza.

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Não é apenas na forma musical, com orquestração e crescendos, que Rice mostra que está levando seu estilo aos limites. As faixas são maiores dessa vez. Das oito, metade tem entre 4’30” e 5’30. Há duas que passam dos 6 minutos, outra que ultrapassa os 8 e a ótima “It takes a lot to know a man” chega aos 9’33”, apresentando novas ideias, sobreposições de sons e ritmos, um ótimo refrão, solo triste de violino e um clímax bastante estridente. Damien Rice estaria criando o folk progressivo?

Claro que há faixas mais diretas, prontas para tocar no rádio e derreter corações, como a bonita “I don’t want to change you”. “The box” e “Colour me in” são músicas folk bastante orgânicas. Com isso, quero dizer que basicamente que a batida do violão de Rice não parece gravada separadamente de sua voz e nem milimetricamente planejada, como ocorre na maior parte das gravações para facilitar a edição. Há espaço para as variações. E ambas recebem pouco depois da metade uma injeção de orquestração, elevando a emoção do ouvinte. Um processo bastante parecido com  o efeito que o Anathema e o The Antlers dão às suas músicas em Distant Satellites e em Familiars, seus novos trabalhos.

“The greatest bastards”, um dos singles do novo disco, é o erro de Rice. Difícil entender como foi escolher justamente a faixa mais preguiçosa em um repertório tão bom para tocar nas rádios.  Não que “The greatest bastard” seja ruim, mas não tem o brilho que todas as outras sete faixas possuem.

Um ano após lançar seu segundo disco, 9 (2006), Rice rompeu com Lisa Hanning, que também cantava em seus discos (sim, é dela a voz feminina em “The blower’s daughter”). Foi difícil para o irlandês se segurar. Chegou a afirmar que daria tudo embora – até as músicas, até o sucesso – para ter Lisa de volta. Já era possível ver esse espírito romântico sofredor em O e em 9, e não é diferente em My Favourite Faded Fantasy. Dessa vez ele trabalhou com o produtor Rick Rubin – que já produziu de tudo, desde rap até heavy metal – em Los Angeles e na Islândia, país propício para ser ambicioso.

O vocal de Lisa (que agora está em carreira solo) era bonito, fazia a diferença em diversas de suas canções, mas não parece fazer falta no novo disco. Rice consegue carregar o disco até o final sozinho. “Trusty and true”, talvez a melhor música do álbum, é uma combinação ótima entre canção folk em compasso 3/4 com passagens mais encorpadas. Aliás, a forma como Rice brinca com a dinâmica o tempo todo dá uma sensação de imprevisibilidade, uma sensação que não era tão acentuada em seus registros anteriores.

Damien Rice entra para a lista dos álbuns melancólicos de 2014, mas faz isso com coragem, tentando dar um empurrão na carreira, abandonada há muitos anos, e expandindo os limites de seu folk para que seja uma música relevante nesta década. Dessa vez, pelo menos, parece ter conseguido. Mas será que seu público quer as mudanças?

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4 comentários em “Damien Rice – My Favourite Faded Fantasy (2014)

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