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Boyhood – a trilha sonora (2014)

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Filme tem mais de 50 músicas e apresenta uma ligação interessante com o “The Suburbs” do Arcade Fire

Por Lucas Scaliza

Richard Linklater acerta novamente e faz um dos filmes mais incríveis do ano. Em Boyhood (leia resenha do filme aqui) não há efeitos especiais, não há elenco estrelado, não teve uma divulgação multimilionária e muito menos se trata de um filme que vai explodir sua cabeça. É um filme simples sobre a as relações humanas – entre família, amigos, amor, rituais de passagem – ao longo dos 12 anos em que acompanhamos a vida de Mason (Ellar Coltrane), sua irmã e seus pais separados.

Assim como nosso jovem protagonista, seus pais também estão procurando seus lugares no mundo. Ela (Patricia Arquette) casa e descasa algumas vezes, muda de residência algumas vezes e consegue se formar “para dar uma vida melhor” aos filhos. O pai (Ethan Hawke) vive a solteirice trabalhando onde encontrar trabalho, longe dos filhos a princípio, com ideais democratas e pró-Obama, sonhando em ser músico algum dia – um sonho que será atropelado pela vida, como ocorre na maioria dos casos. E o filho percebe e vivencia tudo isso.

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O filme levou 12 anos para ser concluído, pois o diretor se reunia com a equipe e os atores alguns dias por ano para filmar as novas cenas. Os personagens, principalmente Mason e sua irmã, crescem e aparecem diante de nós ao longo de quase 3 horas de filme.

Um dos fatores mais interessantes de Boyhood é a sua trilha sonora que acompanha as várias fases da vida de seus personagens. A trilha sonora oficial do filme tem apenas 16 faixas, mas ao todo encontramos até 55 músicas na produção, entre canções que são executadas como parte do filme, cantadas pelos personagens ou sugeridas de alguma forma. Logo que começa, ouvimos os inconfundíveis acordeis de “Yellow”, do Coldplay, e aquele conhecido riff de guitarra. Enquanto Chris Martin canta “Olhe as estrelas, olhe como elas brilham por você”, nosso protagonista, com apenas cinco anos de idade, está deitado no gramado olhando o céu.

O disco da trilha sonora incluiu apenas “Deep blue”, do Arcade Fire, em seu repertório, mas “Suburbian war” também aparece no filme com certo destaque. Ambas as músicas são do premiado disco The Suburbs (2010), um álbum que versa sobre a vida simples de pessoas simples na cidade e de como isso pode ser divertido, dramático e deixar uma enorme saudade. E é exatamente esses temas que Boyhood recupera. Quem ouve o álbum do Arcade Fire e quem vê o filme de Linklater tem a oportunidade de espelhar sua própria vida.

Ouvimos “Suburbian war” quando Mason está com Sheena, sua namorada da escola, no carro. A música diz logo na primeira estrofe “Vamos dar uma volta de carro/ Ver a cidade à noite/ Não há nada a fazer/ Mas não ligo se estou com você”. Ouvimos só um trechinho, mas é uma canção que ainda vai falar sobre “deixar o cabelo crescer”, ver a cidade de modo diferente, ver velhos amigos que se distanciam e todas essas mudanças de percepção que ocorrem entre a infância, a experimentação da adolescência e a fase adulta, quando somos chamados – ou coagidos – a racionalizar tudo.

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A bela “Deep blue” aparece nos créditos de encerramento do filme, quando Mason já está com 18 anos e encara a entrada na universidade. Mais uma vez, Linklater e os supervisores de música Meghan Currier e Randall Poster encaixam uma composição que resume toda a situação. “Aqui, no meu tempo e no meu espaço/ E aqui, na minha própria pele/ Posso finalmente começar”, são os versos que abrem “Deep blue”, que apesar do título evocar uma profunda melancolia, fala sobre emancipação. Nessa mesma música, Win Butler canta sobre quando era uma criança e “rezava para uma estrela moribunda”. Lembra o que cantava Chris Martin logo na primeira cena do filme em “Yellow”?

Querem uma relação ainda mais forte entre The Suburbs e Boyhood? O diretor Spike Jonze fez um média-metragem em 2011 chamado Scenes From The Suburbs, em que aproveitava em forma cinematográfica situações, músicas e temas do disco do Arcade Fire. A atriz Zoe Graham participou desse média-metragem e, mais ou menos na mesma época, interpretou Sheena, a namorada de Mason em Boyhood.

A trilha sonora ainda tem The Black Keys (“She’s long gone”), Tweedy (“Summer noon”), The Flaming Lips (“Do you realize?”) e cat Power (“Could we”). O pai de Mason, a certo ponto do filme, lhe dá de presente uma coletânea com as melhores músicas que os Beatles fizeram separados após o fim da banda. A primeira música dessa coleção é “Band on the run”, de Paul McCartney, que também está no filme e na trilha. “Oops… I did it again”, da Britney Spears, não é tocada, mas a irmã de Mason protagoniza uma cena bem engraçada enquanto canta essa música ainda criança, logo no início da história.

Embora seja um filme sobre a família e as relações entre as pessoas, é uma narrativa que discute isso ao longo do tempo, tentando mostrar os efeitos disso tudo na convivência episódica e em arcos temporais. Em 12 anos, não só as músicas da estação mudam (toca “Radioactive”, do Kings of Leon, quando Mason volta para casa beijando uma garota no porta-malas de um carro), mas também os Estados Unidos mudam. Linklater não deixa de fazer transparecer o seu discurso político através da família e do espaço.

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Nos primeiros anos, quando Mason ainda é pequeno, estamos na administração George W. Bush. O personagem de Ethan Hawke deixa claro aos pequenos como é absurda a Guerra do Iraque e do Afeganistão. Ao mesmo tempo, ele é um jovem pai, não casado e sem muitos meios. Dizer que estava no Alasca é uma metáfora para não encarar qualquer subemprego em qualquer lugar menos desprestigioso dos EUA aos conhecidos. A mãe solteira resolve voltar para o Texas, para perto da mãe, e tentar estudar.

Aos poucos vamos vendo ambos se acertarem na vida: o pai consegue uma nova família, torna-se mais responsável, troca o clássico Pontiac GTO por uma minivan (carro de família). A mãe se forma, vira professora universitária e chega ao ponto de conseguir tomar as rédeas da casa sem precisar de nenhum homem para isso. Quando a vida está mais estável para ambos já estamos na administração Barack Obama. Linklater reforça assim a visão de seu país não apenas como uma terra de oportunidades, mas um país que se permitiu melhorar. A doce “Beyond the horizon”, de Bob Dylan, não deve estar na trilha por acaso.

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Guardiões da Galáxia coloca sua excelente trilha sonora a favor da história, ajudando a dar uma cara mais terrena à jornada especial de Peter Quill e nos forçando a ter empatia pelo personagem a partir de sua seleção de músicas e a ligação que elas representam com sua mãe. Em Boyhood há muito mais música que Guardiões, mas elas não assumem esse protagonismo. Mas servem muito bem para marcar a passagem do tempo. É tudo muito recente, e vivemos tudo aquilo que os personagens vivem, mas ainda assim evoca um tipo de nostalgia. A cena em que a irmã de Mason assiste ao clipe de Lady Gaga e Beyoncé para “Telephone” surge como a novidade daquela época. Imediatamente nos lembramos do hype em torno do vídeo na época, das discussões sobre ele, do barulho que causou e de como nos esquecemos dele também.

E aí voltamos à “Deep Blue”, do Arcade Fire, no fim do filme, que canta “Deixe os séculos passar por mim/ Em pé debaixo do céu à noite/ O amanhã não significa nada” para Mason. Mas vale para todos nós. O tempo passa, tudo fica para trás. Ficam a memória e as músicas que pontuam cada momento.

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2 comentários em “Boyhood – a trilha sonora (2014)

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