2014 Diversos Indie Nacional Rap/Hip-Hop

Criolo – Convoque Seu Buda (2014)

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Rap, samba, reggae, Mãe África: a sociologia em forma de música

Por Lucas Scaliza

“Aqui não é GTA, é pior, é Grajaú”. Este é recado que Criolo manda logo na faixa de abertura de seu terceiro disco de inéditas. “E toda noite alguém morre, preto ou pobre, por aqui”, ele denuncia mais a frente. E isso é o que o rap faz de melhor e o que o fez ganhar espaço em comunidades e, no caso de Criolo, entre uma classe média Brasil afora. Mas o recado foi dado: Convoque Seu Buda não será um disco mais acessível ou menos contundente que seus trabalhos anteriores. E é muito bom que seja assim.

(O disco foi lançado na noite do dia 3 de novembro e pode ser baixado gratuitamente no site do artista. Também é possível comprar a versão física por lá).

Rimando e usando de muita melodia misturada ao speech característico do rap, Criolo toca em questões que boa parte de nós conhecemos pelas imagens da tevê, pelas páginas do jornal e dos portais de notícia, mas nem sempre vivenciamos. A desocupação no centro de São Paulo, a Cracolândia, as regras do gueto, a falta de oportunidade, a falta de estrutura e a legitimação dessa classe menos favorecida como gente como qualquer outra e que precisa ser enxergada como parte da sociedade, e não somente como um incômodo problema social para as autoridades. Esses são alguns dos temas em Convoque Seu Buda.

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Quando Tropa de Elite foi lançado, causando enorme alvoroço devido ao contundente comentário social que fazia da PM carioca e da classe média, logo alguém lembrou que tratava-se de um filme, não de um trabalho de sociologia. No caso de Criolo – e de qualquer outro rapper que se preze – isso também é verdade, mas é a voz do gueto/comunidade/realidade que ele representa que tornam a obra ainda mais valiosa. Poucos são os estilos musicais comprometidos com a denúncia social, o rap consciente é um dos últimos nichos para esse tipo de reflexão. Não é um trabalho de sociologia, mas a sociologia está presente, não como ciência e como método, mas como relevância cultural.

Além do conteúdo, o estilo de Criolo aberto à música brasileira o ajudou a ganhar mais espaços, mais públicos e mais ouvidos. Quem era do rap pôde ver valor em algo que não pertencia a esse nicho. E quem não era do gueto pôde conhecê-lo levado pelos sambas ou, mais provavelmente, pela climática “Não existe amor em SP”, sucesso do disco anterior, o aclamado Nó na Orelha (2011). E Convoque seu Buda tem tanto o rap como essas incursões por outros tipos de música brasileira, como o baião, o samba e até algo de new wave. A Mãe África, aliás, está presente o tempo todo.

Enquanto “Convoque seu Buda” é um rap que mistura o tradicional com alguns maneirismos de Criolo (como o refrão), “Esquiva da Esgrima” aposta em arranjos bem feitos, dando espaço para o teclado criar um fundo e a guitarra fazer seus dedilhados e até um riff para o refrão. “Cartão de visita”, sobre o consumismo, é animada, cantada com um certo sarcasmo na voz de Criolo e uma produção mais pop. Participação de Tulipa Ruiz.

“Casa de Papelão” não pode passar despercebida. Atenção à instrumentação: instrumentos de sopro, linha de baixo e uma combinação de percussão e bateria que criam um ritmo que nos remete diretamente à música negra, à música etíope. Marca um novo tipo de sofisticação alcançada por Criolo e sua banda, um atestado da maturidade musical e da boa mão para fundir estilos.

Assim como em Nó na Orelha, Criolo se aventura pelo samba na ótima “Fermento pra massa”, que descreve mais uma situação urbana do homem comum com um subtexto político bem atual (as manifestações, no caso, que interromperam a circulação de ônibus e desencadeia uma reação em cadeia na cidade). “Pegue pra ela”, mais uma remetendo a música etíope, tem suingue e gingado, uma linha de baixo gostosa de acompanhar e arranjos de guitarra bem colocados, sem falar em dois solos carregados de fuzz sobrepostos, uma pegada bem psicodélica. Já “Pé de breque” é um conveniente reggae para um tema muito caro ao estilo: cannabis.

“Plano de voo” é uma das melhores músicas de Convoque seu Buda e tem a participação do rapper Síntese. É um rap, mas com uma roupagem climática, principalmente quando o teclado sobe com acordes catárticos. “Duas de cinco”, rap com speech tradicional, é outra para ninguém colocar defeito. A batida é bem regular, mas há um violão acompanhando as cadências e um trompete jazzista de fundo. É a faixa que já tinha sido divulgada em 2013 no EP homônimo.

“Fio de prumo (Padê e Onã)” fecha o disco novamente colocando o rap de Criolo em alguma vereda africana. Muito ritmo e muitas referências. Aliás, em termos de citações e nomes, Convoque Seu Buda é muito sociológico sim: citam desde personagens bíblicos (Barrabás, Nicodemos), até Nietzsche, Sartre, Ferréz, Perrenound, MC Lon (funk ostentação), a blogueira teen Thassia, Lázaro (Ramos) e o sempre presente Sabotage, ídolo de Criolo.

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Embora Criolo esteja cantando melhor do que anteriormente, considero que a bateria e a percussão são os elementos musicais que mais evoluíram. “Casa de papelão”, “Fermento pra massa”, “Pegue pra ela”, “Duas de cinco” e “Fio de prumo” apresentam batidas e levadas diferenciadas e ricas. O uso dos instrumentos de sopro e o clima etíope de algumas faixas são a maior novidade aqui, lembrando as canções de Mulatu Astatke e até o instrumental da banda Bixiga 70 em seu último disco, 2013.

Convoque Seu Buda tem tanto poder de fogo quanto Nó na Orelha, é até uma continuação estética do segundo álbum, mas com novos elementos e que almeja evoluir musicalmente. Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral, produtores da obra, acertaram a mão. Não há, entretanto, entre as 10 faixas e 40 minutos de som algo comparável a “Não existe amor em SP”. Essa é uma prova de que Criolo não está repetindo fórmulas, apenas levando a frente seu estilo aberto, que tem rap e hip hop, mas tem também samba, baião e Mãe África como influência e força criativa. Isso diferencia o paulistano dos demais rappers e o torna mais universal. Afinal o rap é do gueto, mas o gueto é o mundo.

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8 comentários em “Criolo – Convoque Seu Buda (2014)

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