2014 Resenhas Rock

Pink Floyd – The Endless River (2014)

Cover - Enjoy!

É, sem dúvida, um disco do Pink Floyd. Pode não ser o que você espera, mas é uma vasta e linda paisagem sonora

Por Lucas Scaliza

Desde o momento em que foi anunciado, The Endless River exigia cuidado ao ser pensado e imaginado pelo público. Não deviam esperar um disco no mesmo patamar de clássicos como The Dark Side of the Moon (1973), Wish You Were Here (1975), Animals (1977) ou The Wall (1979).  O tempo de espera por algo novo do Pink Floyd – 20 anos, desde o lançamento de The Division Bell  em 1994 – pode fazer com que fãs e admiradores entrem em polvorosa e criem uma expectativa desmedida sobre o álbum. Oras, o Pink Floyd está de volta, afinal!

Mas vejamos alguns pontos que devem ser levados em conta ao se ouvir e se analisar The Endless River: apenas dois integrantes da banda participaram das gravações: o vocalista e guitarrista David Gilmour e o baterista Nick Mason. O tecladista Richard Wright, falecido em 2008, também participa, mas com as sobras de estúdio que deixou das sessões do The Division Bell. Como esse disco começou a tomar forma em 2012, vale lembrar que Wright não teve como regravar nada ou dar sua opinião sobre seu próprio material. Nas palavras da própria banda (ou o que restou dela), é um disco homenagem ao exímio tecladista. O baixista Roger Waters não teve absolutamente nenhuma participação em todo o processo. Waters estava ocupando ensinando veteranos da guerra do Iraque a se recuperarem de traumas do campo de batalha por meio da música. Mas mesmo que não estivesse ocupado, não o teriam incluído no projeto, infelizmente.

David Gilmour e Nick Mason, os dois remanescentes membros do Pink Floyd
David Gilmour e Nick Mason, os dois remanescentes membros do Pink Floyd

Sem sombra de dúvida é um disco do Pink Floyd como o conhecemos. Logo que a primeira música começa a tocar, que leva o sugestivo nome de “Things left unsaid” (as coisas que não foram ditas), você percebe ecos de “Speak to me”, do The Dark Side of the Moon, e aquele teclado pesado, notas longas, solo de guitarra espacial tão característicos no Pink Floyd, sobretudo em um clássico que atende por “Shine on your crazy diamond”. The Endless River é quase todo instrumental. Apenas a faixa “Louder than words” é cantada por Gilmour. Já “Talkin’ Hawkin’” recebe a voz computadorizada do físico Stephen Hawking falando sobre comunicação, assunto que era o tema de The Division Bell. Tem até uma citação direta, quando Hawking diz “All we need to do is make sure we keep talking”.

O álbum tem 21 faixas. São 18 principais divididas em quatro partes e mais três bônus. Do total, 10 faixas não chegam aos 2 minutos de duração e apenas cinco ultrapassam a marca dos 4 minutos. Leve em conta que Gilmour, Mason e toda a equipe criativa por trás do Floyd compuseram cada faixa a partir de trechos deixados por Wright em meados dos anos 90. Então, não é a toa que uma faixa como “Allons-Y (1)” soe tão datada. Com tantos trechos e tão instrumental, The Endless River soa como uma trilha sonora para filmes com vastidões (seja do espaço, do deserto ou do oceano, como evoca sua capa), ou como uma longa paisagem sonora feita a partir de retalhos.

Gilmour e Mason com o tecladista Richard Wright em 1994. O novo disco é uma homenagem a Wright
Gilmour e Mason com o tecladista Richard Wright em 1994. O novo disco é uma homenagem a Wright

Há espaço para cada um dos três membros da banda que participam do álbum. “Its what we do” mostra os solos inspirados de Gilmour, seus bends bem colocados e aquela tranquilidade característica, sem afobação. Assim como fez 20 anos atrás, brinca com o pedal de whammy. Já faixas como “Ebb and flow”, “Unsung”, “The lost art of conversation”, “Autumn ‘68” (feita com um órgão, um clima de catedral religiosa) e “Calling” destacam a amplitude sonora que a composição de Richard Wright havia alcançado. “Skins” é o momento para Nick Mason brilhar nas baquetas em uma das faixas mais experimentais do disco. É também a primeira vez que Mason é creditado como autor de uma música do Floyd desde o Dark Side, em 1973. Já canções como “Sums”, “Anisina”, as duas partes de “Allons-Y”, “Talkin’ Hawkin’”, “Surfacing” e “Lost for words” dão espaço para todos os integrantes mostrarem sua mágica. No caso de Gilmour e Mason, espere arranjos bem feitos, notas longas e uma caudalosa massa sonora alternando-se com momentos mais introspectivos.

Boa parte das gravações e o trabalho com as 20 horas de músicas revisitadas pela banda aconteceram no Astoria, o barco-casa de Gilmour e também seu estúdio flutuante. Outra parte das gravações ocorreu em outro estúdio, também de Gilmour, em Brighton, na costa inglesa. Os músicos Bob Ezrin (Lou Reed, Alice Cooper, Peter Gabriel) e Guy Pratt (casado com a filha de Wright) gravaram os baixos. As passagens adicionais de teclado são executados por Jon Carin (que já trabalhou em projetos solos de Gilmour e Waters) e Damon Iddins.

É incômodo pensar que este deverá ser o último disco de inéditas de uma banda que influenciou tanto a música e angariou tantos fãs a cada nova geração. Incômodo, pois “Pink Floyd” acabou se tornando mais uma marca do que um nome de banda cujos membros são aqueles que temos para sempre em nossos corações. The Endless River pode não ser o que você espera, mas é lindo. Estranho imaginar que pode não ser só mais um capítulo terminando, mas sim uma história inteira que chega ao fim.

Embora “Louder than words” seja uma música bonita e tenha “aquele” tipo de solo do Gilmour, não tem jeito de faixa que encerra uma história, não tem a força e a grandeza de composições como “Shine on your crazy diamond” (que encerra o Wish You Were Here) ou mesmo de uma “High hopes” (que encerra o álbum de 1994).

The Endless River vai dividir opiniões. Já divide desde antes de seu lançamento. Pode ser que seja melhor compreendido com o tempo, pode ser que seja execrado não como um canto de cisne, mas como um suspiro perto da grandeza da carreira da banda (opinião já expressa por um crítico da New Express Magazine). Mas agora, no calor do momento, tentando levar tudo em conta para a análise, acredito que o Pink Floyd não busca e não precisa provar mais nada. E apesar de às vezes soar anos 90, de remeter a década de 1970 em outros trechos, faz um disco que não deixa dúvidas quanto a beleza, quanto a experimentação e quanto a autoria desse estilo imortal de fazer música.

Pink Floyd

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