2014 Pop Resenhas

One Direction – Four (2014)

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O quarto disco da boy band inglesa é “bom o suficiente”. Se as mensagens do 1D não fazem mais muito sentido, o problema não é a banda, é você!

Por Lucas Scaliza

O quarto disco do One Direction, a boy band anglo-irlandesa, já está entre nós e vai vender muito. Nenhuma surpresa. Niall Horan, Liam Payne, Louis Tomlinson, Harry Styles e Zayn Malik surgiram no The X Factor inglês. O grupo formado por eles após a ascensão televisiva tornou-se uma das maiores revelações, em termos de popularidade e números de venda, daquele país desde que estrearam em 2011 com Up All Night. O caso é que o One Dirction é uma boy band que supre o espaço deixado pelos Backstreet Boys e pelo N’Sync de Justin Timberlake. Embora os Backstreet Boys tenham voltado a ativa, grande parte do público são as adolescentes da década de 1990 saudosas e crescidinhas, já com suas carreiras, filhos para criar e, quem sabe, suas aplicações de botox. Já Justin Timberlake nunca deixou o show business, seja fazendo filmes, música ou simplesmente sendo famoso. Mas com o The 20/20 Experience ele mostrou que está disposto a fazer pop maduro, o que também o retira desse filão explorado muito bem pelo 1D (como o One Direction é conhecido).

O filão do 1D é a música pop para adolescentes, entre 10 e, vá lá, 17 anos, durante aqueles anos de formação da identidade, mas também os anos em que boa parte dos jovens querem estar por dentro e seguem o gosto geral um dos outros, um fenômeno difícil de evadir principalmente quando todos à sua volta (as revistinhas, os sites teens, os perfis de rede social e, claro, seus amigos e amigas) estão escutando a mesma coisa.

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Four, que será lançado oficialmente este mês, não decepcionará os fãs e, principalmente, a enorme legião de meninas que acompanha os cinco meninos. Ao longo de suas 12 faixas, das quais apenas duas ultrapassam os 4 minutos de duração, temos todos os elementos que fazem da banda o que esperamos dela. Melodias bastante assobiáveis, animação, positividade, uma dose comedida de tristeza-de-fossa e muitas promessas românticas (inclusive uma em que os meninos relacionam o “nunca vou te deixar” com síndrome de Estocolmo, no qual a vítima se apaixona pelo sequestrador).

Absolutamente nada em Four vai soar estranho, esquisito ou vai exigir dos ouvidos e do poder de processamento do ouvinte. É um álbum pop e comprometido com a qualidade da diversão e da inspiração que puderem exercer sobre jovens, sem contexto político, social ou qualquer outra preocupação do tipo. A música deles é fluida e bem construída, mas parece familiar demais. Não há uma única canção no álbum que não lembre algo que você já ouviu e que provavelmente você ouvirá uma vez mais em outra oportunidade, outra banda, outra canção. Os mesmos refrãos em coro, os mesmos “o-o-ôs” de sucessos do passado. Desse modo, falta uma voz mais autoral ao grupo em Four, falta arriscar mais e ser comprometido também com a qualidade da inovação artística.

Em diversos momentos é possível comparar o One Direction com o Coldplay, mas em termos de álbum, o Coldplay, que é uma banda de fato, faz questão de colocar em diversas de suas músicas nuances que já se tornaram assinatura da banda como forma de não deixar suas canções tão genéricas. E veja bem: não só o Coldplay é uma banda de rapazes ingleses como também atraem uma quantidade enorme de adolescentes para seus shows, sobretudo com as festivas e coloridas turnês de Viva La Vida/Death And All His Friends (2008) e Mylo Xyloto (2010).

Voltando ao 1D, é preciso dizer que, apesar da falta de pretensão artística, os produtores não erraram a mão. As três primeiras faixas funcionam muito bem para conquistar o ouvinte. “Steal my girl” tem um refrão chiclete que já dá ideia de como as meninas vão cantá-lo em uníssono nos shows vindouros. “Ready to run” também é animada (com um dedilhado de guitarra à The Edge) e “Where do the broken hearts go” é a fossa para baladas, mais uma vez com um grande refrão, feito em coro pelos meninos para ressoar em estádios ao redor do mundo em seus shows.

Não fosse pelo refrão, “18” poderia ser a música mais confessional de Four. Composta por Ed Sheeran, outro ídolo dos teenagers, ela avança sem pressa com uma boa melodia até o refrão, feito sob medida para derreter corações que sofrem de paixonite aguda. Quem sabe, uma das melhores faixas de Four, apesar de ter mais uma daquelas promessas românticas démodés – ”Eu te amo desde que tínhamos 18 anos/ Muito antes de nós pensarmos a mesma coisa”, cantam. E o que dizer de “Fireproof”, em que cantam “Ninguém te ama como eu/ Ninguém me vê, baby, do jeito que você me vê”. Até mesmo Taylor Swift conseguiu maquiar melhor esses temas batidos no seu ultrapop 1989.

Se esses tipos de promessas e clichês não soam mais tão bem aos seus ouvidos, o problema pode não ser o One Direction, pode ser VOCÊ. Talvez você já esteja grande o suficiente e maduro/madura o bastante para procurar alguma música que vá ao encontro de sua visão de mundo atual. O 1D canta para quem ainda acredita que as promessas da festinha de 15 anos vão valer pra vida toda. Sonhar não é proibido, mas é você que decide se seus sonhos comportam a sua experiência de vida e realidade.

Styles, Malik, Payne, Horan e Tomlinson não tocam instrumentos ao vivo. Eles se revezam nas vozes e fazem isso muito bem, cada passo coordenado e ajustado por um coreógrafo. Eles são afinados e cantam bem. A voz deles é como a música que produzem: acessível. Se por um lado não são dados a exibições cafonas de notas altas e cheias de trêmolos – coisa que jurados e público de programas como The X Factor e The Voice amam – também não possuem nenhum timbre diferenciado e nem alguma outra característica que os diferenciem tanto um do outro e do mundo pop. Talvez esteja aí uma grande diferença entre qualquer um deles e Justin Timberlake, que sabe se reinventar. E Chris Martin, que além de se preocupar com as nuances de sua música, tem um timbre de voz bastante próprio e um alcance vocal maior.

Vale ainda fazer um elogio a Louis Tomlinson, que ajudou a compor oito das 12 faixas de Four. Os outros rapazes também participam, mas não com o mesmo vigor de Tomlinson. Uma boy band sempre é uma empresa de marketing comandada por empresários e produtores, por isso dificilmente abre espaço para alguma criação autoral. O resultado final é o que o público espera, não exatamente o que o artista gostaria de expressar. Embora muito pouco do lado “autor” de Tomlinson possa ser visto ao longo de refrãos tão animados e construídos para multidões cantarem, é importante ressaltar a iniciativa dele. Uma pena que seus esforços não diferenciem o novo álbum dos outros três discos do grupo.

Four cumpre seu papel e vai ser um sucesso. É um disco palatável para quem precisa de ânimo e para quem precisa de uma trilha sonora de sonho e fantasia para acompanhar uma fossa ou o desabrochar de seu amor juvenil sem sexo (como se tudo fosse eterno e a vida não aprontasse das suas). Para o gosto médio, tudo deve ser bom o suficiente e familiar. Para quê arriscar?

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7 comentários em “One Direction – Four (2014)

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