2014 Resenhas Trilha Sonora

Interestelar – trilha sonora de Hans Zimmer (2014)

Interstellar

Trilha vai do minimalismo aos arroubos sonoros com ajuda de um órgão de tubos. Mas no centro de tudo está uma composição intimista

Por Lucas Scaliza

No começo, era apenas um ruído intermitente. Começo da criação do mundo? Não, o início da trilha sonora do alemão Hans Zimmer para Interestelar (Interstellar, 2014) filme mais recente do diretor Christopher Nolan.

Ainda que não deixe suas marcas para trás totalmente, Zimmer consegue sim se distanciar de suas últimas trilhas compostas para Nolan, sobretudo na recente trilogia Cavaleiro das Trevas e para o filme O Homem de Aço, filme do Superman dirigido por Zack Snyder e produzido por Nolan. A ambição do diretor em Interestelar é aliar ficção-científica a dramas humanos, exploração espacial e catarse, cérebro e emoção. E a música não podia ser a mesma de um filme de ação de super-herói, épica com baterias fortes e orquestração virtuosa.

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Para Interestelar Zimmer ainda deixa seus crescendos característicos conduzirem a emoção do público, mas aposta em algo mais paciente, mais misterioso. A trilha é um misto de sons que evocam sonhos, como a faixa “Dust”, e algo que soa maravilhoso e inexplicável, como “Cornfield chase”, com suas notas em looping que acabam se tornando recorrentes no filme. Repete-se, por exemplo, na faixa “Day one”, quando nosso protagonista encontra uma base escondida da NASA e recebe a proposta de uma missão tão incerta quanto instigante e inédita.

O filme é um grande spoiler. Difícil escrever sobre ele sem esbarrar em alguma revelação que possa ser capital para a história. Digamos que envolve um engenheiro e ex-piloto que precisou desistir da carreira aerodinâmica para se tornar fazendeiro. Uma praga acabou com a alimentação do planeta e gigantescas tempestades de poeira tornam a vida de quem permanece vivo uma preocupação constante. A NASA foi desativada, pois o mundo precisa comer, não de respostas ou perguntas vindas do espaço. Até a história nos livros didáticos foi mudada. Mas olhar para cima e se perguntar o que há lá na imensidão do firmamento é quase um instinto humano. Cooper (Matthew McCounaghey), o protagonista, não consegue deixar de sonhar com isso. Não a toa a primeira cena do filme é um acidente que sofreu anos atrás, antes de tudo dar errado. E sua filha tem o mesmo interesse científico do pai.

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Embora Nolan seja um realizador cerebral e bastante pretensioso, a trilha sonora não almeja transcender os limites do gênero musical. Embora em certos momentos Zimmer seja mais estridente e pesado, dá para sentir a procura pela humanidade em suas escolhas. “Stay”, por exemplo, é a trilha de um dos últimos momentos familiares do filme, quando a filha pede ao pai que não se vá. É basicamente a mesma nota ruidosa que abre o filme e a trilha, quando Cooper sonha com o acidente. Isso demonstra uma ligação entre ambos – ligação mais profunda (e mais relativa, nos termos da física moderna) – que só entenderemos no último ato. É a música dando pistas das ligações entre histórias e personagens. Mas “Stay” ganha corpo conforme a dramaticidade em cena aumenta. Não se torna explosiva, como nos filmes do Batman, e nem tem um “baaaum”, de A Origem, mas é cortante e enervante.

Enquanto o filme está em solo terreno, toda a trilha é construída de forma a criar ou acompanhar tensões, seja uma briga de pai e filho, o medo de uma tempestade de poeira ou a caçada a um drone. No espaço – e dois terços do filme se passam lá – a trilha ganha contornos mais sci-fi. Zimmer sabe onde está pisando e não tenta reinventar a roda. Além disso, suas características ficam mais evidentes. A entrada no buraco de minhoca, por exemplo, é acompanhada por um pulsação que acaba engolida por sons altos e duros de orquestração.

“Mountains” é uma das músicas mais originais, combinando sons orgânicos (criando uma batida continua) que acaba desembocando em uma parede sonora do tamanho da onde gigante que se abate sobre a nave de Cooper em um dos planetas que visitam. E o órgão de tubo de Zimmer soa poderoso e libertador. A ideia de usar esse órgão, cujo som foi gravado direto de uma igreja em Londres, foi ideia do próprio Nolan. Para o diretor, o uso desse instrumento na trilha sonora desse filme tinha tudo a ver. Segundo Zimmer, o órgão de tubos era a máquina mais complexa inventada até o século 17, sendo superada apenas pelo telefone. “Pense na forma do instrumento: aqueles tubos eram como propulsores de naves espaciais. E poucos filmes, a não ser alguns filmes de terror góticos, tinham músicas escritas para ele”, o compositor justifica.

Já no final do filme, em uma das cenas mais tensa, “Coward” surge mostrando a boa mão de Zimmer no órgão de tubos. Notas que constroem o tema da canção vão sendo substituídas por um fraseado mais rápido e agudo. E há espasmos duros que lembram a materialidade da percussão em A Origem e na trilogia Cavaleiro das Trevas.

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Vários instrumentos, como o piano de “Running out”, soam como se tocados em quartos vazios, reverberando sozinhos. É a típica trilha para filmes espaciais que tenta emular ao mesmo tempo o vazio, a solidão e o mistério da imensidão escura. O teclado em “I’m going home” evoca tudo isso e acrescenta uma desilusão fantasmagórica ao som lânguido e melodioso que executa o tema da composição.

Vale ressaltar que Nolan tenta criar aqui uma ficção científica classe A, mirando alto para 2001: Um Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick, filme em que a trilha sonora é marcante. Mas também o silêncio é marcante nesse tipo de produção, tendo a capacidade de ressaltar o que se passa na tela e testar a paciência e a atenção dos espectadores. Embora tenha 2h45 de filme, a trilha sonora cobre apenas 1h11 de filme.

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Não se trata de um filme intimista. Christopher Nolan almeja coisas grandes, sua ambição cinematográfica é grande. A trilha, ao que parece, sempre parte do minimalista para algo com mais notas e mais intensidade. Não é o mesmo pulso de Atticus Ross e Trent Reznor na trilha de Garota Exemplar. Interestelar também se leva muito a sério, então a música acaba não sendo parte da vida dos personagens como em Boyhood e Guardiões da Galáxia. E essa – digamos assim – frieza é uma característica tanto de Hans Zimmer quanto do diretor Christopher Nolan.

Interestelar é um filme para dividir opiniões. Ao mesmo tempo em que possui diversas qualidades, possui também problemas narrativos que um diretor experiente como Nolan deveria saber deixar de lado. A trilha sonora funciona e tem ótimas sacadas, mas não é tão inventiva quanto a de Reznor e Ross, por exemplo.

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Mas para que não reste dúvidas, a história do filme é sobre pais e filhos, não sobre o espaço em si. A prova disso está na música:

Nolan deu uma história sobre a relação de um pai com seu filho para Zimmer ler e depois escrever uma música baseando-se naquilo. Era uma folha escrita em máquina de escrever. Quando terminou, Zimmer telefonou e Nolan foi até seu estúdio prontamente. O músico tocou a composição intimista pela primeira vez sem olhar para o diretor. O diretor sabe que o filho de Zimmer vai se tornar um cientista, eles são amigos há algum tempo. Ao terminar de tocar, Nolan disse: “Acho melhor ir embora e escrever esse filme”. “Mas que filme é esse?”, questionou o compositor. Pela primeira vez, então, Nolan detalhou para alguém sua ideia e o tamanho do universo que exploraria. Confuso, Zimmer perguntou se sua composição era relevante para aquela história, já que era uma música intimista sobre um pai e um filho. “Sim”, o diretor respondeu, “mas agora eu sei qual é o coração do filme”. Esta pequena peça musical é o tema que ouvimos pouco depois do início e no fim do filme.

Zimmer compôs todas as faixas em seus computadores e com a ajuda de sintetizadores. Ele tocou cada nota. Somente depois de ter uma boa ideia de como cada música ia soar é que encontrou músicos reais para tocar cada instrumento. O órgão de tubos é um Harrisson & Harrisson de 1926, instalado em uma igreja londrina construída no século 12. Roger Sayer, o diretor musical dessa igreja, assumiu a difícil missão de usar o órgão para dar vida às partituras de Zimmer. Usou ainda 34 instrumentos de cordas, 24 sopros, 60 vozes em coro e quatro pianos. Mas não é uma trilha que soa como música clássica. A mixagem final deu uma cara mais sci-fi e um tantinho eletrônica. E é o próprio Zimmer quem toca o piano solitário de “Message from home”, que acompanha uma das cenas mais tristes, pouco antes de chegarem a Saturno e toda a aventura começar.

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8 comentários em “Interestelar – trilha sonora de Hans Zimmer (2014)

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