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Jogos Vorazes: A Esperança pt. 1 – trilha sonora (2014)

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Lorde convoca gente jovem e em ascensão no mundo indie para criar as músicas que acompanham Katniss Everdeen em novo filme da franquia

Lucas Scaliza

O sucesso da série Jogos Vorazes (The Hunger Games) no cinema foi conquistado ao aliar narrativa poderosa e grandiosa no estilo blockbuster, crítica social, distopia futurística e uma protagonista autêntica. Com um material de roupagem pop e com um conteúdo contundente para o público jovem-adulto, os produtores do filme pensam cada detalhe. E assim a trilha sonora assume uma grande importância nesse cenário.

Para Jogos Vorazes: A Esperança (2014), novo filme da franquia, ninguém menos do que a neozelandesa Lorde foi escalada para cuidar da trilha sonora. Se perguntassem por ela antes do lançamento de Pure Heroine no ano passado, ninguém saberia que ela existia. Hoje ela está quase no topo da cadeia alimentar da música indie e mostra muita segurança ao fazer a curadoria dessa trilha.

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Ao longo das 14 faixas, notamos que a trilha tem a cara de Lorde em todas as suas nuances. Música eletrônica, dream pop, hip hop, black music, e até um remix de uma música sua feita pelo rapper e produtor Kanye West, de quem Lorde nunca escondeu ser muito fã. Mas não é em figurões da música pop que a jovem apostou. Acertadamente, ele recrutou nomes emergentes como o trio escocês Chvrches, a americana Ariana Grande, a inglesa Bat For Lashes, Tove Lo, Raury e Charli XCX, entre outros. No geral, todos mostram um trabalho muito bom e que dá um tom mais atmosférico, moderno e soturno ao filme na maioria das vezes.

É preciso assinalar que o filme em si não possui trilha sonora com música pop. A exceção é “Yellow flicker beat”, da Lorde, música tema, que toca durante os créditos de encerramento. No restante, há apenas trilha incidental e muitas, muitas cenas de silêncio. O filme tem menos uma veia de aventura e mais contemplação, jogos políticos e muito sofrimento. O álbum de sua trilha sonora serve, então, como um produto à parte, um complemento ao filme e não parte integrante dele. Diferente de Boyhood, que possui mais de 50 canções pop executadas ou sugeridas dentro do filme, ou de Pulp Fiction e Guardiões da Galáxia, em que as músicas pop tem relação direta com os personagens. Jogos Vorazes: A Esperança Pt. 1 é bastante austero nesse sentido. Não há faixas para acompanhar a dor ou para completar o sentido de alguma ação.

“Meltdown”, assinada pelo Stromae (pseudônimo do jovem belga Paul Van haver), é o típico eletro hip-hop com batida forte e diversas participações, entre elas a própria Lorde e as meninas do HAIM e os rappers Pusha T e Q-Tip. Já o Chvrches combina grooves modernos com a fantástica doce voz de sua vocalista, Lauren Mayberry, e entrega “Dead air”, uma faixa que se sustenta sozinha, independente do filme e do resto da trilha sonora. A sueca Tove Lo, também em ascendência no cenário e que lançou seu primeiro disco este ano, participa com “Scream my name” e seu poderoso refrão e uma letra que tem tudo a ver com a situação de Katniss Everdeen na história da terceira parte de Jogos Vorazes. “Quando eu estiver morta, eles vão cantar sobre mim, vão gritar meu nome”, ela canta.

Já a cantora inglesa Charli XCX convocou o cantor Simon Le Bom, do Duran Duran, para uma pequena participação em “Kingdom”. Música que tem pianos doces, bateria eletrônica e violinos. O produtor Major Lazer trouxe a cantora teen Ariana Grande para o balaio e o resultado é uma música mais festiva, “All my love”, que mantém o apelo jovem e fácil. Diferente da climática “Lost souls”, do jovem negro americano Raury, que carrega a faixa com violões e vocalizações, dando um ar quase tribal à composição.

Tinashé, que nasceu no Zimbábue – mas vive nos EUA há muitos anos, onde tem uma carreira na televisão e nas passarelas também –, contribui com “The leap”, eletropop mais econômico e nada estridente. Em “Original beast”, Grace Jones mistura uma percussão tribal e efeitos eletrônicos com uma guitarra reggae. Na linha experimental temos ainda “This is not a game”, do The Chemical Brothers com vocal do pouco conhecido Miguel e com sampler da voz de Lorde.

E então temos as músicas mais climáticas da trilha, como “Animal”, do produtor sueco XOV (também pouco conhecido) e um ótimo cover de “Plan the escape”, que Natasha Khan, do Bat For Lashes, canta com a gravidade que uma narrativa de tensão pede. E A Esperança Pt. 1 se constrói sobre a tensão antes do embate final.

Além da curadoria, direção e participações especiais nas faixas de seus convocados, a própria Lorde contribui com duas faixas. A primeira, “Yellow flicker beat”, é a música tema de Jogos Vorazes: A Esperança. É fácil identificar os elementos de seu dream pop e seu tipo muito particular de linha vocal. É mais uma faixa que ajuda a construir tensão. E a letra tem também tem ligação com a protagonista Katniss. Aliás, não havia como ser mais óbvio do que o refrão: “Já chega! Esse é o começo de como tudo acaba/ Antes eles gritavam meu nome, agora apenas o sussurram/ Estou me aquecendo/ E essa é a batida centelha vermelha, laranja e amarela/ Que acende meu coração”.

A faixa-tema reaparece ainda mais climática e econômica em “Flicker”, remix feito para a trilha por Kanye West. O rapper tirou a roupagem pop da gravação de Lorde e deixou tudo mais profundo e mais desolador. Por fim há a melancólica “Ladder”, que mostra um lado interpretativo da neozelandesa que não estava em Pure Heroine e serve como ponte musical para o próximo filme, que deve encerrar a história dos distritos de Panem contra a Capital opressora. “Ninguém sabe para onde a escada leva/ Você vai perder tudo que mais amou”, canta Lorde, já indicando os sacrifícios pessoais que a trajetória de Katniss lhe trouxe e ainda trará no derradeiro filme, que estreia em 2015.

Foi uma ótima sacada entregar a responsabilidade para Lorde, que é antenada e não se rendeu ao pop de massas e soube se conectar bem com o espírito do filme. E ao invés de dar espaço aos velhos de guerra, preferiu dar uma oportunidade a quem está começando e ascendendo no cenário musical. Gente jovem e que, na maioria das vezes, acertou bem a mão. Se não é excepcional, pelo menos não prejudica nem o filme (que tem mais silêncios eloquentes do que qualquer tipo de trilha) e nem os artistas envolvidos.

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2 comentários em “Jogos Vorazes: A Esperança pt. 1 – trilha sonora (2014)

  1. Pingback: Raury – All We Need (2015) | Escuta Essa!

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