2014 Eletronica Indie Live/Ao vivo Pop Resenhas

Björk – Biophilia Live (2014)

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Inovação, recriação e proximidade com a música erudita

Por Lucas Scaliza

A era Biophilia, a mais ambiciosas da carreira de Björk, chega ao fim com o lançamento de Biophilia Live, um disco duplo ao vivo que documenta um show da islandesa em Londres, na Alexandra Palace. De 2011, quando o disco de estúdio Biophilia foi lançado, até agora, Björk se lançou numa grande turnê mundial que passou por diversos festivais importantes, uma série de shows solos em Nova York e na capital inglesa e quase passou pela América do Sul em 2012. Bateu na trave: a cantora chegou a confirmar  shows em Buenos Aires e em São Paulo, no festival Sónar, mas cancelou por conta de um problema na garganta. Em São Paulo ela foi substituída pelos veteranos do Kraftwerk. Após uma cirurgia, ela disse que estava cantando ainda melhor do que antes, e seguiu com sua turnê.

O projeto não era apenas musical. Envolvia o meio-ambiente, uma maior consciência dos seres vivos no planeta e no contexto geral do cosmos e o papel da tecnologia em tudo isso. Não a toa, Björk levou “instrumentos” criados especialmente para reproduzir os sons de Biophilia ao vivo, um show de visual e de tecnologia. Lançou também um aplicativo que complementava o sentido ético do projeto.

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Toda a base de Biophilia Live é o Biophilia de 2011 e suas faixas ricas em graves e timbres ameaçadores. Não há entre as 20 faixas nenhum medalhão de seu repertório. “All is full of love”, “Pagan poetry”, “Unravel”, “Hyperballad” e a magnífica “Wanderlust” ficaram de fora. Mas há “Hidden place”, “Isobel”, “Possibly maybe”, “Declare Independence” e “Mouth’s cradle”, todas executadas com os aparelhos e com a estética das músicas do álbum Biophilia. Ou seja, estão um pouco transformadas.

Além de um aparato sonoro inovador e de uma concepção visual bastante afetada, mas que ajuda a representar a história cosmogônica que Björk quer encenar, a cantora está cercada de seu habitual coral de mulheres. Todas as faixas de seu último álbum são executadas ao vivo. “Thunderbolt” com seus ruídos que parecem provenientes de uma série de descargas elétricas; “Crystalline” e seu ritmo complicado que finda com uma bateria eletrônica violenta. A estranha “Hollow”, que vai sendo preenchida aos poucos. “Dark matter”, praticamente carregada pelos vocais de Björk e do coral, tendo como acompanhamento apenas uma espécie de emulação de órgão. Cada canção possui alguma instrumentação diferente e andamento peculiar. Algumas, como “Moon”, “Solstice” e “Virus”, são mais melódicas e acessíveis. Mas a grande maioria são músicas que exigem do ouvinte. Ela chega a usar, em estúdio e neste ao vivo, uma bobina de Tesla, um transformador ressonante inventado pelo cientista Nikola Tesla. Não é para qualquer artista e, imagino, nem para qualquer público.

Já faz algum tempo que críticos musicais listam Björk na categoria de música eletrônica mais por conveniência do que por precisão estética. Sim, ela usa muita programação (e mais ainda ao vivo, para não precisar excursionar com vários músicos diferentes), bateria eletrônica e sons processados por computadores e sintetizadores. No entanto, sua estrutura musical, a forma de cantar e a vanguarda de sua composição a colocam numa região fronteiriça com a música erudita. A princípio, quando se fala de música erudita, pensa-se logo em peças instrumentais executadas por uma orquestra. No caso de Björk, ela até usa partes de orquestra em estúdio, mas a questão é que mesmo os equipamentos eletrônicos não deixam de produzir música – e música ambiciosa. Embora sejam instrumentos usados há décadas na música pop, eles podem sim avançar em direção à música erudita. Acredito que não seja uma questão de QUAL instrumento é usado, mas de COMO e com qual INTENÇÃO.

Biophilia Live apenas aprofunda essa percepção de que a música de Björk tem muito a ver com o erudito. A forma como ela usa as notas graves de seus equipamentos-instrumentos dá uma ideia de como fazer a força da gravidade ser sentida em termos de onda sonora. Algo realmente inovador, embora de difícil assimilação. Mas ao mesmo tempo que diversas de suas faixas caminhem nesse meio-fio, outras ainda se mantém dentro do reino pop. Pelo menos até definirem o que é ser erudito e se toda essa carga de complexidade, ambição e sons intrincados de Björk ainda pode ser chamada, nem que seja de longe, de pop.

“Hidden place” se apropria do coral feminino para substituir os instrumentos que não estão no palco, ao mesmo tempo em que outros ruídos eletrônicos são introduzidos para completar a música. “Isobel” também perdeu aquela batida dançante e ganhou contornos mais sóbrios e econômicos. Falando em economia, a recriação de “One day” é a maior adaptação deste disco ao vivo, tendo que confiar apenas em uma percussão mais tribal e assovios para completar algumas melodias da gravação original. “Possibly maybe” passa pelo mesmo processo de adaptação.

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Uma vez que Björk e sua equipe decidem o que vai excursionar com eles e entrará no palco, todo o resto do repertório é adaptado. Durante a turnê de Volta (2007), seu coral feminino estava munido de instrumentos de sopro. Dessa forma, várias músicas ganharam arranjos para esses instrumentos, diferentes dos usados nas gravações originais. Não deixa de ser uma estratégia interessante e inteligente, capaz de sempre atualizar a música dela e mostrar diversas maneiras de ser recriada. Em Biophilia Live é exatamente o que ocorre.

Desde o princípio, Biophilia Live foi concebido para ser um projeto audiovisual. Embora o disco seja muito bom, seu sentido ético e estético só pode ser completamente aproveitado quando assistido. O visual importa. É mais como uma ópera (outra aproximação da música erudita, veja só) do que um show. Portanto, não deixe de ouvir e nem de VER este disco, que conclui a era Biophilia.

Em 2015 Björk lançará um novo disco de inéditas.

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4 comentários em “Björk – Biophilia Live (2014)

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