2014 Nacional Rap/Hip-Hop Resenhas

Racionais MCs – Cores & Valores (2014)

racionais1

A espera terminou após 12 anos, mas recebemos o disco mais complicado de analisar do ano

Por Lucas Scaliza

Olha, não é que seja ruim, não é que não tenha valor. É que depois de 12 anos de espera por um novo disco do Racionais MCs, esperava-se algo mais contundente. Muitos anos se passaram e muita história os quatro homens teriam para contar. Eles continuam olhando pelo lado de lá – do favelado, do pobre, do negro, do excluído, da margem social – mas não com a mesma lírica que marcou uma geração. Não é que as letras de Mano Brown, KL Jay, Edi Rock e Ice Blue não tenham mensagens contundentes, mas simplesmente não é expressado na maior parte do disco como a pedrada que se esperava. Não tem o peso, o tom e o teor que se espera do reconhecido “melhor grupo de rap” do Brasil. A produção é ótima e esmerada, é verdade, parte concluída nos Estados Unidos… mas não tem o estilo cinematográfico e de documentário. Se ainda não ouviu, não espere nada próximo de Sobrevivendo no Inferno (1997) e Nada Como Um Dia Após o Outro (2002).

Estilisticamente, Cores & Valores é um disco que ou não se decide ou foi conscientemente projetado para ter dois lados. No primeiro, os Racionais fazem um rap nu e cru, com pouca produção, pouca instrumentação e até com faixas de poucos minutos. Quem está acostumado com músicas de 8 a 10 minutos de rap narrativo, logo pensa que faixas com 1 minuto e meio devem ser apenas vinhetas. Mas não, são faixas mesmo. E insistindo na estética anos 90, um rap old school sem almejar invenção nenhuma. Na segunda parte do disco, todas as canções ficam mais coloridas, cheias de instrumentos, produção mais cuidadosa e até mesmo mais melodia.

?????????

Há quem prefira o quarteto como sempre foi. E há quem não ligue e até espere algum grau de inovação e atualização. No vazio musical deixado por eles nos últimos 10 anos, muita coisa surgiu no Brasil trazendo novos ares para o gênero. A lista é longa e não sei se cabe mencionar apelas alguns medalhões que fizeram sucesso até fora do gueto, como Emicida, Rashid, Rael da Rima, Projota e o inventivo Criolo. Cada um deles trouxe novo vigor e novos meios de encarar o rap nacional. Todos reverenciam o Racionais – e também pagam tributo ao Sabotage –, mas conseguiram se desenvolver sem copiar os ídolos. Sendo assim, a questão sonora de Cores & Valores pode ser compreendida como uma tentativa de fazer diferente em um mundo musical que é diferente daquele final da década de 1980 quando o grupo surgiu e que já apresentou muita coisa diferente desde 2002, quando lançaram o último disco de inéditas.

Mas o que parece incomodar de verdade são as mensagens. Há bons versos e eles não economizam na crítica social, batendo na polícia, nos políticos, em todo mundo que finge que não vê a favela e o menino de rua, falam de preconceito e das oportunidades que negros simplesmente são impedidos de ter na vida por causa da cor da pele. De forma mais acessível, o rap do Racionais manda bem em trechos como “Olha só aquele shopping, que da hora/ Uns moleque na frente pedindo esmola” em “Eu compro”. Entretanto, embora fale de racismo e questione se um garoto sem pai, sem perspectivas e negro pode um dia entrar na loja bacana em uma “nave”, depois de citar uma série de carros caros. Fica parecendo que o impasse do negro na sociedade se resume a isso: querer comprar, querer ter bens materiais. Não é um rap ostentação, mas chega a afirmar que o pobre quer coisas de primeira, quer euros e dólares na carteira, roupas de marca e joias. Pode ser só um recurso narrativo para delimitar o tema da música, mas soa como se ser aceito na sociedade é isso, poder comprar e usufruir de artigos de luxo. Uma mensagem meio canhestra no final das contas.

Não é a toa que Mano Brown declarou que havia mudado. De longe, sem questioná-lo diretamente, é difícil saber como e em que ele diz ter mudado exatamente seu pensamento para que seja possível analisar como Cores & Valores parece atestar essa mudança.

No entanto, a armadilha para o Racionais foi montada por seus próprios fãs e por quem se dispôs a analisar os rappers. Em 2009, numa matéria de capa para a Rolling Stone Brasil, Mano Brown mostrou que estava bem consciente desse fato ao dizer: “O Racionais parece ter uma cartilha a seguir e não fomos nós que a escrevemos. Foi a opinião pública. Somos reféns das palavras, mas não posso ser refém de nada, nem do rap. Vamos quebrar. Aquele Mano Brown virou sistema viciado, uma estátua óbvia demais. Pergunta tal coisa que ele vai responder tal coisa. Eu estava mapeado e rastreado”.

Ou seja, a ilusão de esperar um Racionais idêntico ao de 2002 ou de antes ainda é fruto dessa “cartilha” de que fala Mano. O grupo em si não é o que os outros acham que eles são ou o querem que sejam. E aí se cria o paradoxo: o álbum não é tão bom mesmo ou é bom sim, mas o público e parte dos fãs querem ditar o que eles devem ser?

Voltando ao disco, “Eu te proponho” é uma faixa bem feita que parece brincar com a música “Vamos fugir”, de Gilberto Gil. É cheia de ritmo e melodia, embora ganhe contornos mais dramáticos da metade para frente. Já em “O mal e o bem” temos uma das faixas mais melódicas e acessíveis já gravadas sob o nome Racionais MCs. E acredito que isso não seja exatamente algo ruim ou “vendido”, como é possível alguém logo classificar. Porém, o mesmo álbum guarda a gangsta e tensa “A escolha que eu fiz”, que mistura uma boa produção sonora com um estilo mais contundente de se manifestar. “Se eu for para o túmulo, é o mínimo que se espera de alguém”, cantam.

O disco é importante por si só. A volta do Racionais MCs não é coisa pouca. Mas ao mesmo tempo em que se atualizam, também não conseguem tirar o pé do gueto de onde vieram e que sempre retrataram, denunciando as mazelas sociais, econômicas e políticas de tudo mais. Eu poderia ficar em cima do muro e dar a opinião mais sensata possível: cada um pode ouvir e tentar entender o novo momento do quarteto e do rap nacional. Mas acho que isso é fugir da raia. Então aí vai o meu veredito:

Cores & Valores é um bom disco – mas não é ótimo. O Racionais consegue sair da mesmice e até surpreender com bases mais interessantes, mas faltou peso, faltou ser mais dedo na cara, faltou ser mais original na mensagem e fugir dos quilos de chavões que os rappers disparam ao longo das 15 faixas. Ora, se é para ouvir chavão, a gente liga a televisão.

racionais2

4 comentários em “Racionais MCs – Cores & Valores (2014)

  1. Críticas agudas, que já erão esperada de se ouvir em 2014, 12 anos depois! Passou muito tempo né? Muitos de vocês estavam à espera de ouvir um álbum encarnado em che guevara mesclado com fight the power do public enemy, o Brasil não esta preparado para evoluir no rap, o povo brasileiro não acompanha a evolução mas enchem a boca pra falar de papo revolucionário, estão mais adaptado a sertanejo e letras de funk sem nexo algúm, pessoas vivendo em 2014 mas ao mesmo tempo com o pensamento acorrentados em 2002.

  2. Pingback: Emicida – Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa (2015) | Escuta Essa!

  3. Pingback: Elza Soares – A Mulher do Fim do Mundo (2015) | Escuta Essa!

  4. Pingback: Sabotage – Sabotage (2016) | Escuta Essa!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: