2014 Rap/Hip-Hop Resenhas

Wu-Tang Clan – A Better World (2014)

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Rap embalado por muitas harmonias e melodias para falar da degradação de nosso mundo

Por Lucas Scaliza

O mundo do hip-hop norte-americano é extenso, cheio de subdivisões e influências e com popularidade e poder de fogo para influenciar praticamente todos os outros estilos de música desde os anos 90 – nunca devemos perder de vista aquela experiência do produtor Rick Rubin com o DMZ e o Aerosmith, mas recentemente podemos citar o AM do Arctic Monkeys, o You’re Dead do Flying Lotus e até o Lazaretto de Jack White possuem influências e incorporações do hip-hop. Nesta semana também pudemos conferir o Cores & Valores, novo disco do Racionais MCs, que deixou um pouco o estilo que os consagrou de lado para se atualizarem e parecer um grupo mais adaptado para ouvidos, gostos e mercados atuais. O resultado foi um disco morno.

Já os veteranos do coletivo Wu-Tang Clan, que também influenciaram uma geração após terem surgido em 1992, continuam reverenciando o passado e não perdendo a mão para a atualidade no ótimo A Better World, também lançado esta semana. Logo na excelente primeira faixa, “Ruckus in B minor”, você sente o poderio do grupo só na maneira como fazem um speech vigoroso sobre uma progressão de acordes muito bem feita.

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De forma geral, o Wu-Tang Clan não entra na vanguarda do rap e do hip-hop. A Better World não soa como os discos de Kanye West, por exemplo, tentando ser inventivo e criando tendências, mas fazem muito mais do que o básico. “Mistaken identity”, por exemplo, pode se transformar em uma música pop ou rock facilmente se o speech for retirado. Toda a música é construída sobre uma harmonia executada por baixo, piano e riffs de guitarra e até as vozes obedecem às tonalidades propostas pela harmonia. É este refinamento que vi o Racionais perseguir e não encontrar em Cores & Valores. “Keep watch” segue pelo mesmo caminho: se tirar o vocal rap, você tem uma perfeita faixa pop de black music.

A Better World é o sexto disco do coletivo. O grupo começou a gravá-lo em 2011, deu sinais de que o projeto talvez fosse interrompido, mas acabou seguindo em frente sendo finalizado este ano. As gravações ocorreram em Nova York, Los Angeles e em Nova Jérsei, onde o clã tem uma mansão. O rapper RZA participou ativamente da produção de todo o disco mais uma vez. Das 15 faixas, 10 possuem sua produção (sendo “Ruckus in B minor” uma parceria com Rick Rubin). No disco 8 Diagramas (2007), RZA leva crédito por todas as 16 faixas. E no disco anterior, Iron Flag (2001), ele é creditado pela produção de nove das 13 canções presentes no disco.

O palavrório rola solto por mais de uma hora e os comentários sociais dominam os versos. Mas nunca, em hipótese alguma, perde-se a noção musical. Ritmo, melodia e harmonia são importantíssimos neste álbum. Enquanto rola o rap e a crítica social, você ouve uma bateria que não fica repetindo apenas o beabá do groove. Embora bastante pop, “Preacher’s daughter” confia muito em sua instrumentação, principalmente no saxofone e no baixo, sem falar no coro que chuva o refrão de “Son of a preacher man” para fazer aquela citação esperta e bem vinda.

Se o tom do álbum parece muito colorido  para além da metade, encaramos a sobriedade e o tom mais tenso e sombrio da dobradinha “Pioneer of the frontier” e “Necklace”. “Ron O’Neal” mantém a pegada mais sóbria das duas anteriores, mas traz uma percussão mais trabalhada e mais instrumentos para a produção, fechando essa trilogia como uma das melhores faixas do álbum.

A faixa-título ”A Better World” é uma colagem interessante: vocal de rap; base composta por piano, orquestração e percussão típica da black music pop; o refrão foi retirado de uma música soul da década de 1970 que diz “O mundo não ficará melhor”. Uma confusão de estilos e épocas que acaba soando bem no contexto geral da obra. A faixa “Wu-Tang Reunion” segue pelo mesmo caminho em clima de celebração.

Não é um disco pesado. A quantidade de harmonia e melodia é grande e bem vinda, mas esses recursos são pouco usados para criar um clima tenso. Não falta seriedade, mas falta pintar a realidade das letras com cores mais escuras, talvez. Não significa, porém, que seja um disco ruim, pelo contrário. As diversas cabeças pensantes e cantantes do Wu-Tang Clan ainda conseguem produzir rap e hip-hop engajado nos dias de hoje, construindo um disco que fala de um mundo que pode ser melhor, mas que está bastante estragado faz tempo. E embora denunciem o preconceito, a criminalidade, a falta de perspectivas e diversas outras situações difíceis, embalam seus versos numa roupagem acessível e que atesta até alguma esperança. Bola dentro para o clã.

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2 comentários em “Wu-Tang Clan – A Better World (2014)

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