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Charli XCX – Sucker (2014)

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Nem feminista e nem tão bom assim

Por Lucas Scaliza

“Vai se foder, idiota”, canta a menina no refrão logo da primeira faixa de seu primeiro disco, em um clima de festa de debutante. Sucker é o segundo disco completo lançado pela britânica Charlotte Emma Aitchison, conhecida nos palcos como Charli XCX. Seu novo disco, uma ofensa declarada (“sucker” é um dos termos para idiota em inglês), vem com um ar de contestação jovial e vontade de criticar o status quo. Bem contesta bem de leve… você quase não sente.

A balada da faixa introdutória se estende também para a segunda, “Break the rules”, onde ela diz que não quer ir para a escoa e canta sobre dançar na discoteca, onde a moçada fica chapada e se acaba. Embora seja uma música para a pista, há um ritmo e uma progressão de acordes bem simples que lembra punk rock. Uma passagem só ao violão – tocando bem secamente – confirma isso.

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“London Queen”, a terceira faixa, é praticamente um tributo ao punk inglês. Acelerada, guitarra sujinha e com distorção. Na letra ela fala sobre viver nos EUA, viver o American way of life, e levar uma vida de rainha. Há uma certa ironia aqui – a pegada punk rock da canção evocaria isso por si só, mas – que fica clara quando ela canta “E quando estou dirigindo pelo lado errado da estrada, me sinto como o JFK, sabe?”.

Sucker é bem direto. São 40 minutos de música em 13 faixas. Há guitarras e efeitos eletrônicos espalhados por todo o disco. Ela não chega a ser punk e nem eletrônica totalmente, ficando na divisão entre os dois. É bom deixar claro que o público perseguido pela inglesa são os adolescentes, os mesmos disputados a tapa por Selena Gomez, Taylor Swift, One Direction, Ariana Grande e Kate Perry, entre tantos outros. Por isso, as músicas fluem sem muita sofisticação na composição e na estrutura, deixando tudo bastante familiar. O diferencial dela é trazer o punk rock para a música ultrapop de pista. Mas é um punk rock cor-de-rosa, com glamour, com brilho, de salto alto e de Melissa nos pés. Existe a simplicidade e objetividade punk, mas permeado de elementos pop para adolescentes.

“Breaking up” é um rock de termino animado, com clima de festa de colégio norte-americano. “Gold coins” é um exercício de imaginação para o caso da personagem da música, que pode ser a própria Charlotte ou algum garoto/a que esteja ouvindo, ficar milionária. A neozelandesa Lorde, que é amiga de Charli XCX, fez músicas sobre isso também, mas rejeitando a ostentação e denunciando o vazio da situação. Charli é menos safa e apenas imagina docemente, sem querer dizer muita coisa com isso, aparentemente.

“Boom Clap”, “Doing it” e “Famous” dão um tempo na pega Ramones e Sex Pistols para voltar àquela baladinha debutante do início do álbum.

Para fazer este álbum, Charli contou com a ajuda de Rivers Cuomo, do Weezer, e Rostam Batmanglij, do Vampire Weekend. Ela, uma artista do pop indie, recebendo ajuda de dois artistas do mundo indie também. E já falamos da conexão com a Lorde – que até escalou uma música dela para a trilha sonora de Jogos Vorazes – A Esperança Pt. 1. Mesmo assim, percebe-se uma imaturidade bastante grande. Apenas “London Queen”, por conta da referência punk, e “Body of my own”, com um ritmo mais interessante e orgânico, soam mais autênticas. O restante de Sucker deixa um espaço para ser preenchido futuramente.

Charli XCX declarou que o disco é, no geral, para garotas. Ela quer que as meninas sintam-se poderosas e capazes. É um direcionamento bastante pertinente com os dias de afloramento feminista que vivemos. Até mesmo sua turnê pelos EUA se chama Girl Power Tour. Contudo, as letras de Charli não são como as de Lorde – nem mesmo como as de Cuomo – e carecem de melhor conteúdo e melhor escrita. Seja no pop, no punk ou nas letras, Charli XCX se rende sempre ao mais fácil na grande maioria das vezes. Poderia ter sido melhor, bem melhor, para que ela pudesse provar não que as mulheres são capazes de tudo (nós já sabemos disso), mas para mostrar que ela poderia ser uma voz diferente na vastidão do pop descartável. Sucker não consegue ser nem feminista e nem tão bom assim.

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4 comentários em “Charli XCX – Sucker (2014)

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