2014 Folk Indie Live/Ao vivo Resenhas Rock

Jack White – Live From The Bonnaroo (2014)

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Jack entrega um ótimo show de rock e conversa muito com a plateia, conexão que é cada vez mais rara em shows ao vivo

Por Lucas Scaliza

coverA maior parte das apresentações ao vivo de grandes bandas – e até das não tão grandes assim – sofre de excesso de ensaio e programação. Os músicos tocam as mesmas músicas, dizem as mesmas coisas para diferentes plateias de diferentes lugares do mundo e seguem um roteiro que garantem ou um grande espetáculo, como foi a última turnê do Arcade Fire, toda ensaiadinha, ou resulta em algo que apenas cumpre os contratos, como o último show do Arctic Monkeys no Brasil, sem surpresas.

Em tempos de roteiro e shows tão profissionais que esquecem de se conectar com o público, Jack White mostram em Live From The Bonnaroo porque é, sem dúvida, um dos artistas não só mais prolíficos desta década, mas também aquele que encara seu show como uma experiência para  público e para si mesmo. Seus shows nunca são iguais; em cada show, um cover diferente; em cada lugar, uma conversa diferente; só a energia sobre o palco que é sempre a mesma. Não é por acaso que é um dos melhores de 2014. Este ao vivo do guitarrista, produtor, cantor e empresário captura bem tudo isso em uma apresentação dele no Bonnaroo Festival, realizado anualmente no Tennessee, estado dos EUA em que Jack White vive atualmente e abriu a sua gravadora Third Mand Records.

Como se já não fosse bom o suficiente ele abrir o show com “Icky thump”, o poderoso blues rock do The White Stripes, ele emenda a instrumental cheia de fuzz “High ball stepper” e “Lazaretto” em seu impecável repertório, ambas de seu último disco, Lazaretto. Antes de Jack e sua incrível banda de apoio terminarem “High ball stepper”, ele diz para a plateia: “Quem é que faz a música acontecer? É a Rolling Stone ou sou eu e vocês? Só porque eles escrevem sobre isso não quer dizer que façam a música existir. Eu e vocês é que fazemos!”

Jack White - Live From The Bonnaroo1

Após trocar a guitarra pelo violão no fim de “Lazaretto”, diz que entende como o público do festival se sente por ter ficado esperando o dia todo até ele subir no palco. “Sei exatamente como se sentem, meu coração está com vocês. […] Se cantarem essa junto comigo eu não fico bravo, prometo”, ele diz antes de mandar “Hotel Yorba”. Na sequência, a balada “Temporary ground” e o rock de “Missing pieces”.

Enquanto baixo e bateria mantêm o riff inicial de “Steady, as she goes”, dos Racounteurs, Jack tem mais um momento com a galera. Diz que um dia estava dirigindo para sua cidade na época, Detroit, e Brendan Benson pediu a ele depois de um almoço se Jack poderia cantar uma de suas músicas. “Eu disse OK porque não tinha nada melhor pra fazer”, ele conta. “Isso é um aviso para quem não tem nada melhor a fazer”. Contou ao público ainda como Johnny Depp não tinha nada melhor pra fazer e conseguiu o papel em A Hora do Pesadelo. Diz também que sabe que muitos ali estão na faculdade e que os professores vão tentar dizer a eles que livros ler, que filmes ver, que tragédias gregas conhecer e que grandes obras de arte estão em Veneza. “E espero que vocês prestem atenção, porque mesmo que se tornem empresários, advogados, médicos ou algo assim que ajuda o mundo a girar, espero que pensem nessa frase: fico feliz que não tiveram algo melhor para fazer”. E toda essa conversa boa, tão honesta e tão rara em shows atualmente, faz a faixa chegar aos 7 minutos de duração neste disco ao vivo.

E “I’m slowly turning into you” ficou com 11 minutos. O sucesso do White Stripes ganhou corpo com a banda completa de Jack White e não soa repetitiva. E no meio da faixa, ele fala para a plateia sobre agradecer as pessoas pelo trabalho que elas fazem, seja lá qual for o emprego. E sua preocupação social e humanitária é correspondida pela plateia. E a plateia é recompensada com um último refrão vigoroso e apaixonado.

“We’re going to be friends”, outra balada blues do White Stripes, ganhou sua versão extendida pela conversa de White e passou dos 10 minutos. Um dos melhores momentos da faixa nesse show é logo no começo da música, quando Jack diz que conversou com o diretor de cinema Jim Jarmusch, que lhe disse: “Acho que os filmes são tão estranhos. Se um alien viesse à Terra e entrasse num cinema e visse duas pessoas conversando numa tela, o alien diria: ‘então vocês vêm aqui e dão seu suado dinheiro para sentar e assistir a duas pessoas conversando? Por que não fazem isso em casa?” Daí Jack emenda: “Mas acho que é o que fazemos. Se estamos conversando numa sala e colocamos uma melodia na conversa, prestamos mais atenção”.

Já a hora do refrão de “We’re going to be friends” é um dos melhores momentos do show. Jack deixa a plateia cantar o verso que dá nome à música sem seu acompanhamento e se surpreende com o resultado. “Quando você ouve um blues antigo, você os ouve cantar o mesmo verso duas vezes. A segunda vez é porque não tinha mais ninguém lá com eles. Quando vocês cantam isso para mim vocês estão pagando tributo para essas pessoas dos anos 30 que não tinham ninguém para cantar com elas. E eu agradeço muito por isso. […] É a tradição do blues e vocês são parte disso”.

As conversas são o que diferenciam o show e esse registro de Jack White ao vivo. Mas não pense que não há rock’n’roll, blues e country de sobra. Os covers do show foi “The lemon song”, do Led Zeppelin, e o surf rock “Misirlou”, de Dick Dale. Ele ainda tocou “Free at 21”, “Sixteen saltines” e “Love interruption” – todas de seu primeiro disco solo, Blunderbuss (2012) – e as barulhentas “Top yourself” (Racounteurs), “The hardest button to button”, “Hello operator”, “Cannon” e fechou “Ball and biscuit” com um baita improviso de guitarra.

Neste show, ainda era Isaiah “Ikey” Owens o tecladista de White. Durante a turnê no México, em Puebla, Ikey sofreu um ataque do coração e faleceu no hotel. Jack cancelou os shows subsequentes até trazer para o posto Dean Fertita, tecladista do Queens of the Stone Age e do Dead Weather, outra banda da qual Jack faz parte. O feeling de Ikey pode ser conferido neste álbum em faixas como “Three women”, “We’re going to be friends”, “Icky thump”, “Love interruption”, no final de “Steady, as she goes”, “I’m slowly turning into you” e “Alone in my home”.

Por fim, Jack White satisfaz o público com uma versão de blues sujo de distorção para “Little bird” e 10 minutos de “Seven nation army”, ambas do White Stripes. Embora “Seven…” seja sempre a escolhida para fechar as apresentações de White, ele faz com que ela soe orgânica e a reinventa na hora. Nunca é a mesma versão no palco. Nesta do Live From The Bonnaroo, há um momento em que canta sem tocar guitarra, e a plateia é que faz a base da canção, entoando “Ô… ô-ô ô-ô ô… ô…”. É o final perfeito para um show que parece inesquecível para quem esteve lá naquele dia. Vai demorar até que outro headliner converse tanto com seu público.

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5 comentários em “Jack White – Live From The Bonnaroo (2014)

  1. Excelente apreciação!!!!!!!!

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