2015 Folk Indie Pop Resenhas Rock

Father John Misty – I Love You Honeybear (2015)

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Josh Tillman conta a história do mais profundo e mais revelador amor que conheceu

por Lucas Scaliza

Father John Misty parte de onde terminou Fear Fun (2012) e dá um passo a mais em sua carreira. I Love You Honeybear tem todos os elementos do disco anterior, não é uma ruptura e nem uma mudança de direção, mas está ainda melhor e mais maduro do que antes. Não por acaso, é um álbum conceitual que narra as peripécias físico-intelectuais de um personagem chamado Josh Tillman que serve, é claro, como alter ego do cantor e compositor Joshua Tillman, o nome real do barbado Father John Misty.

O folk indie de Joshua Tillman não demora a mostrar a cara, mas os arranjos de violão não estão sozinhos. Mesmo em uma música mais voz e violão como “I went to the store one day” é completada por arranjos de cordas. Sem o arranjo, seria uma clássica canção folk, mas é o arranjo que dá outros sabores à música. E isso ocorre de maneiras diferentes mas com a mesma intenção por todo o disco.

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Definitivamente, não é um disco para se ouvir baixinho. É bastante sentimental desde a faixa introdutória, mas não evoca uma intimidade velada. É mais como se John Misty quisesse compartilhar com você e com todo mundo sua própria história e que acordes escolheu para envolver as suas melodias. Assim, é um folk tão colorido quanto sua capa e que não aposta totalmente em interpretações de coração partido e sofrido, como faz Damien Rice. Contudo, existe um clima meio épico que perpassa todo o álbum, e nisso apenas o disco se aproxima de My Favourite Faded Thing, do Rice. Apesar da comparação, as pegadas de um de outro são bem diferentes.

“I love you honeybear”, que já te fisga de cara, é um exemplo de tudo isso. E caso você não goste dessa música, ou não tenha gostado de Fear Fun, é quase certo que não apreciará tanto o novo trabalho de Tillman. Ele não tem medo de enveredar com bom gosto pela música eletrônica (“True affection”), nem de ser doce (“The night that Josh Tillman came to our apartment”) e nem de ser pop, sempre se mantendo com os dois pés em seu nicho indie. Como passar impune pelo teclado grandioso e pelos backing vocals de “When you’re smiling and astride me”, uma das melhores músicas do álbum. Se a voz de Tillman ainda é a mesma, suas melodias são bem mais bonitas agora.

É bom nunca perder de vista que I Love You Honeybear é um disco conceitual. Segundo o próprio artista e a sinopse publicada pelo selo indie Sub Pop, o personagem/alter ego Josh Tillman passa seu tempo batendo a cabeça contra paredes e cultivando relações bem superficiais com mulheres e que foge de qualquer real intimidade. Então ele conhece Emma (o cantor é casado com uma cineasta chamada Emma Elizabeth Tillman) em um estacionamento e começa a perceber que se expor um pouco pode ser libertador, mas todo o processo de viver e experimentar o amor é bastante doloroso, dividindo-se em duas vertentes: “a primeira é a crença de que o melhor que o amor pode ser é encontrar alguém que é desgraçado do mesmo jeito que você e o ponto final é que o amor não é para alguém que não esteja interessado em encontrar uma companhia com quem sofrer uma transformação total.” Por aí já se vê que Joshua, Josh e Father John estão com ideias profundas para transmitirem por meio de um disco indie pop.

E no meio dessa convoluta história emocional de fundo factual, há uma canção executada em um piano tristonho chamada “Bored in the USA”. Acredito que seu nome, seu tema e seu pessimismo seja uma versão atual e tão sardônica quanto a famosa “Born in the USA”, de Bruce Springsteen, do disco de mesmo nome de 1984. A letra muito bem escrita da canção de Tillman retrata a desilusão com toda a imagem que os EUA tentaram criar para parecerem aos seus cidadãos e ao resto do mundo uma “grande nação”, mas que acaba apenas dopando o americano. E a tirada contra um EUA que só existe em hipocrisia e discurso se completa quando Tillman canta versos duros enquanto uma plateia de sitcom ri, assobia e aplaude. “Oh, entediado nos EUA, salve-me, Jesus branco”, ele diz no refrão. E como se sabe, Jesus, que nasceu no Oriente Médio, nunca foi um branco como a Europa, os EUA e até mesmo o Brasil gostam de retratá-lo.

Enquanto isso, “Chateau Lobby 4 (in C for two virgins)” é animada e descreve a empolgação de Josh com Emma, uma pessoa com algo a mais que o faz querer casar logo. Uma paixão tão arrebatadora que o faz sentir-se virgem, como se tudo antes dela não tivesse sido de verdade. Você sabe qual é a sensação. Mas a festiva “Chateau Lobby 4” é só a segunda faixa. Muita água ainda rolará nessa história.

Embora o disco só esteja sendo lançado agora, Tillman já o tinha todo arquitetado desde o final de 2013, sabendo inclusive que seria um tanto mais vívido que Fear Fun. Acho importante dizer isso porque mostra como ele sabia o que queria e para onde iria. Houve tempo para fazer mudanças, acrescentar o que fosse necessário e retirar as gorduras, se ele quisesse. I Love You Honeybear é o trabalho de um artista consciente do que faz, sinal de maturidade. E pelo jeito não teve gorduras retiradas: o esquema de Father John Misty não foi usar apenas harmonias simples. Não é raro encontrar acordes comuns (como tríades) e acordes mais rebuscados, com inversões de baixo, sétimas, nonas, quartas e outras notas que complementar as boas melodias e dão um ar mais sofisticado. Father John também dá bastante ênfase aos arranjos de guitarra, cordas, teclados entre outros instrumentos. Sem falar nas vocalizações, todas excelentes. Ouça “Strange encounter”, “Holy shit” ou a faixa de abertura para comprovar tudo isso.

Não faz muito tempo, disse que o disco Girls in Peacetime Wanto to Dance do Belle and Sebastian deveria figurar entre os melhores do ano. Bem, ainda pode figurar, mas nem uma semana depois tenho certeza de que Father John Misty, no mesmo cenário indie pop/rock, fez um trabalho ainda mais consistente. I Love You Honeybear não é só um disco para quem for fundo nele. É uma tese informal sobre um dos sentimentos mais complexos e com um potencial autodestruidor tremendo que tanto aprisiona e amedronta quanto quebra grilhões e o faz sentir o melhor prazer que existe – mas que vai te custar bem caro, não tenha dúvida.

É a música não sendo banal mais uma vez.

Foto: Aaron Richter
Foto: Aaron Richter

10 comentários em “Father John Misty – I Love You Honeybear (2015)

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