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Björk – Vulnicura (2015)

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Disco  difícil, como é difícil o processo de cura de uma relação que desvaneceu, mas mantém sua beleza

Por Lucas Scaliza

Após o cerebral Biophilia (2011), uma proposta ambiciosa de misturar tecnologia, música e ciência, Björk está de volta com um álbum muito bom, mas desafiante: Vulnicura. Com apenas nove faixas e tempo médio de seis minutos para cada uma, é o álbum de estúdio mais longo da carreira dela e um dos mais belos, mas há barreiras a serem transpostas para chegar ao coração e alma do disco dessa habilidosa artista. E é um álbum que justamente resgata coração e alma, tratando de uma forma às vezes delicada e às vezes dilacerante da própria separação de Björk do artista norte-americano Matthew Barney e sua luta para encontrar seu lugar como mulher e mãe, pensando e repensando a questão da família e tratando todo o tema como os estágios de um luto.

No processo de gravação, a islandesa trabalhou com o músico The Haxan Cloack, que mixou o álbum inteiro e é muito bom com sons sombrios, e com o DJ e produtor venezuelano Arca, que co-escreveu duas canções com Björk e já trabalhou com Kanye West em Yeezus e com FKA Twigs em LP1. Quem também dá as caras é o compositor John Flynn, conhecido como Spaces, que co-escreveu uma das faixas também. Muitos instrumentos e efeitos que ouvimos na gravação vieram de iPads e apps desenvolvidos especialmente para Björk durante o projeto de Biophilia, mas são usados de uma forma diferente em Vulnicura.

As batidas não reverberam em sua cara, elas vêm de algum lugar mais ao fundo da mixagem. Se em Biophilia a orquestração e as fontes sonoras todas contribuíam com ondas graves que pareciam querer se materializar, dessa vez ela dá preferência para as cordas em boa parte das faixas, e os elementos eletrônicos complementam com batidas e baixos. Ao mesmo tempo em que encontramos uma alma e um coração mais próximo de Homogeniac (1997) e Vespertine (2001), tecnicamente – na produção e na forma de pensar a partitura das canções – encontramos um desdobramento do que ouvimos em Biophilia e nas seções mais exigentes de Volta (2007), como “Vertebrae by vertebrae” e “Pneumonia”. Já o modelo mais pop de seus quatro primeiros álbuns, que em larga medida era mais fácil reconhecer versos e refrãos, foi abandonado. O estilo de compor mudou. A voz no centro, com desenvolvimento bem livre às vezes, e de um lado as orquestrações para propostas melódicas e harmônicas e, de outro, os elementos eletrônicos para percussão e ambientação. E às vezes é tão difícil de identificar os compassos que em alguns trechos eles soam livres. Numerosas outras vezes eles vão se alternando, saltado de 4/4 para 3/4, 7/4 e 5/4, sem falar em padrões mais complicados de identificar.

As duas primeiras faixas são mais regulares, por assim dizer, e até parece que o disco vai ser mais palatável que Volta e Biophilia, mas acaba sendo tão exigente quanto os dois. Não é um álbum fácil de forma alguma. Se parar para prestar atenção, parecerá ainda mais misterioso. Não há uma miríade de elementos sendo usados: é bem fácil identificar inclusive que elementos de orquestra, vocais e eletrônicos estão no álbum. O complicado, o que causa até certo cansaço para quem quer desvendar a música dela, é entender COMO esses elementos estão sendo usados para criar uma música que ao mesmo tempo é só uma continuação do modo se expressar e de compor que Björk já vinha exercitando desde Medúlla (2004) e que é tão diferente de tudo que há no mundo pop.

Stone Milket: uma linda abertura. Começa com uma lenta progressão de notas de um arranjo de cordas (todos esses arranjos orquestrais foram escritos pela Bjork) e a voz da cantora. Aos poucos, sons eletrônicos se unem à composição, principalmente batidas lentas e um baixo bem marcado. A linha melódica da voz é muito bem feita e a interpretação vocal da islandesa é bem característica.

Lion Song: começa com vocal dobrado, às vezes uma das vozes canta uma oitava acima algumas notas.  Mesmo esquema de antes: arranjo de cordas que acompanha a melodia da voz. Isso dá uma cara mais arrastada à canção, mas batidas eletrônicas por volta dos 3 minutos e meio dão ares mais björkescos à faixa.

History of Touches: faixa com a inegável mão de Arca no desenvolvimento e The Haxan Cloack na mixagem final. Soa como se todos os efeitos estivessem ao redor de Björk, e não vindo com ela. Enquanto a voz vem de um lugar bem conhecido, o resto do som brinca. Notas graves que soam como trovões. Tente descobrir o compasso dessa música, é um exercício interessante. Identifiquei trechos em 7/4 e outros em 3/4, mas com certeza existem mais mudanças. Aliás, não acho improvável que vários trechos sejam livres de marcações rígidas.

Black Lake: tem 10 minutos e é a maior música da carreira de Björk em estúdio. A princípio usa o mesmo esquema de “Stone Milket” e “Lion Song”: voz e orquestrações, bem melancólica. As batidas eletrônicas vão ganhando força e presença a partir dos 4 minutos . Ao longo da faixa, ela faz pausas e apenas os violinos, violas e cellos são ouvidos sustentando uma mesma nota. Conforme a música se desenvolve, fica mais evidente as notas usadas fora de escala e a proximidade com a música erudita contemporânea, essa linha não tão tênue que ela traça entre o pop e o clássico moderno.

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Family: mais uma faixa sombria que deve ter a mão de The Haxan Cloack. Camadas de voz: uma ao centro, que sai por ambos os falantes do sistema estéreo, e outra que só nos chega pelo fone do lado direito; e um terceiro canal de voz que só chega pelo lado direito. Às vezes, as três são executadas ao mesmo tempo. Uma harmonia bem dissonante nas cordas. Sofre uma guinada aos 3 minutos e um cello executa notas quase a esmo, criando ainda mais caos. Em seu terço final, a desarmonia das cordas se mantém, criando como uma cama e, por trás, efeitos eletrônicos criam uma bela textura que faz a sonoridade nos atingir como ondas.

Notget: o compasso é 4/4 em boa parte da música, mas há momentos em que o padrão é 5/4 também. As cordas estão dissonantes, mas há uma melodia que se repete, ajudando a criar mais familiaridade com a canção. Os efeitos eletrônicos vão se somando e se aglutinando. É uma faixa que causa um certo desconforto.

Atom Dance: ouça com os fones: é como se uma música clássica ficasse martelando em sua cabeça. Há uma onda sonora que passa do ouvido esquerdo para o direito. “Atom dance” poderia virar um balé, mas a coreógrafa precisa ter atenção: o compasso em 5/4 se mantém em boa parte da faixa (ou seja, ela muda o padrão, de novo) e é fácil de identificar por conta do riff, mas dançar isso é outra história. Com 8 minutos, é uma faixa bem interessante, com a participação do inglês Antony Hegarty, do Antony and the Johnsons, que já cantou com a islandesa em Volta, nas faixas “My juvenille” e “The dull flame of desire”.

Mouth Mantra: densa. Sua voz sendo usada como um elemento de desequilíbrio e fortes arroubos de efeitos eletrônicos evocando um certo futurismo. Um estilo épico, mas não de vitória, é como se fosse um thriller de futuro gravado em 1920 ou 1930. Quando Björk vai fundo na música erudita misturada com eletrônica, a análise fica mais complicada, leva tempo a se acostumar com tudo isso.

Quicksand: em 4/4, a batida é acelerada e as harmonias que se seguem nas cordas são menos dissonantes, embora a escolha da progressão de acordes continue sendo björkesco. Fecha o álbum com a regularidade rítmica, após um tornado de mudanças difícil de acompanhar. Ainda assim, é uma faixa bem climática.

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Ao mesmo tempo em que vai se tornando cada vez mais reconhecida como uma peça chave da música contemporânea, ao lado do Radiohead, Björk vai também se adensando e tornando-se um exemplar cada vez mais único. Ela quer que as pessoas aproveitem sua música, mas um álbum como Vulnicura exige que você goste de música para além dos padrões popísticos. Mesmo o mais aficionado fã de jazz ou de rock progressivo terá que parar para prestar atenção e entender para onde ela está caminhando. Mas com isso não quero dizer que o disco é música para músicos. Se a parte técnica não é o seu forte, use o bom e velho emocional para se entregar a Vulnicura e se deixar levar pela música que ela quis engendrar. Funciona também e, no caso de Björk, é importantíssimo tentar combinar seus próprios sentimentos com os dela.

É música pretensiosa, não tenha dúvida. É quase barroca em diversos momentos, mas rotulá-la assim seria um erro. Há ostinato, seu estilo contrapontístico está presente criando polifonias tão bonitas quanto esquisitas, sombrias e caóticas em vários momentos do álbum. Se o começo de sua carreira dá a impressão de que as músicas existiam de forma mais regular, agora Bjork não tem a intenção de soar fácil. Seu público precisa estar disposto a fazer uma audição e uma avaliação maduras de seu trabalho. É um trabalho difícil, como é difícil o processo de cura de uma relação que desvaneceu.

Se diversos elementos étnicos e jazzísticos combinados com eletrônica nos anos 90 fez a islandesa se apresentar em festivais de jazz pelo mundo, incluindo no Free Jazz Festival Brazil em 1996, agora museus de arte contemporânea, espaços para instalações artísticas e câmaras de concertos clássicos seriam o ambiente mais propício para sua música. Mas cá entre nós, não existe melhor propagação para Vulnicura e para todo o resto da obra de Björk do que bons fones de ouvido.

Bjorkletter

36 comentários em “Björk – Vulnicura (2015)

  1. Muito show esse review, sério! Adorei o álbum e para mim está sendo um dos melhores CDs dela, já que eu tenho uma ligação muito forte com o Homogeniac, e este se aproxima muito.

    • Concordo com você, Mateus. Desde o Medúlla, esse Vulnicura está sendo o meu preferido dela. Une o melhor lá do Homogeniac e Vespertine com essas “técnicas avançadas” do Volta e Biophilia.

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  4. Vulnicura é muito bom mesmo e a maturidade só têm acrescentado positivamente para composição das músicas. Ah, parabéns pelo excelente review, cara!

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  12. que texto maravilhoso

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