Especial Indie Resenhas Rock

Radiohead – The Bends (1995) faz 20 anos

Front

A guinada alternativa começou aqui, mas ninguém esperava o que estava por vir

Por Lucas Scaliza

O que é?

The Bends é o segundo disco da banda inglesa Radiohead, lançado em março de 1995.

Histórias e curiosidades

Pablo Honey, o primeiro disco do Radiohead, teve algum reconhecimento e a música “Creep” tocou bastante, fez sucesso e apresentou o grupo para muita gente. Eram os anos dominados ainda pelo grunge, sobretudo nos EUA, e muita gente achou que seria por aí que o Radiohead se desenvolveria. Mas em 1994 estourou o movimento britpop, lançando uma nova tendência na música inglesa. Em 1995 o Oasis também apareceu para o mundo todo com a balada “Wonderwall”, mas Blur, Supergrass e Elastica também seguiam a cartilha. Mas com The Bends o Radiohead apareceu mais estranho, alternativo, com canções sobre sentimentos complicados e nada animadores. Não era grunge e não era britpop, afinal, uma trilha que desembocaria em OK Computer anos mais tarde.

Em uma entrevista em 1996, o repórter por quê a banda parece se afastar do britpop, embora seja contemporânea ao movimento. “Não gostamos tanto assim de cocaína”, Yorke responde. Johnny complementa: “Somos da cidade errada… Oxford”.

radiohead-1995

O Radiohead ia sair em turnê com o R.E.M e o Soul Asylum, duas bandas alternativas dos Estados Unidos. Uma reportagem da época dizia que enquanto bandas como Red Hot Chili Peppers e Green Day expressavam a personalidade de seus integrantes nas músicas, o Radiohead era um turbilhão de sentimentos diferentes. E não apenas pela total inadequação do rapaz de “Creep”. “O pop esquisito do Radiohead expressa inadequação sexual, temos existencial e raiva extrema – sentimentos que a maioria dos membros da banda tem dificuldade de expressar sem a ajuda de amplificadores e guitarras”, dizia o texto.

“O único momento em que me sinto confortável é na frente de um microfone”, disse Thom Yorke, o vocalista, em 1995. “Sou obcecado pela ideia de que estou perdendo completamente a ligação com quem eu sou e cheguei a conclusão de que não há um Thom Yorke que não seja o cara que faz essas canções doloridas.”

A letra e o clipe de “Fake plastic trees” revisita o tema de “Creep”. O clipe de “Just” mostra uma inadequação que contagia e ainda assim não entendemos bem o que é e por quê. The Bends vinha com temas tão deprê que a revista Melody Maker disse que o Radiohead poderia ter o próximo suicídio ou mártir do rock’n’roll. (Kurt Cobain se suicidara no ano anterior).

“Muita gente acha que é feliz e eles vivem essas vidas chatas e fazem as mesmas coisas todo dia. Mas um dia acordam e percebem que não viveram ainda”, diz Yorke. “Eu prefiro muito mais celebrar os altos e baixos da vida cotidiana do que tentar negá-los”.

É o vocalista quem dá o tom emocional da banda, aquela roda gigante de sentimentos que nunca para de girar. Mas era o baixista Colin Greenwood quem dava os tons musicais da coisa, repensando acordes e ajeitando a estrutura daquilo tudo. Inclusive ao vivo ele não toca solos pré-compostos, preferindo criar algo na hora, improvisar. Se não fosse assim “não seria perigoso e não haveria chance de tudo dar errado”, ele diz. Bem, o tempo mostrou que o seu irmão, o guitarrista Jonny Greenwood, é igualzinho.

O produtor de The Bends foi John Leckie. Ele foi escolhido por ter sido o produtor de Real Life, disco do grupo Magazine de que os ingleses eram fãs (mas Leckie também tinha trabalhado com os Stone Roses e com o Ride). Em 2008 Leckie contou que assim que as másters do disco ficaram prontas, após meses de trabalho cansativo, a banda simplesmente enviou o material para os EUA, para os mesmos caras que produziram Pablo Honey. Leckie se sentiu ultrajado, como se “tivesse dado à luz 12 bebês” que lhe foram tirados. Ele não foi nem convidado para a audição final do disco.

A princípio, Leckie tinha sugerido que eles gravassem no estúdio Manor, que fica na área rural de Oxfordshire (e cujo dono é o fundador da Virgin), mas o grupo achou que era rock’n’roll demais, então foram para o Mickie Most’s RAK, em Londres. Trabalharam por nove semanas lá, Thom chegando às 9h e os outros ao meio-dia. Depois saíram em turnê pela Ásia. Quando voltaram, não gostaram do que tinham feito no RAK e decidiram usar o Manor mesmo. “Depois fui ao Abbey Road para começar a mixagem. Após algum tempo soube que a banda teria dito que foi como se o professor deixasse a classe. Talvez fosse uma coisa da idade, pois eu era 20 anos mais velho que eles. Eles se sentiam mais confortáveis com um assistente de engenharia do RAK, esse cara novo, Nigel Godrich”, contou Leckie. E, como você deve saber, Godrich virou o 6º membro do Radiohead, produzindo todos os outros discos do quinteto e inclusive discos solo de Yorke e fazendo parte de seu projeto paralelo, Atoms for Peace, ao lado do baixista Flea (RHCP) e do percussionista brasileiro Mauro Refosco.

“High and dry”, primeiro single do disco e uma das faixas que permanecem entre uma das mais queridas dos fãs, foi gravada durante as sessões de Pablo Honey, mas descartada por não ser o que a banda queria que fosse. Felizmente a demo foi redescoberta e remasterizada do jeito que estava. No meio de um disco bastante guitarreiro e cheio de efeitos como The Bends, a canção surge com seus violões e fraseados melódicos com um respiro. Mas Yorke não gosta da música.

No âmbito das loucuras, o Radiohead acabou sendo uma espécie de Rush do rock alternativo. Se os caras do Rush não iam para festas, não saiam com prostitutas, não bebiam até cair e nem destruíam quartos de hotel, como se esperava de astros do rock, os caras do Radiohead preferiam livros a festas, ficaram na pacata Oxford ao invés de se mudarem para as badaladas Manchester e Londres e eram amplamente reconhecidos como uma banda educada – com exceção dos surtos de Yorke, que eram bem anotados pela imprensa da época em suas matérias e preâmbulos de entrevistas. Questionado sobre o por quê de os jornalistas sempre citarem sua personalidade volátil (leia-se: explosiva), Yorke responde: “Porque muita gente na minha posição aprendeu a se comportar, só que eu não, e não sou muito bom nisso”. “Acho que as pessoas gostam de popstars calmos”, disse Jonny em seguida. “Como as estrelas de cinema. Elas não podem ser temperamentais, são basicamente uma distração.”

Durante um show no Canadá, um fã insistiu em ter um autógrafo de Greenwood no braço. No dia seguinte, havia uma tatuagem seguindo as linhas da assinatura.

Os quinteto tinham muitas influências musicais diferentes. Mesmo o trip hop dos anos 90, como o Massive Attack, já estavam com a banda desde antes de enveredarem por um caminho mais eletrônico. Sob este prisma não é de se estranhar os elementos do estilo incorporados à sonoridade de Kid A para a frente. E foi Jonny que fez Yorke gostar de jazz.

Ah, e já havia vazamento de informações em 1996, mesmo com os primórdios da internet. Nos estágios iniciais de trabalho para o que viria a ser OK Computer, um entrevistador pergunta sobre as referências a carros nas letras de Yorke e cita o verso “An airbag saved my life”, que está em “Airbag”, primeira faixa de OK Computer.

Yorke: Onde você conseguiu esse verso?

Entrevistador: Todo mundo no mailing list do Radiohead está falando sobre isso.

Yorke: Ah, merda. Deixa pra lá.

Jonny: Essa nem foi gravada e nem filmada ao vivo ainda. (Até hoje o Radiohead tem o costume de tocar algumas novas músicas ao vivo antes de gravá-las e lança-las oficialmente).

Entrevistador: Alguém tem uma fita com isso aí.

Yorke: Ah, merda. Londres!

Músicas e destaques

Planet Telex: faixa que abre The Bends, era para se chamar “Planet Xerox”, mas deixaram a ideia de lado, já que Xerox é uma marca. Única faixa criada durante o processo de gravação do álbum e gravada depois que a banda saiu e bebeu pra caramba. O vocal de Yorke foi gravado com o vocalista deitado no chão do estúdio ainda sob pesado efeito de álcool. Ouvindo o resultado final, dá para acreditar? É uma faixa que já anuncia que o disco será alternativo e mais esquisito, por conta de todos os efeitos de guitarra, teclado e sintetizador que dominam a faixa.

Fake Plastic Trees: uma música melancólica com letra bastante depressiva. Acredito que o sucesso dessa música deixou o estigma de “Radiohead, banda música deprê” que ainda se alastra entre quem não parou para ouvir a banda. A inspiração para a música veio de uma área a leste de Londres que foi projetada apenas com árvores artificiais. Os violões nunca perdem o volume, mas aos poucos a guitarra noise de Jonny ganha espaço e tudo soa enorme. Após passar muitas horas no estúdio, por determinação do produtor Yorke gravou três vezes um guia de voz e violão da música. Ao final da terceira, Yorke chorou.

Just: explosiva canção do álbum com um dos clipes mais interessantes daquele ano. A faixa nasceu de uma competição entre Jonny Greenwood e Thom Yorke para ver quem faria a faixa com o maior número de acordes. Todo aquele riff principal da música são acordes que vão sempre variando de tom e semi-tom até quase o fim do braço da guitarra. O uso do pedal Whammy, que viria a ser característico de Jonny, está neste riff também.

My Iron Lung: a guitarra barulhenta de Jonny Greenwood no final da faixa é um exemplo do estilo torto de utilizar o instrumento que acabou caracterizando músico e banda. A princípio é uma balada com um ar de cinismo (já que se trata de uma resposta ao que o sucesso de “Creep” havia se tornado) que tem arroubos sonoros violentos, como a personalidade do vocalista.

Street Spirit (Fade Out): música que fecha o disco e maior representante da tristeza e melancolia em que The Bends se apoiava. Seu dedilhado em variações de acordes Dó maior, Lá menor e Mi menor é marcante. A música alcançou o 5º lugar nas paradas inglesas, a melhor marca deles até então. Uma bela faixa que soaria bem em qualquer apresentação ao vivo deles de 1995 até hoje.

Passa no teste do tempo?

The Bends é um exemplo de como o Radiohead começou a se tornar uma boa banda de rock que não abria mão de alguma estranheza e mesmo assim sabia esculpir ótimas canções. É o disco que demonstrava evolução, mas que deixava insuspeito o que viria depois – Ok Computer e Kid A. Foi o disco que capturou a admiração do R.E.M. e do Garbage, o que não se joga fora – embora Johnny e Yorke tenham dito que não entendem essa admiração porque, segundo eles, “Não somos tão bons assim” e “A banda deles é melhor que a nossa”. É o que parecia há 20 anos. E hoje?

Sem querer causar polêmica, e respeitando muito toda a trajetória de R.E.M. e Garbage, é possível afirmar que os horizontes do Radiohead foram mais amplos do que o das duas bandas. Com a carreira que construíram, com toda a inovação e ambição sonora que já deixaram como legado para o rock inglês e mundial, não é uma banda que deixe algo a desejar para alguma outra. Aí está a importância do Radiohead e de The Bends, onde foi dada a guinada alternativa definitiva. Um disco que acabou ficando no coração de muitos fãs.

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22 comentários em “Radiohead – The Bends (1995) faz 20 anos

  1. Adoro esta banda ❤ 🙂 e adorei saber um pouco mais sobre eles.
    Beijocas*

    • É uma das minhas preferidas também. Importante lembrar desse álbum de 20 anos atrás porque ainda em 2015 vem coisa nova deles por aí. Vamos ficar de olho! 🙂

      • Sim, Creep ainda hoje passa nas rádios. Não há ninguém que não conheça! 🙂 Uma música que continua a ser lembrada é porque tem de ser de qualidade 😛
        Vamos esperar para ver o que aí vem 😀 muito curiosa…

      • Engraçado, aqui no Brasil simplesmente não toca Radiohead em parte alguma. Só em programas alternativos. E provavelmente nem os alternativos executam as músicas mais recentes.
        Estive em Buenos Aires recentemente e notei que Moby – do mais antigo ao mais atual – é executado em todo lugar: shoppings, locais públicos, na TV, praças. Achei isso incrível!

      • Sim, aqui passa em vários bares. Mesmo os ”normais”. Rádios depende, há delas mais comerciais, mas há sempre horas em que vão passando uma ou outra música mais antiga (por exemplo, há uma rádio que todas as noites tem um programa que é ‘oceano pacífico’ que passa música antiga, calmam interessante). 😀
        Isso é mesmo boa onda, 😀

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