2015 Folk Jazz Resenhas

Bob Dylan – Shadows in the Night (2015)

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Dylan canta músicas já gravadas por Sinatra. Diferente, mas elegante

Por Lucas Scaliza

Dylan, eterno cancioneiro dos e sobre os Estados Unidos, está de volta, três anos após seu último disco, Tempest (2012). Shadows In The Night não é o Dylan político, engajado socialmente e que sempre parece aquele cara com cabelo despenteado, óculos escuros, case de violão na mão e um pé na estrada. Não é o Dylan mítico que construíram para você. Mas é um Dylan com classe e elegante.

As 11 músicas de Shadows In The Night também não são a voz autoral de Dylan. São todas regravações de canções americanas lançadas entre 1920 e 1960 – ou seja, uma fase da música norte-americana em que não havia Dylan (o primeiro disco do compositor é de 1962) –, mas todas que já foram interpretadas por outro grande nome da história da música dos EUA: Frank Sinatra. “Quando você começa a trabalhar essas músicas, Frank tem que estar na sua mente, porque ele é a montanha que você deve subir, mesmo que só chegue até a metade”, disse Dylan na única entrevista que deu e dará sobre o disco.

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O folk rock característico do cantor de olhos azuis brilhantes dá espaço para o jazz e para o blues, sempre de forma muito calma, tranquila, madura, sem pressa, sem arroubos sonoros, sem bateria (mas com uma leve percussão). O clima geral do álbum é mais parecido com os dois últimos discos de Leonard Cohen, Popular Problems (2014) e Old Ideas (2012). A diferença é que Dylan usa sua voz rouca para entoar melodias de fato, enquanto Cohen usa um recurso mais speech e quase narrativo. Também se aproxima do jazz e blues mais comportados da carreira de Tom Waits.

Dylan coloca muita alma e sensibilidade ao interpretar as músicas. Ele, que sempre dá um jeito de reinterpretar suas próprias canções ao vivo, manteve as melodias e características de cada standard escolhido facilmente reconhecíveis. Mas, como acontece com o recém-liberado TV On The Radio do Cee Lo Green, é um álbum que pode conversar melhor com o público americano – que cresceu ouvindo Sinatra aqui e ali mesmo que, como Dylan, nunca tenha comprado um disco dele – ou com quem conhece bem o catálogo do jazz mais acessível e pop do país. Mas nunca é tarde para entrar em contato, caso você seja novo ou virgem nessa seara, e Shadows In The Night pode desempenhar esse papel.

Dylan não tem a intenção de superar ou se aproximar das gravações feitas por Sinatra. Aliás, Sinatra era conhecido como The Voice, tamanha a qualidade do seu cantar, enquanto Dylan canta do seu modo particular e nunca foi reconhecido como grande vocalista ou algo assim. Pelo contrário: sempre se soube – e o próprio artista sempre foi ciente de que – seu potencial vocal é limitado. Mas faz bem o que se propõe dentro de seus limites. “Me comparar com Frank Sinatra? Você deve estar brincando”, ele diz a um entrevistador que diz que fãs de Sinatra poderiam não gostar das interpretações de Dylan. “Ser mencionado na mesma frase que ele deve ser algum tipo de alto elogio.”

Com 73 anos de idade e 36 discos de estúdios, sem contar os vários ao vivo e bootlegs, Shadows In The Night é uma experiência de percurso para Bob. Não acredito que ele vá enveredar pelo jazz em seus próximos lançamentos e nem virar um senhor com a mesma música de Leonard Cohen. Há 50 anos no mundo da música, dar uma mudada de ares é algo natural. Quem esperava algo “mais Dylan” pode curtir o seu Dylan fazendo mais uma experiência de estilo. E ele tem estilo e elegância de sobra.

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8 comentários em “Bob Dylan – Shadows in the Night (2015)

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