Especial Pop Rock

Silverchair – Frogstomp (1995)

Silverchair-Frogstomp

Vinte anos de um dos álbuns mais rock’n roll da década de 90

por brunochair

Era uma vez um bando de moleques que curtiam rock’n roll. Estudavam durante o dia, e tinham o resto do dia para conversar, ouvir música, interagir. Em 1992, quatro estudantes da Newcastle High School (Newcastle, Austrália) decidiram não apenas ouvir música. Queriam também tocar covers das bandas que curtiam, de repente criar alguma coisa nova. É uma história até comum, concordam? E essa é a história do silverchair*, também.

Nessa época, os rapazes (todos nascidos em 1979) tinham treze anos. Daniel Johns assumiu as guitarras e o vocal. Ben Gilles, já nesta época um multi-instrumentista, ficou responsável pelas baquetas. Chris Joannou aprendeu a tocar baixo com Ben Gilles, e em questão de meses já conseguia desenvolver-se muito bem no instrumento. Ficou responsável pelo baixo, portanto.

Ué, mas o silverchair não é um trio? Quem era o “quarto integrante”? Pois é. Antes da banda começar a fazer sucesso, havia um segundo guitarrista na banda, chamado Tobbin Finnane. Tobin precisou mudar-se para a Inglaterra antes da banda ter conseguido alcançar o sucesso que alcançou.

O quarteto, então, estava criado. O nome, de 1992 a 1994, era Innocent Criminals. No início, tocavam covers e ensaiavam na casa do baterista Ben Gilles. Às vezes faziam alguns shows no colégio e em festas, mas preferiam tocar para eles mesmos, sem muita pretensão. Afinal, são apenas garotos do colegial querendo fazer um som, conquistar o coração das garotinhas, ter algum tipo de popularidade.

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Não fosse um concurso de uma rádio, o que seria hoje desta “banda de escola”? Não se sabe. Fato é que Daniel Johns soube que a rádio Triple J estava promovendo, em 1994, um concurso de nível nacional chamado Pick Me: as bandas, para concorrer, teriam que enviar uma música gravada para a rádio. Quem ganhasse o concurso, teria direito a execução desta música escolhida por algumas semanas, em âmbito nacional.

Os três rapazes pensaram: “Por quê não?”. Conseguiram recursos (paitrocínio), gravaram sua música (“Tomorrow”) e aguardaram o resultado. Oitocentas bandas concorreram. E a música vencedora foi… “Tomorrow”, do Innocent Criminals! A história dos vencedores do concurso serem moleques de quinze anos repercutiu. “Tomorrow” começou a tocar na rádio. A TV SBS ficou responsável por gravar um videoclipe da banda. Já no clipe, a banda mudou para o nome que conhecemos hoje: silverchair.

Por seis semanas, a música esteve no topo das paradas australianas. Neste meio tempo, já como parte do sucesso e por conta da excelente qualidade da música, a gravadora Murmur (ligada à Sony Music) deu a oportunidade da banda gravar um EP, em que o single seria “Tomorrow”. Mais três músicas foram lançadas neste EP: “Acid Rain”, “Blind” e “Stoned“.

As músicas do EP possuíam uma qualidade tão espantosa quanto a música ganhadora do concurso. Por conta disso, a gravadora Murmur deu ao silverchair a possibilidade de gravar um álbum de estúdio. Frogstomp nasceu, portanto. O álbum foi gravado no período de 27 de dezembro 1994 a 17 de janeiro de 1995.

Os garotos de Newcastle estiveram sob a tutela do produtor Kevin Shirley. As gravações eram as mais simples possíveis, como se os integrantes estivessem registrando um álbum ao vivo. O produtor apertava o REC, a banda começava a tocar e a música era gravada. Pelos comentários da época, o processo de gravação do Frogstomp foi muito divertido. Daniel, Ben e Chris pediam para o produtor aumentar o volume dos seus instrumentos, e eram prontamente atendidos.

O álbum foi lançado em março de 1995. “Tomorrow” ganhou um novo clipe, desta vez mirando o público dos EUA. Frogstomp (também conhecido como “o disco do sapo”) conseguiu alcançar sucesso nestes dois mercados: tanto na Austrália quanto nos Estados Unidos. A versão americana do clipe começou a tocar sem cessar pelo mundo inteiro, através da MTV. Em 1995, aquele inocente grupo de escola já havia conquistado reconhecimento internacional.

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Disco do sapo ou o disco dos sapos?

Números do sucesso: Frogstomp vendeu mais de sete milhões de discos no mundo todo, além de estar na lista dos top 10 da Bilboard 200 do ano de 1995. A banda excursionou pelo mundo, em turnê com o Red Hot Chilli Peppers. O silverchair demonstrou seu excelente potencial nas apresentações ao vivo. Não tem playback, não! É rock’n roll na veia!

Na época, após o silverchair ter conquistado o mercado americano, começaram a surgir algumas comparações com o grunge norte-americano, sobretudo com Nirvana e Pearl Jam. Mais: após o suicídio de Kurt Cobain, o mercado musical parecia querer preencher esta lacuna, e nada melhor que uma banda jovem, cheia de vitalidade e visceralidade. Fato é que o silverchair também bebeu muito do grunge, mas as comparações com Pearl Jam (por exemplo) irritavam um pouco os integrantes, que diziam ser muito mais influenciados por Led Zeppelin, Deep Purple e Black Sabbath do que por Nirvana, Soundgarden e Pearl Jam.

Vamos às músicas?

1. “Israel’s Son”: A introdução feita no baixo nesta música é matadora, e é o cartão de visitas da banda. É aquele tipo de música que você precisa dar uma respirada no fim, para continuar a audição do álbum. É uma paulada só. Ela foi gravada com guitarra e baixo afinadas um tom abaixo, tanto para a sonoridade ter um aspecto mais “matador” quanto para Daniel Johns ter maior fluência para cantar.

Uma questão um tanto triste desta música é que dois jovens (em 1996) que mataram seus familiares afirmam ter utilizado esta canção como forma de inspiração. O caso deu repercussão, e a banda precisou soltar uma nota afirmando que em momento algum compactuava com qualquer tipo de violência, já que todas as músicas que produziram para este álbum são baseadas em ficção.

2. “Tomorrow”: Música importante da carreira do silverchair, como vocês puderam perceber. Uma música que começa até suave, dá tempo de respirar da paulada que a antecessora impôs. Ganha um peso no refrão, diminui, aumenta novamente e torna-se uma música agradável por ser tudo isso em uma música só. Importante salientar como o silverchair também consegue aliar o rock’n roll com a pitada certa do pop, o que torna a música palatável, agradando diversos públicos.

3. “Faultline”: Mais uma música que começa devagar, despretensiosa, e ganha força durante a execução. Uma letra muito bonita e madura de Ben Gilles/Daniel Johns, uma das preferidas deste resenhista que vos escreve. A música foi executada pelo silverchair no rock’n rio 2001, para a alegria dos fãs antigos.

4. “Pure Massacre”: Depois de duas músicas em que há um certo lirismo, surge outra pancada – mais uma que exige do ouvinte uma respirada longa e profunda antes da música começar, outra respirada longa e profunda quando ela terminar.

5. “Shade”: A primeira baladinha do álbum, pra dar uma descontraída no ambiente, tomar aquele ar.

6. “Leave Me Out”: Voltou a pancadaria. Atentem-se a vitalidade do power trio, o que faz realmente lembrar dos melhores rock’n roll de Black Sabath, Deep Purple. O silverchair consegue aliar o hard rock (stoner rock) dos anos 70 com uma pitada de heavy metal e elementos dos anos 90 – pop e grunge.

7. “Suicidal Dreams”: Mais uma canção que inicia calma, com um solo de guitarra e que ganha laivos de fúria conforme a música vai crescendo. Sobre as letras, a maioria delas foi composta por Daniel Johns e Ben Gilles, e segundo os integrantes da banda “todas baseadas em aspectos ficcionais”.

8. “Madman”: Essa música é instrumental, se não contarmos o Madman dito no fim dela pelo Daniel Johns. Interessante que ela surgiu assim no álbum, mas ela conta também com uma letra, e foi lançada no material B-Side em sua versão cantada.

9. “Undecided”: Fala sobre a condição de um filha após a separação dos pais. A letra é bem interessante, mas a música é a mais apagada do álbum.

10. “Cicada”: Outra canção rock’n roll que o resenhista que vos escreve cantava a plenos pulmões, lá pelos fins da década de 90. Não emplacou como “Tomorrow”, “Israel’s Son” e “Pure Massacre”, mas se for analisada sob a luz do rock’n roll, é uma das mais empolgantes.

11. “Findaway”: Aceleradíssima, para fechar o álbum com chave de ouro. Também, uma excelente canção.

O álbum passa no teste do tempo?

Sim. Ainda hoje, o silverchair é lembrado por seus primeiros três álbuns, Frogstomp, Freak Show e Neon Ballroom. O primeiro álbum mostra uma banda executando um rock mais orgânico, próprio de rapazes interessados tão somente em botar pra quebrar. É essa vitalidade que impressiona a todo e qualquer ouvinte, mesmo que este não tenha acompanhado o surgimento da banda na década de 90.

A música “bate forte” em qualquer adolescente que esteja começando a escutar rock, pois é o que há de mais puro. Entretanto, Frogstomp não para na questão da pureza: apresentou ao mundo três ótimos instrumentistas e dois ótimos compositores, o que faz deste álbum um clássico do rock.

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* segundo os integrantes da banda, o nome silverchair escreve-se com letra minúscula. Por muito tempo, o trio preferia não explicar sobre o motivo do nome da banda, apenas dizendo que “silverchair soava melhor que Innocent Criminals”. Somente nos anos 2000 é que surgiu uma resposta oficial: o nome da banda (silverchair) é uma alusão a um dos livros da série “As crônicas de Nárnia”, de C.S. Lewis.

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10 comentários em “Silverchair – Frogstomp (1995)

  1. É um disco bastante orgânico de uma banda bem despojada ainda em 1995. O que acho legal em “Frogstomp” é que, para um primeiro álbum, já há muitas ideias legais quanto a estrutura das canções que geralmente só vemos bandas começarem a executar do segundo disco em diante, quando já estão mais experientes e cientes do que podem fazer. E se pensarmos nos últimos dois disco do Silverchair, veremos que essa questão foi levada a cabo pela banda até o fim (é, eu gosto do Young Modern).
    Outra coisa: o vocal do Daniel Johns em Frogstomp é uma sombra do que viria a se tornar a partir de Neon Ballroom. Mas essa limitação técnica e temporária do vocalista ajudou a dar uma cara mais crua e orgânica para a banda.
    Não sei se é um dos discos mais rock’n’roll da década de 1990 porque existiam muitas coisas acontecendo na época, mas é o disco que fez a Austrália entrar no mapa do rock moderno (para a época) e não ficar presa apenas ao AC/DC – que sempre fez seu blues rock clássico ardidinho – e nem ao Nick Cave (que embora fosse australiano, era muito mais europeu em seu som).
    Aprendi mais do que sabia sobre Frogstomp até agora lendo essa resenha, e aí a importância do disco salta aos olhos, e vejo que o que esse trio iria se tornar depois já estava um pouco contido no primeiro disco.

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  5. helsonluiztrindade

    Eu acho esse disco muito bacana! Ouvi muito quando era mais novo.
    Acompanhei o Silverchair até o Diorama. Até tenho o Young Modern (2007) mas não gostei muito da mudança no som.

    • Obrigado pela msg, Helson! O único disco do silverchair que eu não sou chegado é o Diorama. O Young Modern Station desceu até legal pra mim, pra falar a vdd. E você ouviu o disco novo do Daniel Johns? Completamente diferente do silverchair, veja só: https://escutaessablog.wordpress.com/2015/05/22/daniel-johns-talk-2015/ abraços

      • helsonluiztrindade

        Bruno, eu não ouvi o disco solo do Daniel, mas vi esse clipe da caixa de areia e do escorpião e tals, mas não é só porque é diferente do estilo que eu curto que eu não saberia reconhecer um bom som.
        Daniel terá uma carreira brilhante na sua nova fase. Um pop gostoso de ouvir, diferente desses artistas vazios da nova geração. Mas eu fico aqui com a saudosa banda dele.

        Abraço.

        Não deixe de me fazer uma visita: acervodohelson.wordpress.com

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  8. Depois de ler esta resenha só me resta dizer: QUE SAUDADE DO SILVERCHAIR PQP! haha Grande banda, grande disco! Minha faixa preferida é “Suicidal Dream” 🙂 Acho lindo o quão orgânico e visceral é este álbum! Anda vai ser escutado por MUITAS gerações eu espero! Faça resenha dos demais discos se puder!

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