Especial Folk Resenhas Rock

Bob Dylan – Blood On The Tracks (1975) faz 40 anos

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Um dos melhores discos da carreira de Bob Dylan mantém seu mistério e sua universalidade 40 anos depois do lançamento

Por Lucas Scaliza

O que é?

Blood On The Tracks é o 15º álbum da carreira de Bob Dylan, lançado em janeiro de 1975.

História e curiosidades

Bob Dylan já era uma figura de respeito nos Estados Unidos e fora do país na década de 1970 após ter sacudido o mundo na década anterior. Primeiro com seu violão. Depois com guitarra e banda completa, o que não foi bem recebido a princípio pelo público folk dos EUA. Mas em 1975 a versão elétrica de Dylan já estava bem digerida e aceita. E já era o tempo em que Dylan preferia não falar de política. Ora, não era folk old school mas ainda havia muita honestidade e temas adultos em suas letras.

Em 1974, a relação de Dylan com Sara, a esposa com quem permaneceu casado por doze anos, começou a se desfazer (ele havia conhecido Ellen Bernstein, da Columbia Records, com quem teve um relacionamento). Assim canções como “Tangled up in blue” e “Shelter from the storm” falam sobre isso: o amor e a perda, entre outras aflições universais. E canções como “You’re a big girl now” e “If you see her, say hello” são as mais diretamente ligadas ao seu estado conjugal. Era um momento turbulento para Dylan e nem ele fazia muita ideia do que acabaria acontecendo – nem com o disco e nem com a sua vida. Anos mais tarde, Jakob Dylan, filho do compositor, diria que Blood On The Tracks parecia seus pais conversando. Entretanto, da parte de Dylan, nunca ficou absolutamente claro se é mesmo um disco baseado nos desarranjos de sua vida pessoal, mas certamente isso deve ter pesado sobre o resultado final.

O disco, por exemplo, começou a ser gravado em Nova York e justamente quando a gravadora estava prestes a lança-lo, Dylan resolver regravar muita coisa com outra banda em Minneapolis. Por fim, metade do disco é das sessões nova-iorquinas e metade das sessões na Pequena Maçã. Além de Dylan, que compôs todas as músicas e letras, tocou violão e gaita, as sessões contaram com seis guitarristas (incluindo um banjo), dois baixistas, dois bateristas, três tecladistas e um cara só para o bandolim (na banda de Minneapolis). Curiosidade: os músicos das duas cidades se reuniram em 2004, 30 anos depois das gravações originais, e fizeram um show especial (com ingressos esgotados) em Minneapolis executando todas as músicas de Blood On The Tracks. O grupo acabou repetindo a dose nos dois anos seguintes.

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Blood On The Tracks acabou se tornando um dos trabalhos mais icônicos da discografia de Dylan, mas levou algum tempo até que se acostumassem com ele e enxergassem além da aparência. A recepção ao disco teve entusiastas clamando ser um dos melhores até então do compositor e teve até quem reclamou da instrumentação, achando-a ineficiente e preguiçosa – o que não se sustenta, pois o instrumental do disco, de qualquer uma das duas bandas, é excelente.

Muito se falou sobre este álbum. Ele tem vitalidade, beleza e letras que discursam sobre infinitas nuances do amor de uma forma bastante madura, mas sem perder o jeitão rock’n’roll e de homem comum de tratar o assunto. Erling Aadland, professor de literatura comparada da Universidade de Bergen, na Noruega, escreveu um ensaio sobre o amor nas letras de Dylan, dizendo como o tema aparece de diversas formas em seus discos e retratando diferentes períodos da vida de um casal. Aadland diz que os estudos de arte que Dylan tomou com Norman Raeben fizeram com que ele ficasse mais autoconsciente sobre sua própria condição e ganhasse maior entendimento sobre o conceito do tempo, passando a não seguir mais apenas uma forma linear de contar histórias, mas podendo agora mesclar passado, presente e futuro, sabendo lidar com saltos temporais. Afirma ainda que o Dylan dos anos 70 deixou para trás o ideal romântico do amor que nunca acaba em favor de um tipo mais desiludido que não ignora a temporalidade do amor nas relações humanas – o que o levou a sentir “a necessidade de outras e maiores percepções sobre o amor”.

Para Aadland, o tempo e a atemporalidade são grandes temas das letras. “o passado existe no presente e a insistência do amor eterno entre os sexos se foi”, escreve em seu ótimo ensaio. Ele cita o ponto de vista de Gill e Kevin Odegard, que defendem o ponto de vista de que o disco é resultado do fim do casamento e que, assim, Dylan deu as bases para o que seria então a “escrita musical confessional” que temos até hoje, em que as revelações pessoais do autor ficam “meio escondidas atrás de uma cortina de ficção, […] alegorias e mudanças na escala temporal”. No entanto, no encarte do disco Biograph de 1985, Dylan afirma que não escreve músicas confessionais. Será que dá para acreditar?

E claro que há também toda a interpretação política a partir do álbum. Mesmo ele não tratando de temas sociais ou fazendo comentários diretos sobre o estado de seu país ou coisa que o valha, há uma interpretação de Riley citada pelo professor norueguês que defende Blood On The Tracks como um disco que simboliza os anos 70 se divorciando dos anos 60, no sentido de superar a estética e o direcionamento político da arte que se fez nessas duas décadas. “No anos 70, o otimismo e o espírito rebelde dos anos 60 está partido, a crise econômica e resignação ignomiosa do presente Nixon (em agosto de 74) colorem a época. E os inovadores do rock dos anos 60 agora estão na meia-idade”.

Muito mais poderia escrever sobre as interpretações acerca do álbum, mas acredito que o ensaio faz isso muito bem, com muitas citações e detalhes importantes. Também a relação de Dylan com Sara poderia ser mais explorada nesta resenha especial, mas acredito que esta matéria publicada no aniversário de 30 anos do disco tem muito do que você precisa saber para talvez completar o quebra-cabeça emocional e artístico que é Blood On The Tracks.

Por fim, a história da fotografia da capa do disco. Sim, a capa não é uma ilustração, mas sim uma fotografia manipulada numa época em que nem se sonhava com a invenção do Photoshop. Não foi nada planejado. O fotógrafo Paul Till conta que tinha 20 anos na época e estava bem a par da carreira de Dylan. Em janeiro de 1974 ele foi a um show do músico e ficou relativamente perto do palco, fotografando um show pela primeira vez, munido de sua Leica III e uma lente Canon 135 milímetros emprestada do pai de um amigo de sua irmã. Na época, Paul Till revelava as fotos em branco e preto com alto contraste – uma mistura de duas técnicas chamadas efeito Sabbatier e linhas Mackie – e depois as coloria manualmente com uma tinta que era absorvida pelo papel fotográfico.

Então Till reuniu essas fotos que havia tirado e manipulado e enviado para o escritório de Dylan no outono de 1974. Till soube que Dylan viu as fotos e as achou ótimas, mas nunca recebeu uma carta em resposta ou qualquer tipo de feedback. E a foto acabou na capa de Blood On The Tracks. Parece uma ilustração, mas não é.

Músicas e destaques

Tangle Up in Blue: é a faixa mais representativa deste momento da carreira de Bob Dylan, onde a narrativa é não linear (e por isso, intrigante, não deixando claro a quem o “she” se refere com certeza e a qual momento da vida dele, se é que é a vida dele ali e se é que existe apenas uma “she” na questão). Há também quem veja toda essa trama como alegoria: ela não fala de relacionamentos, mas de história e eras acabando e mudando, na verdade. E tanto música e letra apresentam as nuances ricas de seu estilo de compor, agora com mais liberdade no uso da temporalidade.

Idiot Wind: uma faixa vigorosa e com a verborragia típica de Dylan assumindo uma energia de urgência, um passo como quem faz um hino. Mantém o ritmo por quase 8 minutos, encerrando-se com um solo de gaita do cantor.

Meet Me In The Morning: um típico blues elétrico, com um baixo bastante presente e uma guitarra fazendo solos e os fills para a harmonia. Aqui percebe-se não só o estilo próprio de Dylan, mas também pitadas do rock psicodélico e bluseiro da época, como aquele feito por Jimi Hendrix.

Shelter From The Storm: um folk country, com baixos bem marcados na cabeça de cada tempo, com referências bíblicas. É, em parte, a história de um homem ferido que compara seu sofrimento aos de Cristo. O nome foi retirado do capítulo 32 do livro de Isaías e Jerusalém surge disfarçada de “hilltop village”. Como anota o professor Aadland, muita gente crê que “essa faixa seja o clímax do disco, pois destaca um aspecto do amor perdido que falta às outras: a história que se encaminha para o rompimento e a separação.” Há muitas interpretações possíveis aqui, e parte de uma delas é que, se for mesmo biográfica, a faixa toma o acidente de moto sofrido por Dylan que o tirou de cena por um tempo e os problemas que enfrentara na década anterior, encontrar “um abrigo da tempestade” em Sara, que ficou ao seu lado todo esse tempo. Mas mesmo assim, o amor, ele sabe e se culpa por isso, pode acabar.

Passa no teste do tempo?

Se todo o mistério sócio-político-amoroso e biográfico não resolvido até hoje, 40 anos após seu lançamento, não te convenceram, então você só poderá ter uma saída: ouça as músicas, leia as letras com cuidado e atenção, conheça mais da história de Dylan em 1974 e tire suas conclusões. Não há nenhuma certeza ainda hoje e parte da diversão de Blood On The Tracks tem sido pensar nessa miríade de possibilidades e como elas indicam o tamanho da obra de arte que Dylan criou. Apenas 10 canções, mas contendo um pequeno mundo que pode ser o de qualquer um de nós.

Sempre houve um caráter popular na música de Bob Dylan, o que quer dizer que seu linguajar não é empolado e nem seus temas são abstratos demais para que o homem comum não entenda suas palavras. E Blood On The Tracks trata tudo isso com um verniz muito bem feito, em que palavras simples e uma instrumentação bastante orgânica dão conta de colorir contos com vários níveis de interpretação. Seja o álbum biográfico ou não, são temas universais retratados em suas faixas.

Interessante notar que em 1975 ele estava retratando em um álbum musical as aflições de um casamento chegando ao fim e várias outras questões que surgem no embalo, como a não linearidade dos fatos na hora de apresentá-los (passado, presente, que diferença faz?) e a recusa da crença de um amor idealizado. Exatos 40 anos depois, fora todos os discos confessionais já lançados após Blood On The Tracks, temos Björk e seu Vulnicura e o of Montreal e seu Aureate Gloom, ambos construídos no limiar de relacionamentos correndo e caindo num profundo abismo. Tema universal e, temos certeza, atemporal também.

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3 comentários em “Bob Dylan – Blood On The Tracks (1975) faz 40 anos

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