2015 Eletronica Rap/Hip-Hop Resenhas

Big Sean – Dark Sky Paradise (2015)

bigsean

O jovem Sean Anderson mostra maturidade musical em faixas muito bem produzidas

Por Lucas Scaliza

Se fosse um julgamento de escolas de samba, a avaliação de Dark Sky Paradise seria mais ou menos assim. HARMONIA: nota 10! ENREDO: nota 7 e meio!

Relativamente novo no cenário profissional do hip hop, a carreira de Sean Michael Leonard Anderson – o Big Sean – deslanchou de verdade a partir de 2011, quando lançou o primeiro disco, Finally Famous, apadrinhado pelo poderoso Kanye West e contando com uma ajuda de produção mais do que especial de No I.D. Nos EUA, as cenas de rap e hip hop mais conhecidas estão em Nova York e Los Angeles, mas as cenas de Washington e Miami também causam frisson. Sean nasceu em Santa Monica (Califórnia), mas se criou na terra de Jack White, Detroit, onde participava de batalhas de rimas e viveu até ser descoberto e levado ao estrelato por West.

Big Sean 2014 by Robert Wunsch

Em Dark Sky Paradise, seu terceiro disco, o jovem Big Sean mostra refinamento e mira um tipo de hip hop que coagula aspectos da velha guarda do rap com uma boa dose de modernidade sonora. Dois aspectos chamam a atenção imediatamente em seu novo álbum. O primeiro é a verborragia. Tanto Sean como todas as participações especiais – Chris Brown, Ariana Grande, Ty Dolla $ign, Jhené Aiko, Lil Wayne, Drake e até o próprio mentor Kanye West – usam muitas palavras naquele estilo speech próprio do rap de cantar. É um palavrório sem fim. Sean parece quase um virtuose do estilo, chegando a disparar uma boa quantidade de palavras por segundo. O disco todo, tirando um ou outro refrão, é uma torrente de frases e narrações. O outro aspecto é a harmonia, mais rebuscada que o habitual dentro do hip hop mais acessível. A progressão de acordes de Dark Sky Paradise é sóbria, misteriosa em vários momentos e termina por ser algo bastante bonito. Assim, o disco tem duas camadas: ao fundo, uma cama bem feita, acordes bem encaixados. À frente, vozes que encadeiam uma frase na outra quase que sem parar, com rimas, aliterações e alguns trava-línguas.

Nenhuma faixa é apressada. Apenas os vocais correm para fazer longas letras caber em músicas com no máximo 5 minutos de duração. Teclados e produções eletrônicas mostram decisões sóbrias quanto a produção, destacando faixas como nas climáticas “Dark Sky” e “Blessings”, a sombria “Paradise” e “Deep”, uma das melhores do álbum. As batidas eletrônicas também são espertas. Big Sean e sua trupe de produtores não apostaram no óbvio, nem no bate-estaca, e seguiram um caminho muito próprio para o clima mais urbano e noturno que Dark Sky Paradise toma. Mesmo com um jeito mais pop, “All your fault” tem marcações no contra-tempo, criando tensão com o vocal ritmado de Sean e Kanye West. “Stay down” também apresenta uma das batidas mais interessantes do disco, combinando batidas secas com cliques e bumbos profundos, mas macios. Qualquer que seja a faixa, a percussão é um elemento musical que agrega ao ritmo e à harmonia para criar um tom grave à obra. Em momento algum aponta para uma batida mais festeira ou de ritmo mais direto.

Com a ajuda de West mais uma vez e do cantor John Legend, “One man can change the world” é uma black music levada pelo piano. Mesmo não abandonando o rap, é a faixa que mais traz melodias ao trabalho, cortesia de Legend.

Todo o disco tem uma produção feita para se prestar atenção. Diferente de David Guetta, Madonna e outros artistas eletrônicos mais pop, os efeitos de estúdio não explodem em sua cara, chamando a atenção a qualquer custo. Sean & Cia. fazem tudo soar como se tudo naturalmente fizesse parte da canção, devido à tensão e a atmosfera de cada uma. Uma ótima produção sem exageros.

Apesar de todo o clima sério do disco, Dark Sky Paradise tem momentos mais comerciais e menos tensos, como em “All your fault”, “I don’t fuck with you”, “Outro” (a faixa final da versão comum do disco) e a faixa bônus “Research”, com participação de Ariana Grande.  Mas de forma geral, não é como Non-Fiction do Ne-Yo, que acaba sendo um amontoado de canções comerciais com todo o tipo de black music que coube em um CD. Big Sean entrega um trabalho esteticamente mais focado. E embora tenha muitos méritos quanto a harmonias e batidas, ficando acima da média mais famosa e menos artisticamente comprometida, Dark Sky Paradise não chega ao nível de sofisticação que Flying Lotus atingiu com o impressionante You’re Dead (2014), mas segue nessa trilha de qualidade.

A temática de várias letras, no entanto, é ponto menos original do álbum. Durante grande parte do disco, Big Sean reflete, discute, xinga muito e vocifera a favor de sua fama e de sua subida “ao topo do arranha-céu”. É uma autoafirmação de sua posição, ressaltando de onde ele saiu (de uma cidade outrora importante mas que acabou declarando falência recentemente) e sua melhor condição social, que acabou melhorando a vida do rapper e das pessoas ao seu redor (como a sua mãe, que ele cita nas letras). Mas é um tema batido dentro do hip hop e que vemos em praticamente qualquer gueto ou comunidade ao redor do globo.

Sean tem apenas 27 anos. Se continuar nessa caminhada terá uma longa carreira no hip hop internacional e, com o acúmulo de experiência e com reflexões mais maduras sobre a vida, talvez sua subida ao topo seja permeada por situações e aspectos menos maniqueístas. Sua visão da música é interessante, já comprovamos. Agora queremos uma visão social e política – mesmo que autobiográfica – mais adequada também.

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6 comentários em “Big Sean – Dark Sky Paradise (2015)

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