2015 Metal Resenhas Rock

Sylvan – Home (2015)

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Banda alemã faz música para mexer com seu lado mais passional

Por Lucas Scaliza

O quarteto alemão Sylvan, muito ativo durante toda a década de 2000, fez um novo disco que é difícil de resumir em outra palavra que não seja “lindo”. Não há composições ruins nos 77 minutos de rock progressivo, sentimental e sinfônico que é Home. Podemos dizer que não é um disco como Hand. Cannot. Erase., do Steven Wilson, que busca ampliar fronteiras musicais e promover sincretismos, mas dentro de seu estilo, Home é um desfile de bom gosto e um exemplo de como técnica apurada pode ser usada para produzir não apenas música virtuosa, mas música para mexer com seu lado mais passional.

O álbum tem duas forças motoras principais. A voz de Marco Glühmann – que honra a tradição de grandes vocalistas melódicos que sabem usar muito bem seus timbres, como o Michael Kiske (ex-Helloween e ex-SupaRed) – e o piano quase onipresente de Volker Söhl, membro fundador da banda. Não é que guitarra, baixo e bateria não tenham seus pesos em Home, eles têm e estão ótimos, mas não é um disco do King Crimson que dá muito espaço para cada um brilhar sozinho (com exceção dos solos de guitarra, claro).

Trata-se de álbum conceitual sobre a busca de todo ser humano por um lugar no mundo para chamar de “lar” – o que só ocorre no final da jornada. Nas letras, acompanhamos uma mulher vagando por aí e tentando encontrar esse lugar especial. É a segunda vez que o Sylvan constrói um álbum conceitual. A primeira vez foi com o ótimo Posthumous Silence (2006), o disco até agora mais comentado e mais bem recebido por críticos e fãs da banda de Hamburgo. Pelo jeito, o grupo se dá bem com discos conceituais, porque Home rivaliza fácil com Posthumous Silence.

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“Not far from the sky” abre o trabalho com uma orquestração bastante expressiva e tensa que evolui para uma música mais doce. A tradição da música erudita europeia pode ser sentida aqui em todo o seu peso, algo que os ouvintes de metal melódico já estão bastante habituados. É uma introdução orquestrada bastante longa. A banda entra em seguida, na ótima “Shaped out of clouds”, cujo refrão fisga o ouvinte e o convence, de uma vez por todas, a continuar ouvindo.

O trabalho de criação de melodias é algo que beira o estupendo em Home. O refrão da longa “In between” é vigoroso, enquanto a faixa “The sound of her world”, com mais de nove minutos, já pode entrar na disputa como uma das faixas mais bonitas de 2015. “All these years”, “Black and white”, “Off her hands” e principalmente “With the eyes of a child” e “Home” mostram a vertente mais emocional do grupo. Mas isso não quer dizer que tudo seja romântico. Mesmo faixas que pareçam doces evoluem para passagens cheias de riffs, boas viradas de bateria, solos inspirados e partes claramente progressivas, como a parte final de “Black and white” e um trecho na metade de “Point of no return”. Não há nenhuma faixa que seja um típico heavy metal, mas várias faixas possuem boas seções mais pesadas, como “In between” e “Sleep tight”.

“Shine”, uma das principais músicas do álbum, resume a questão: começa como uma típica (e linda) balada power, evolui para um metal mais agressivo com riffs e distorção e chega ao final voltando ao formato de balada, mas com muito maior, com mais instrumentação e força.

De certa forma, Home lembra Force of Gravity (2009) na maneira como a banda vai do gentil ao agressivo na mesma faixa, criando músicas ricas e com estruturas mais criativas que não fazem o ouvinte se sentir perdido. O grupo agora é um quarteto. Além de Glühmann nos vocais e Söhl no piano e nos teclados, a banda é completada por Sebastian Harnack no baixo e o baterista Matthias Harder. O grupo está sem guitarrista “oficial”, mas Home tem um excelente trabalho de seis cordas e solos bonitos que em nenhum momento tendem para a virtuose barata ou exibicionista. Menos notas e mais melodias.

A temática também vale a pena. Muito melhor do que mais um álbum conceitual sobre qualquer historinha fantasiosa e escapista (quando não medieval), Sylvan decidiu colocar a criatividade em jogo e falar de um tema abstrato e universal. Embora o tema – a busca de um “lar” – seja conhecido de várias artes, é incomum (se não for inédito) ser expandido para um disco completo. Além disso, toda a história é narrada de um ponto de vista feminino, o que deve ter aumentado o desafio de compor. Só para lembrar, a história de Posthumous Silence era sobre um pai que começa a ler o diário de sua filha morta e descobre a situação nada boa em que ela estava. São temas mais adultos de uma banda que procura amadurecer sempre.

Não é um disco confessional como o Are We There da Sharon Van Etten ou o Vulnicura da Björk. Nem mesmo é econômico, muito pelo contrário. Home é cheio de som e irradia luz até nas passagens mais melancólicas. Para ouvir de coração aberto.

2 comentários em “Sylvan – Home (2015)

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