2015 Indie MPB Resenhas Rock

Jair Naves – Trovões a Me Atingir (2015)

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Indie rock brasileiro de ótima qualidade

Por Lucas Scaliza

Jair Naves, meu amigo, que disco! Mal ouvi 10 segundos de “Resvala”, a primeira faixa, e já sabia que viria muita coisa boa pela frente, que teria muito o que comentar, que poderia mais uma vez enaltecer a nova cena do rock e da MPB brasileira, que iria comprar o disco. (Se não quiser comprar, pode ouvi-lo na íntegra ou baixar gratuitamente no site do artista).

É bom eu deixar claro que a voz de Naves não é uma voz que me agrada tanto. Não quero com isso dizer que não seja bom ou não seja digno de nota, mas leva um tempo até eu enxergá-la como o melhor timbre para as suas músicas. E imagino que eu não seja o único nessa situação. A ótima faixa “B.”, com vocais de Bárbara Eugênio, deixam muito claro esse contraste. Contudo, a falta de brilho na voz dele é compensada por músicas bem construídas e bem lapidadas com boas linhas melódicas, que ajudam sua voz a ser mais palatável.

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Voltando ao disco: “Resvala” é um rock com guitarras estridentes que às vezes apresenta várias camadas sonoras e às vezes se mostra bastante simples. A música seguinte prova que Naves e sua banda não estão para brincadeira. “5/4 (Trovões a me atingir)” não é, como o nome indica, inteira no compasso 5/4, mas ela tem sim quebras no ritmo. Uma guitarra Fender faz solos, bases e fills durante toda a faixa, enquanto o baixo carrega a música e tem espaço de sobra para brilhar.

Trovões a Me Atingir é um disco de indie rock brasileiro de ótima qualidade. Diferente do que fazia em sua ex-banda, a Ludovic, e mais próximo de um rock de autor, como o do ex-Titãs Arnaldo Antunes, do Hermano Marcelo Camelo (Banda do Mar), de Marcelo Jeneci ou, quem sabe, da versão mais recente e punk de Caetano Veloso. Mas eu diria também que há algo de Thurston Moore (o ex-Sonic Youth, agora em carreira solo) muito presente no disco. Não sei se a influência é direta ou não, mas a algo no trato das canções que lembra o mestre da guitarra noiser.

A faixa “B.”, uma das melhores do álbum, tem esse jeito de não se conformar em ser uma música o tempo todo e troca o 4/4 pelo 3/4 em seu terço final, coloca um solo meio psicodélico de sopro e termina de forma meio tribal. Uma tribo nativa brasileira, que fique claro. Essa não conformidade estrutural em meio a ótimas canções lembra Lee Ranaldo, outro ex-guitarrista do Sonic Youth, e seu último trabalho solo Last Night On Earth (2013).

“Prece atendida”, com violões e violinos onipresentes, lembra uma música regionalista. Quando canta o verso “Me falta o ar” ou “Mas vai passar”, lembra os Beatles em sua fase mais criativa. É uma dessas faixas que nos lembram que estamos, no meio de um álbum, diante de um músico que almeja fazer coisas diferentes, seguir direções sempre novas.

“Resvala”, “5/4…”, “Incêndios (O clarão de bombas a explodir)” e “Deixe/Force” mostra que Naves sabe começar uma música e te manter interessado nela. E dentro de seu indie rock – talvez por falta de melhor definição – vai desfilando influências e criatividade. “Em concreto” tem laivos de kautrock. “Deixe/Force” pula de um galho estilístico a outro com incrível facilidade (uma parte é uma marcação de tempo mais samba/bossa nova, outra seção é quase um rock climático e um refrão que remete a Belle And Sebastian).

Desculpe se há muitas citações de artistas diferentes para tentar definir o som de Jair Naves. É uma obra plural e interessante, difícil de ser classificada – embora seja fácil de digerir. Mas encaro essas pontualidades todas como algo positivo: significa que Trovões a Me Atingir evoca uma série de referências – e não apenas uma – para que tentemos compreender a obra ou pelo menos encontrar um caminho para sacar qual é a do estilo de Naves, quais são suas características mais pessoais, qual é a sua estética, sua marca de autor.

“No meu encalço” é excepcional. Até tenta ser um rock mais regular, bastante calcado numa linha de guitarra bem marcante, mas se desenvolve de forma bastante orgânica até chegar a um crescendo. Guitarra, bateria, baixo e teclado desempenham um trabalho primoroso na faixa, resultado de deixar curioso para ver como é que fica ao vivo.

“Um trem descarrilhado” é doce e termina o disco confortando o ouvinte, mas não é uma faixa fácil. Mesmo que a música peça uma calmaria, a bateria dá um tom de ansiedade que não deixa o ouvinte sossegar e o mantém alerta.

Trovões… assim como o primeiro disco solo de Jair Naves – o E Você Se Sente Numa Cela Escura, Planejando a Sua Fuga, Cavando o Chão com as Próprias Unhas (2012) – não é um disco que vá atingir as massas ou que possua uma canção fácil com potencial para ser hit radiofônico. É uma pena que a conversão de algo mais experimental e independente em produto para o mercado mainstream quase nunca encontre respaldo, porque não falta beleza e criatividade no álbum. Mas ele tem e terá seu público, uma galera mais antenada e com gosto para músicas diferentes.

Jair Naves, como os nomes citados nessa resenha (Ranaldo, Moore, Veloso) claramente busca novos meios de expressar o rock em seu país. E isso é uma qualidade que este blog valoriza muito.

PS. O problema com a voz do compositor nem chega a ser um problema de verdade. Basta algumas rodadas de Trovões a Me Atingir para que você se acostume com ela e o estranhamento passe.

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5 comentários em “Jair Naves – Trovões a Me Atingir (2015)

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