2015 Jazz Live/Ao vivo Resenhas Rock

Van Der Graaf Generator – Merlin Atmos (2015)

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Viagem lisérgica com dois longos momentos épicos, incluindo “A Plague of Lighthouse-Keepers” na íntegra

Por Lucas Scaliza

Recentemente, o King Crimson, uma das bandas pioneiras no rock progressivo inglês, lançou o Live Ath The Orpheum, um recorte de uma parte de duas apresentações que a banda fez em 2014 no Orpheum Theater de Los Angeles. A banda é pioneira na mistura de rock com jazz, incursões ácidas pela psicodelia, muitas passagens instrumentais e muitas músicas estranhas. Ou seja, é esperado que a música resultante disso tudo seja um pouco estranha para ouvidos desacostumados.

Agora temos Merlin Atmos, um registro de mais de duas horas de uma apresentação completa dos também ingleses Van der Graaf Generator gravado durante a turnê europeia do trio em junho de 2013. O grupo segue a linha do King Crimson, como todas aquelas loucuras da turma de Robert Fripp entre outras excentricidades próprias. Dado a densidade de suas músicas e tamanho do registro, diria que Merlin Atmos é um disco ainda mais exigente que o recente lançamento do Crimson.

Isso não é ruim. Principalmente porque um dos chamarizes para este ao vivo é a presença da faixa “A Plague of Lighthouse-Keepers” tocada pela primeira vez na íntegra para um público com seus 24 minutos de viagens ácidas, psicodelia e mudanças rítmicas e atmosféricas. É uma dessas faixas clássicas e pretensiosas que todo mundo gostaria de testemunhar a execução, como é o caso de “Echoes” ou das duas partes de “Shine On Your Crazy Diamond” do Pink Floyd. Que fã de Van der Graaf perderia a oportunidade de saber como a faixa do disco Pawn Hearts (1971) fica ao vivo? Até entrar em Merlin Atmos, “A Plague of Lighthouse-Keepers” fora executada pela banda uma única vez em 1972 para a televisão belga. A espera não é sem motivo: a complexidade da música e toda a variedade de sons que ele propunha em estúdio era algo muito difícil de ser reproduzido ao vivo de forma que se aproximasse da versão do disco original.

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Mas “A Plague…” não é a única atração nem a única faixa mastodôntica do novo álbum duplo. Eles abrem o show com os 21 minutos de “Flight”, uma música épica, mas épica de uma forma estranha e lisérgica. Uma viagem por tempos quebrados, dissonâncias e inúmeras passagens de teclado e piano. Merlin Atmos ainda traz outras 11 faixas (cinco delas com mais de 10 minutos de duração), mas somente essas duas são capazes de levar o fã apaixonado ao delírio e dar uma boa ideia da estética vandergraafiana inovadora para quem está começando a ouvir a banda.

Com tantas músicas cheias de mudanças e progressividade, fica difícil querer descrever cada uma. Basta dizer que este ao vivo é bastante fiel ao clima da banda em estúdio e os timbres são muito similares aos gravados nas década de 1970.  Além disso, nunca deixaram de fazer música progressiva, com balanço e bons refrãos, bons solos, mas cheia de desvios e algumas esquisitices harmônicas e estruturais que são a marca registrada.

O Van der Graaf Generator – que nunca alcançou um status de Pink Floyd ou Yes no mundo do rock progressivo inglês – é uma banda reverenciada no mundo inteiro e que estendeu sua influência para além da década de 70, assim como seus conterrâneos também o fizeram. A banda esteve ativa de 1967 a 1978. Fez uma longa pausa e só voltou à cena em 2005. De lá para cá, lançaram quatro álbuns de estúdio com composições inéditas: Present (2005), Trisector (2007), A Grounding in Numbers (2011) e o instrumental ALT (2012).

E Merlin Atmos, além de dar ao público uma versão completa de um épico clássico como “A Plague…”, soube não ser apenas nostálgico e colocou também músicas da nova fase no show, como “Over the hill”, “Lifetime”, “All that before”, “Interference patterns” e “Bunsho”. Não há canções egressas dos três primeiros discos do grupo, mas tudo bem, ainda há a doçura-agressividade maníaca de “Man-Erg” (também de Pawn Hearts), “Scorched Earth” de Godbluff (1975), “Gog” e a ótima “Childlike Faith in childhood’s end”, ambas de Still Life (1976).

O Van der Graaf Generator recentemente perdeu seu saxofonista e flautista David Jackson. Desde então, o grupo atua como um trio de multi-instrumentistas em estúdio: Peter Hammill assume os teclados, piano, guitarra e vocais. Hugh Banton fica com os baixos, órgãos e backing vocals. E Guy Evans cuida da bateria. São três músicos clássicos da banda que atuam desde os primeiros anos do grupo e se reuniram em 2005. Banton é um destaque a parte: como o órgão/mellotron/sintetizador são instrumentos quase onipresentes no disco, ele precisa usar as mãos para ser o organista que se espera dele e os pés para fazer os baixos das músicas, usando pedais de baixo para isso. Guy Evans dá conta do recado direitinho, contribuindo com seu jeito elegante e preciso de tocar canções com tantas viradas estilísticas. E Peter Hammill está com uma voz um pouco rouca demais e que não manteve a qualidade do timbre e da afinação, mas ele ainda tem poder e aposta na crueza do som de suas cordas vocais. E sua habilidade ao piano é incontestável, como “Flight”, composição de seu disco solo A Black Box (1980), deixa claro logo de cara.

Ao ouvir Merlin Atmos vai parecer duvidável que sejam apenas três ingleses tocando toda aquela variedade de sons. Graças à tecnologia e ao desdobramento de Hammill e Banton entre vários instrumentos, os momentos de maior caos sonoro e elevada dinâmica soam eficientes e mostram que esses sexagenários estão em forma.

Com disposição para turnês, apresentações em festivais e gravando material novo regularmente desde a volta, o Van der Graaf Generator ainda pode surpreender. É a impressão que se tem ao chegar ao fim das mais de duas horas de Merlin Atmos. Com o advento do neoprogressive rock na Europa e nos EUA, o estilo ganhou vida, novos admiradores e muita nostalgia dos grandes álbuns ambiciosos do passado. King Crimson voltou a ativa. O Yes também. Até o Pink Floyd resolveu lançar um disco novo, The Endless River, 20 anos após o The Division Bell (1994). E embora a referência máxima a eles esteja no fim dos anos 60 e ao longo da década de 70, nenhum deles soa datado.

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1 comentário em “Van Der Graaf Generator – Merlin Atmos (2015)

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