2015 Folk Indie Jazz Pop Resenhas

Natalie Prass – Natalie Prass (2015)

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Uma estreia madura

Por Lucas Scaliza

Natalie Prass tem a experiência musical de quem já foi parte de uma boa banda e a qualidade de quem faz música com respaldo acadêmico. Antes de embarcar em uma carreira solo e lançar seu belo primeiro trabalho que leva seu nome, Prass estudou música no conceituado Berklee College of Music durante um ano. Saiu depois que conseguiu uma vaga de tecladista na banda da compositora e atriz Jenny Lewis, que lançou o ótimo The Voyager em 2014.

Nota-se um trabalho de composição e produção bastante meticuloso em Natalie Prass. A voz de veludo com vibrato brilhante de Prass faz uso tanto de naipes de cordas quando de naipes de sopros, o que dá uma cara bastante interessante à sua proposta sonora. Principalmente pelo jeito como usa os sopros, o baixo e a bateria, há um quê de soft jazz em diversas músicas, como “Your fool” e “Bird of prey”, nos lembrando de boa parte do trabalho de Norah Jones. Sem falar nos arranjos orquestrais de “It is you”, que lembra trilhas para filmes da Hollywood de 1940 e 1950, a era de ouro.

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O trabalho é bastante sofisticado. A pegada pop indie que exerceu na banda de Jenny Lewis está presente no jeito leve de conduzir sua música por caminhos mais interessantes e bem menos previsíveis do que se poderia esperar. Natalie mostra seu lado mais acessível na adocicada “Never over you” e seus arranjos mais urgentes nas ótimas “Violently” e “My baby don’t undestand me”. Enquanto isso, “Christy”, sem banda, só com orquestrações e harpa, é uma das mais dramáticas – mas sem crise, ela não pesa a mão como Björk, embora faça questão de deixar claro que seu pop é mais exigente e século XXI, mas com inegável inspiração retrô.

Ser retrô não é novidade. Já faz um bom tempo que o pop, o rock e o soul mainstrem tem se aproveitado do passado para poder oferecer algo novo. Geralmente, misturam tendências contemporâneas com os elementos das décadas de 80, 70 e 60 para criar algo que se possa chamar de novo. Algumas experiências do tipo têm muito sucesso. Outras, acabam se perdendo na própria banalidade. O que chama a atenção em Natalie Prass é a maturidade com que ela encara a empreitada e a negação em utilizar elementos eletrônicos para dizer que é uma artista de hoje. É tudo orgânico, é tudo muito humano.

(Não que exista problema com os elementos eletrônicos. Father John Misty também utilizou banda, orquestra e arranjos eletrônicos em seu novo disco I Love You, Honeybear e é um dos melhores discos lançados até agora em 2015. Tudo depende, como se vê, de como cada elemento se encaixa no conceito geral da obra.)

Os temas do disco de Prass são relacionamentos. Aqueles que não deram certo, principalmente. É quase emotivo acompanha-la cantando o refrão de “My baby don’t understand me” quando o baixo entra em cena pontuando as emoções da cantora. “Nosso amor é como um longo adeus/ … / Para onde você vai quando o único lar que conhece está com um estranho?”, ela canta. Esse refrão foi escrito por ela ao piano logo após uma briga com o namorado. E termina a faixa esperando pelo trem que simboliza a partida dessa relação, uma simbologia tradicional no blues americano.

O trem, esse símbolo de chegadas e partidas, é recorrente no álbum e não demora a dar as caras também no tema autodestrutivo de “Violently”, cujo doce e melancólico refrão expõe sentimentos pesados de quem não aguenta mais: “Só quero te conhecer violentamente/ Já me cansei de falar tão educadamente/ E a vermelhidão está aí, por cima de mim/ Por cima, bem em cima eloquentemente”, ela canta.

natalie prass

Embora seja um disco de fossa, ela não trata o tema como algo adolescente ou como se estivesse deslumbrada com o que nunca realmente existiu. E fala de suas emoções sem precisar abandonar o romantismo ou fazer troça de quem a deixou, a abandonou ou simplesmente de quem não deu certo. E embora todas as letras sejam pessoais e tenham a ver com seus reais relacionamentos, as nove canções não deixam entrever se Natalie superou todas essas questões ou não. Talvez sim, já que todas as músicas estavam prontas desde 2012 e a compositora só não lançou este belo disco antes porque estava ocupada com a banda de Jenny Lewis.

Natalie Prass mal começou a sua carreira solo e já podemos colocá-la ao lado de talentos como Norah Jones, Sharon Van Etten, Lykke Li, Marisa Monte e a própria Jenny Lewis. Sem falar que ela também é amiga de Ryan Adams, outro ótimo compositor do indie. Bem relacionada e com um ótimo trabalho no portfólio, esperamos mais coisas boas no futuro dela.

3 comentários em “Natalie Prass – Natalie Prass (2015)

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