2015 Resenhas

Ólafur Arnalds & Alice Sara Ott – The Chopin Project (2015)

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Música do século 19 recriada no século 21 com aparelhos vintage do século 20

Por Lucas Scaliza

Ólafur Arnalds é mais um músico de talento de uma nova geração de músicos islandeses inspirados que estão ganhando nichos fora da ilha e, com algum custo, até fora da Europa. Arnalds é um multi-instrumentista que já foi baterista de banda de rock pauleira e atualmente se divide entre a música eletrônica – por meio do projeto Kiasmos, junto do também islandês Jamus Rasmussen –, a trilha sonora (ele participou da trilha de vários filmes, incluindo o primeiro Jogos Vorazes, e faz a trilha da série britânica Broadchurch) e a música erudita e ambiente, que foi o estilo de And They Have Escaped the Weight of Darkness (2010). Já For Now I Am Winter (2013) mistura programações eletrônicas e um pop lento e etéreo. Também já compôs seu próprio balé, chamado Dyad 1909. Ou seja: mais um músico que borra as fronteiras da arte, que trafega por vários estilos e formas e as funde para criar algo original.

Agora Arnalds uniu forças com a pianista erudita nipo-germânica Alice Sara Ott para lançar The Chopin Project, um bonito disco instrumental que serve tanto para admiradores de música erudita, admiradores de Frédéric Chopin e de Arnalds. A interpretação dos dois músicos de Chopin conserva as características do compositor ao mesmo tempo em que traz a sonoridade para a contemporaneidade, soando como as obras de Ólafur.

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Como parte da era Romântica da música erudita, a música de Chopin tinha muitos momentos virtuosos, mas não são eles que dão a tônica em The Chopin Project. As características do compositor e do período que permanecem são a emoção empregada na execução de cada música, no tempo de cada nota, na duração de cada clima, a forma suave ou mais acentuada de abaixar as teclas do piano e o aumento ou diminuição da dinâmica. São mudanças sutis às vezes mas que fazem toda a diferença, seja no retrato do período Romântico ou da forma de se expressar que fez a fama de Chopin. “Piano Sonata No. 3: Largo ” é um bom exemplo de como Arnalds e Alice Sara Ott reproduzem tudo isso.

Enquanto “Piano Sonata” é protagonizada pelo piano, “Nocturne in C Sharp Minor” dá todo o espaço para um violino carregado de tristeza ser a música, sem nenhum acompanhamento. Todas as faixas estão interligadas, sem finalizações rígidas, prolongando-se até a introdução da música seguinte.

Na obra de Chopin é comum encontrar peças apenas para piano (que era o seu instrumento por excelência) e até sinfonias. Mas mesmo as sinfonias usavam a orquestra (as madeiras, a percussão, as cordas) de modo bastante comedido e com ênfase apenas em momentos chave. O brilho ficava mesmo para o piano. The Chopin Project respeita isso (como em “Nocturne in G Minor” e “Eyes shut – Nocturne in C Minor”), mas monta um repertório que explora a musicalidade além do piano, como a linda “Reminiscence”, que vai incorporando novos instrumentos aos poucos e dando cada vez mais dramaticidade a sua melancolia. “Written in Stone” é outra aflitiva que abusa do som cortante dos violinos para criar sua tensão.

Ólafur ouve Chopin desde criança. No entanto, no vídeo de divulgação do trabalho, diz que todos interpretam e gravam as partituras do polonês da mesma forma, com a mesma intenção. O que ele e Alice Sara Ott se propuseram foi manter Chopin presente de alma e mente, mas dando um corpo ligeiramente diferente a suas criações. O que parece uma orquestra – e seria mesmo uma orquestra em outras gravações – é um sintetizador ou um teclado ligado a diversos outros moduladores de som. A introdução de “Letters of a traveller” deixa isso claro: o som profundo e eletronizado é provavelmente um piano, mas a princípio soa como uma percussão abafada.

Ólafur usou diversos equipamentos antigos de captação de som para conseguir o clima de intimidade que procurava e usou diversas técnicas de mixagem para ressaltar os sentimentos de solidão e tristeza que eram tão presentes no humor de Chopin quando compunha.

Importante dizer que não se trata de um álbum que faz cover de composições de Chopin. Metade do álbum é de composições da dupla e Chopin surge como um guia e contribuinte. “Verses”, a primeira faixa do disco, é uma composição de Arnalds, mas usa a o tema de mão direita da “Sonata No. 3: Largo” de Chopin. No entanto, a Sonata é logo depois interpretada em sua forma original por Alice.

E o trabalho todo se configura dessa forma: primeiro uma composição original que se apropria de algum tema e do sentido artístico de Chopin. Em seguia, a partitura original é apresentada, colocando Alice Sara Ott no centro das atenções. Alice tem bastante espaço para improvisar também, mas nunca a música se deixa levar pela técnica fria ou exibicionista. Nada de abaixar teclas de piano como se estivesse em uma competição aqui. The Chopin Project pode ser ouvido como uma trilha sonora, como uma reimaginação de Chopin (o que é muito interessante para o público da música erudita e fãs do compositor) e também como uma peça que traz o antigo – a música de Chopin do século XIX – para um contexto novo do século XXI usando aparelhos vintage do século XX. É, assim, uma experiência sonora e estilística que deu muito certo.

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1 comentário em “Ólafur Arnalds & Alice Sara Ott – The Chopin Project (2015)

  1. Pingback: Ólafur Arnalds – Island Songs (2016) | Escuta Essa!

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