2015 Folk Metal Resenhas Rock

The Gentle Storm – The Diary (2015)

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De um lado o folclore holandês, de outro o metal de Arjen Lucassen

Por Lucas Scaliza

O projeto The Gentle Storm parece querer levar a ambição de combinar metal melódico, orquestrações e música folclórica europeia à suas últimas consequências, trazendo um pouco do que seria a sonoridade da música popular holandesa do século 17 para um formato contemporâneo de versos, solos e refrãos e depois reinterpretando tudo em um contexto metaleiro. Será que são bem sucedidos? Antes de responder a essas questões, vamos explicar o que é The Diary e quem está por trás dessa banda.

The Gente Storm é uma banda que uniu o guitarrista, letrista e compositor de rock progressivo Arjen Lucassen – famoso pelo projeto Ayreon, cujo disco The Human Equation é um clássico contemporâneo de opera rock – e a soprano Anneke van Giersbergen, que foi a voz da banda The Gathering de 1995 até 2007 e inclusive participou de dois discos do Ayreon. Ambos os músicos são holandeses.

Anneke van Giersbergen e Arjen Lucassen
Anneke van Giersbergen e Arjen Lucassen

The Diary é o primeiro disco dessa parceria. São 11 composições, mas o disco é duplo. Cada composição é apresentada em duas versões: no primeiro disco, o lado Gentle, a pegada é mais folclórica. No segundo, o lado Storm da obra, as canções são tocadas por uma banda de rock e metal. Em ambos os casos acontece – mas não é regra geral – de uma orquestra aparecer para completar o som.

A versão folclórica não é mero capricho estilístico da dupla de holandeses. The Diary é um álbum conceitual (especialidade de Lucassen) que conta uma história de amor que se desenrola no século 17 entre Joseph Warwijck e Susanne Vermeer.

O resultado é muito interessante musicalmente falando. O lado mais rock do trabalho é melhor aproveitado por quem não está acostumado com rock e metal sinfônico de tradição acentuadamente europeia, mas para quem já conhecia o trabalho de Arjen Lucassen no Ayreon e em suas outras bandas, é uma forma um pouco repetitiva de se expressar, mas nada que seja chato de ouvir. Já o lado mais folclórico tem um sabor mais fresco e também mais celta em alguns momentos. Dada a ambição de trazer a música do século 17 para os dias de hoje, o grande acerto da dupla está no trabalho com os arranjos, muito bem feitos principalmente no lado Gentle. Mas não se engane: Anneke e Arjen não estão fazendo música celta e folclórica europeia de raiz ou “de verdade”. A composição é pensada para obedecer às regras de uma canção pop (versos, refrãos, solos, pontes) que se encaixe também no molde de rock e metal, mas que possa ser adapta para instrumentos acústicos, como flautas, violinos e piano.

Mesmo as versões metaleiras não deixam de incluir os elementos mais folclóricos – que são o grande tchan do projeto –, mas eles ficam mais vivazes no lado Gentle. A guitarra de Arjen e seus esquemas de composição são bem manjados (caso tenha acompanhado a carreira dele) e pode parecer até um pouco como um déja vu às vezes. Mas Arjen sabe ir diversificando o som para manter o interesse em The Diary. Embora tudo soe europeu demais, uma canção como “Shores of India” se permitem incluir linhas melódicas indianas. Anneke está praticamente irrepreensível. Sua voz é cristalina e não agride os ouvidos. Mesmo na versão Storm do disco ela não parece forçar a voz, mas canta a melodia com mais intensidade para melhor se adequar ao estilo musical. As melodias de voz são muito bem trabalhadas e a obrigam saltar para notas agudas com frequência. O controle de sua voz é impressionante e se adapta muito bem tanto para o lado Gentle quanto o lado Storm. A soprano mexicana Marcela Bovio, a vocalista do Strem of Passion (outra banda de rock sinfônico arquitetada por Arjen Lucassen), faz os backing vocals e se mostra competente como sempre.

“Heart of Amsterdam”, uma das melhores faixas do disco, é também uma das composições mais interessantes de se observar como sua delicada versão folclórica ganha ares roqueiros. Já “Endless Sea” tem uma orquestração na versão folclórica que até pode enganar o ouvinte mais descuidado e fazer parecer que são resquícios de música erudita. No entanto, aqueles violinos só estão fazendo o que uma guitarra faria na versão Storm.

O maior mérito de The Gentle Storm é fugir do metal épico que inunda o cenário heavy metal atualmente propondo sonoridades que olham para o passado e o reinterpretam como a estrutura musical de hoje – uma busca de sons e modelos no passado que a própria música erudita já faz há algum tempo e conseguiu resultados inovadores. Anneke e Arjen fazem boas músicas juntos, mas o projeto é mais valioso quando pensado no conjunto da obra do que em suas músicas individualmente.

The Diary não é nenhum disco do ano – a menos que seja muito fã de Arjen Lucassen – e soa bastante flat, como se faltasse algum elemento surpresa, sobretudo no lado Storm. Vale a pena ser ouvido, mas se vai ficar marcado na sua história ou na sua discografia, aí é outra história.

thegentlestorm

2 comentários em “The Gentle Storm – The Diary (2015)

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  2. Pingback: Anneke van Giersbergen & Árstíðir – Verloren Verleden (2016) | Escuta Essa!

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